Há cerca de 5 anos voltei a brincar com carrinhos de metal, quando o meu filho mais velho começou a divertir-se a alinhá-los em engarrafamentos ou em pole positions. Para isso muito contribuiu o seu fascínio pelo filme Cars, e os respectivos brinquedos, que reavivaram para uma geração o que os velhinhos carros da Hot Wheels fizeram com a minha geração.

No meu caso essa diversão com carros de metal começou até com alguns que herdei de primos mais velhos, de marcas genéricas, onde a tinta lascada foi rapidamente recuperada com pintura de esmalte que os colocou como novos.

Trazer estes brinquedos para os videojogos incorre invariavelmente em dois cenários possíveis: ou falamos de um jogo de corridas genérico que apenas tem um carimbo mal-amanhado de uma marca conhecida, ou uma tentativa gorada de reinventar a roda (ou as quatro rodas). No caso do recém-lançado Hot Wheels Unleashed abre-se uma terceira via: a de um jogo que é mais do que uma exploração simples de uma marca, e é ao mesmo tempo um excelente jogo arcade.

É indiscutível, seja pelo valor nostálgico ou até pelo teste do tempo, que os velhinhos jogos de Micro Machines são, possivelmente, dos melhores jogos a conseguirem equilibrar um bom jogo e a imersão de carros de brincar. 

Admito o meu próprio preconceito ao ver chegar ao mercado mais um dos milhentos jogos de Hot Wheels. A ideia pré-concebida que vinha aí apenas “mais um” é demasiado presente para ser evitada. E teve de ser o próprio Hot Wheels Unleashed a provar-me o contrário.

Ver o veterano estúdio italiano Milestone a afastar-se daquilo que tão bem sabem fazer: simuladores de corridas de motas, e abraçarem um jogo que tinha tudo para não ter o patamar de excelência que possui.

A boa verdade: a Milestone decidiu não inventar nada do que podemos esperar de um jogo de corrida de arcadas. Com elementos físicos retirados de Mario Kart – outro standard do género – e só faltava percebermos o enquadramento conceptual para vermos para onde Hot Wheels Unleashed se poderia direccionar.

Muitos jogos de conversão de brinquedos tendem a inverter a escala. Carros que deixam de se brinquedos e passam a ser veículos reais. Mundos que de micro pouco têm, e onde os humanos passam de ter um carro na palma da mão para poderem sentar-se dentro dele. 

A Milestone percebeu com Hot Wheels Unleashed o contexto da marca. De que forma utilizar os emblemáticos segmentos azuis escuros e laranjas das pistas de Hot Wheels para os introduzir em ambientes “reais”. Onde as pistas e os carros têm o tamanho de brinquedos. E nós ali estamos, condutores microscópicos na posse de um volante que existe apenas como parte de um bloco de plástico do interior de um carro de brincar.

Ao longo dos mais de 60 níveis do modo arcade temos excelentes inclusões e concepções de trajectos criados a partir das referidas pistas azuis e laranja. 

O melhor que Hot Wheels Unleashed consegue fazer – muito graças ao seu rigoroso sistema de texturas  – é o de nos fazer sentir como parte integrante de um dos filmes do Rick Moranis, encolhidos até um carrinho de metal de brincar ser maior do que nós. Onde a alta velocidade e os truques que conseguimos fazer com estes carros que percorrem disparados as pistas e curvas por ambientes quotidianos fazem tudo ser estranhamente realista, e ao mesmo tempo divertido.

É neste modo que aos poucos vamos desbloqueando uma boa ideia de Hot Wheels Unleashed e que ao mesmo tempo é ensombrada por uma má decisão fruto do mercado contemporâneo. Como recompensa vamos recebendo caixas mistério de carrinhos, onde nos podem sair carros novos ou, infelizmente, duplicados. A ideia de inserir as caixas reais que sempre vimos à venda com os carrinhos de metal lá dentro é uma excelente ideia, mas a necessidade de termos de fazer grind para conseguir comprar novas caixas mistério (felizmente Hot Wheels Unleashed ainda não possui micro-transacções com dinheiro real), sendo que o jogo nem tem a amabilidade de impedir estas Blind Boxes de nos darem um carro duplicado. Apesar desse duplicado poder ter melhores estatísticas que o anterior, e de o podermos vender se quisermos, para coleccionistas isto é um prolongamento artificial do jogo.

Com os habituais modos multiplayer, locais e online – sendo estes a melhor fonte de moedas para comprar Blind Boxes – Hot Wheels Unleashed é um dos melhores jogos de corrida de arcadas que joguei nos últimos anos, e o único que tenho memória a conseguir servir de uma excelente sequela espiritual a maravilhas de há 30 anos como Micro Machines ou RC Pro AM.