Não sei quantas cópias venderam de Wildermyth mas acredito que este jogo da Worldwalker Games tenha passado debaixo do radar da maior parte das pessoas. Que é pena porque é dos tactical RPG mais originais e inovadores que joguei nos últimos anos. E para alguém que jogava quase exclusivamente RPGs e Tactical Games é dizer mesmo muito. Wildermyth pode ser resumido na seguinte frase: É jogar D&D, mas sozinho.

Para quem joga muitos RPGs clássicos desde D&D 3.5 e Advanced D&D nunca, em tempo algum imaginei possível um jogo de PC/Consola que conseguisse ter o desenvolvimento natural de história e personagens conseguido num RPG de mesa, era algo impossível. Há algo aleatório do rolar dos dados, das decisões e discussões feitas naquele momento que nenhum grande RPG electrónico como um Baldur’s Gate ou Divinity consegue fazer. O enredo e as suas ramificações possíveis estão todas desenhadas. Temos alguma escolha, mas acaba por estar em carris, ou na melhor hipótese numa autoestrada. Podemos parar numa ou outra estação de serviço, ou podemos fazer uns desvios mas ir na A1 é ir na A1,  entramos em Lisboa e saímos no Porto não há muito mais a fazer. Wildermyth também não é o equivalente a fazer off road mas é ir pelas estradas rurais à nossa vontade e ao sabor do vento.

Wildermyth é um RPG com histórias, cenários, missões e mapas procedurally generated. Quando o jogo me foi sugerido no Steam não queria acreditar que fosse capaz de fazer o que prometia. Disse logo que seria impossível criar uma linha coesa entre missões aleatórias, com ramificações que dependiam das minhas decisões e ainda meter histórias e desenvolvimento de personagens consistentes pelo meio. Mesmo assim comprei-o para ver o que lá existia. Quando acabei a primeira campanha de 3 capítulos engoli as minhas palavras, mas com gosto por ter sido desmentido. Ao fim de umas 11 horas de jogo e mais uma campanha de 5 capítulos, estava viciado.

Há uma certa magia na simplicidade com que Wildermyth consegue fazer o que faz. Dentro do jogo há algumas campanhas com arcos em 3 ou 5 actos pré definidos, estas campanhas preparam o setting mas tudo o resto, os mapas, os personagens que encontramos e recrutamos e todas as missões para chegar ao fim são aleatórias, mas através de uma combinação inteligente de cartas para inimigos, decisões do jogador e personalidade dos personagens vamos desenvolvendo uma história que acaba por ser uma aventura épica dando aos nossos personagens o estatuto de lendas com uma história própria para cada um.

Os meus heróis, sim há um meio-corvo com cabeça de lobo e uma mulher esqueleto. Outra tem um frango de fogo. Aconteram cenas…

Os personagens começam sempre como camponeses que evoluímos para guerreiros. Uns são amigos, outros tornam-se rivais ou amantes, com o passar de cada capítulo (10 anos entre cada um) a suas histórias avançam, têm filhos que crescem e juntam-se à nossa party ou recrutam estranhos para a mesma. Alguns morrem em missões e podemos fazer monumentos em sua memória. Outros quando conseguem sobreviver os anos necessários, retiram-se mas não sem antes passar a sua experiência para um membro que continue. Esta é uma mecânica excelente porque muitas vezes é no final do capítulo 3 ou 4, e em vez de perder totalmente as capacidades de alguém que estivemos a evoluir até esse ponto podemos dar parte desse XP a alguém para equilibrar as contas. No final é sempre bom ver e comparar os caminhos deles.

Jangar e Althor são dois dos meus heróis originais da campanha 2 e pelas suas histórias e aspecto dá para ver como é possível terem caminhos tão diferentes apesar de lado a lado como amigos.

A jogabilidade é simples, uma espécie de Xcom-lite em que temos guerreiros ranged, melee e uns mágicos que conseguem ligar-se a objectos no cenário e usá-los como armas. Os inimigos são variados e quando encontramos o equilíbrio perfeito nos settings de dificuldade que tornam o jogo desafiante mas não exageradamente é um prazer jogar. Não sei se há muitos pontos negativos que possa levantar em Wildermyth sem ser que alguns jogadores o possam achar repetitivo ao fim de algum tempo. Não foi algo que tenha acontecido comigo, nem sequer quando encontrei a mesma missão em duas campanhas diferentes, como os personagens e inimigos eram diferentes tal como a opção que escolhi pareceu algo novo.

A arte em estilo papel recortado encaixa muito bem no conceito de RPG de mesa feito digital.

Wildermyth é altamente recomendado e para quem acha que era perfeito para portar para a Nintendo Switch não esperem, os devs já disseram que como o motor é feito por eles iria demorar pelo menos um a dois anos para o fazer. Portanto, apoiem-nos e comprem aqui.