No ano passado Marvel’s Avengers foi lançado em tom de euforia, procurando herdar o bom momento que os jogos de super-heróis estavam a ter depois do excelente Marvel’s Spider-Man. Mas o resultado foi uma grande desilusão, por ser um jogo as a service dominado por micro-transações, num claro aproveitar da boa vontade dos fãs. E se a sua campanha a solo, centrado numa aventura original dos Vingadores era realmente boa, quando o jogo se ramificou na componente multi-jogador foi deitado por terra. Avengers tornou-se no maior exemplo de como não fazer uma experiência multi-jogador, com missões random e sem qualquer interesse. 

E por causa disso, um ano depois a Square Enix ter lançado Marvel’s Guardians of the Galaxy, esperava-se que fosse uma espécie de expansão ao jogo original, esperando-se um fim semelhante. Mas os jogos foram desenvolvidos por estúdios diferentes, Avengers é da Crystal Dynamics de Tomb Raider e o novo Guardians of the Galaxy é da Eidos Montreal, que também desenvolveu o último Shadow of the Tomb Raider, mas também a série Deus EX. 

E desde já, bastam alguns minutos nesta nova aventura para entender que o jogo não tem nada a ver com o lançamento anterior. Estamos perante um jogo de ação puro e duro, sem elementos RPG tradicionais ou farming de loot. E diga-se de passagem, é uma das maiores surpresas do ano, impulsionado pelas próprias fracas expectativas. E quem viu e gostou de ver os filmes, o jogo capta muito bem a personalidade, e sobretudo, a química entre as diversas personagens. 

Mas tal como Avengers, o estúdio não se colou ao design dos filmes, tampouco foram contratados os respetivos atores. O estúdio procurou versões próprias, mas tirando a personalidade inesquecível de Dave Bautista no seu Drax, todos os restantes cumprem bem. 

E esse é o maior selling point do jogo, a forma intrínseca como as personagens estão presentes na aventura. Apesar de só controlarmos Peter Quill, o StarLord, o restante grupo acompanha sempre o protagonista, não havendo um único minuto de silêncio, em que as mesmas não estejam ora a comentar o que está a acontecer, ou a picarem-se uns aos outros ao ponto de ficarem amuados. E até somos prontificados a defender ou a meter água na fervura nas intervenções. 

E como seria de esperar, todos os momentos do jogo são hilariantes, repletos de humor e situações ridículas como vemos nos filmes. E acreditem, há muito tempo que um jogo não me fazia soltar gargalhadas do nada. Rocket Racoon é simplesmente hilariante, a personagem mais mal encarada do grupo, capaz de criar um mal-estar por não concordar com os planos. Ou o Drax, sempre inconveniente, dizendo tudo o que lhe passa na cabeça. Até o Groot manifesta uma grande personalidade durante as suas intervenções. E claro, a sensual Gamora, mas uma formidável assassina, a personagem que consegue manter um pouco de ordem no grupo.

Estamos perante uma aventura linear, composta por 16 capítulos, sem qualquer elemento multi-jogador. A história é realmente boa, alternando entre os sarilhos que o grupo se mete, com alguns flashbacks do adolescente Peter na sua vida na Terra com a mãe, antes de ser raptado.  O jogo tem uma duração considerável, com cada capítulo a durar cerca de uma hora. 

Apesar de controlarmos apenas Star-Lord, é possível ativar as habilidades especiais dos companheiros, não só durante a ação, como na resolução de puzzles. A ação é estupidamente gratificante, sobretudo quando desbloqueiam a maioria dos golpes das personagens e compreendem as melhores situações em que as devem utilizam, já que obedecem a um cooldown. 

Groot imobiliza os inimigos com os seus galhos, mas também estende pontes para superar obstáculos. O Racoon dispara o poder das suas armas, mas também é o responsável por hacking nos terminais. Drax arremessa objetos aos inimigos ou os move para acedermos a certos locais. E Gamora usa os seus golpes melee, mas também ajuda a trepar para locais elevados. Há uma constante dinâmica no controlo do grupo, uma vez que Peter usa as famosas blasters, mas também a sua máscara para analisar os elementos do cenário através de raio-X. 

Todas as personagens podem desbloquear quatro habilidades através de pontos acumulados através da experiência, sendo o único elemento RPG do jogo. Todos têm ainda uma habilidade especial, desbloqueadas ao longo da aventura. De notar que a arma de Peter também vai sendo atualizada, com ataques de gelo, eletricidade ou fogo, por exemplo.  

Ainda no que diz respeito à história, o estúdio fez um excelente trabalho em explorar a fundo cada uma das personagens, todas elas lutam com os seus demónios internos, como a família de Drax, Gamora com a sua irmã Nebula, por exemplo. E a transformação da química das personagens é acompanhada pelo jogador, entre as discussões constantes ao início da aventura, assim como a desconfiança no grupo. Até ao companheirismo que vai surgindo no decorrer da campanha, sempre com diversas cut scenes, mas sobretudo diálogos constantes durante o gameplay. Foi feito realmente um excelente trabalho no voice acting. 

E por falar em som, a banda sonora é um luxo, pautado constantemente por músicas licenciadas dos anos 1980, integrados na história e ação, como os jogadores até podem mudar na nave, que serve de hub nas viagens entre os planetas. Imaginem combates enquanto ouvem Wake me up dos Wham ou um rick roll promovido pelo Rick Astley. 

Infelizmente o jogo tem alguns problemas técnicos, um deles que não consigo perdoar: uma má otimização, com o jogo a soluçar incompreensivelmente nesta versão Xbox Series X. O framerate a cair para os 20 frames ou menos na ação mais intensa, sobretudo nos últimos capítulos. Esperemos que o estúdio corrija este ponto o mais rápido possível. 

A Eidos Montreal fez um excelente trabalho nesta adaptação do grupo mais tresloucado da Marvel. Fez tudo aquilo que Avengers deveria ter sido, uma história imersiva, com personagens populares. E neste caso, Starlord e companhia são super divertidos, carismáticos e com uma química fantástica. Uma excelente forma de manter o jogador focado numa única personagem, mas sem nunca ficar sozinho. E por isso, este é uma das grandes surpresas do ano, juntando-se facilmente a um dos melhores títulos de 2021, para já.