A série Call of Duty está neste momento dividida em três segmentos principais, focado em períodos históricos diferentes. A produtora original Infinity Ward dedica-se ao palco moderno-futuristico com Modern Warfare; a Treyarch tem vindo a oferecer os palcos da Guerra Fria com Black Ops; e a Sledge Hammer agarrou no cenário original da Segunda Guerra Mundial, primeiro com WW2 e agora o mais recente Vanguard. Felizmente os jogos baseados em guerras futuristas e de ficção científica foram colocados de parte. 

Além das três produtoras principais, a Activision tem basicamente todos os seus estúdios envolvidos em cada episódio, o que continua a ser a sua principal série. Não faltará muito para vermos a Blizzard a criar o seu próprio Call of Duty. Ouviram aqui primeiro.

Vanguard foi um jogo que teve, muito provavelmente, a promoção mais discreta dos últimos anos. Talvez pelas polémicas relacionadas com as ações judiciais da Activision Blizzard, e para tentar manter o jogo à margem. Mas o certo é que muito pouco se sabia do jogo no seu lançamento, ou melhor, o hype era inexistente, tendo sido lançado sem muitos darem sequer conta.

Mas este Vanguard acaba por surpreender, no que diz respeito à sua história, porque traça um formato um pouco diferente dos títulos anteriores. Estamos habituados às narrativas intensas, cheias de set pieces hollywoodescos, e este não é exceção. A diferença é que todos os nove capítulos, com uma duração de cerca de 6 ou 7 horas como é costume, são debitados de forma contínua, como um filme. Ou seja, sem briefings e interrupções que seja. É cut-scene, gameplay, cut-scene, e assim adiante até rolarem os créditos, sem qualquer loading no processo, a avaliar esta versão PS5. 

E diga-se de passagem que Vanguard tem, muito provavelmente, um dos melhores sistemas de captura dos atores que vestem as personagens. As sequências cinematográficas, as expressões faciais e o voice acting são realmente incríveis, naquele que pode ser a toada da nova geração. Mesmo que este jogo ainda seja cross-gen. Ao contrário de outros jogos com sequências cinematográficas, este mostra expressões credíveis, diálogos com os olhos, muito acima da qualidade das grandes produções atuais. E este é o maior elogio que podemos fazer a este Vanguard: quero mais jogos com cinemáticas com esta qualidade. 

Muito disso deve-se claro, ao elenco de atores bastante experiente, que ajuda a criar algumas cenas dramáticas ainda mais intensas. Vão rapidamente conhecer Laura Bailey, a Abby de The Last of Us 2 a assumir a bad ass Polina Petrova; Dominic Monaghan, o hobbit Merry do Senhor dos Anéis no fantástico vilão nazi Jannick Richter; ou James Frain, o pai do Spock, Sarek em Star Trek Discovery a assumir Oliver Hamms.

A história deste Vanguard mistura elementos factuais da segunda guerra mundial, com uma narrativa fictícia naquele que seria o pós-guerra. O jogador assume um esquadrão de elite que tem de encontrar aquele que se assume como o sucessor de Hitler, para que os nazis não se reergam no final da guerra. No entanto, iremos conhecer o passado de cada um dos membros da equipa em flashbacks que correspondem a algumas das missões do jogo. E nesse sentido, seremos transportados para a campanha de Midway em dogfights intensos de aviões ou as campanhas no Líbano e Egito no Norte de África. 

Como seria de esperar, o jogo não inventa a roda, mantendo-se fiel em tudo com os jogos anteriores. Procura recriar com fidelidade as armas da época, num vasto arsenal. Cada personagem que controlamos tem uma habilidade especial, seja sniper, capacidade de colocar a ação em câmara lenta relevando a posição dos inimigos, ou quando estão na pele do sargento dar ordens aos companheiros para atacar certos pontos. Estes são gimmicks que praticamente não afetam a ação e raramente estão disponíveis. 

Embora a série Call of Duty nunca tenha sido bandeira para o que melhor se faz no campo da inteligência artificial, este Vanguard consegue irritar pela burrice aguda dos inimigos. Ora ficam especados no cenário, como que à espera de serem ativados quando o jogador se aproxima, ora passam por nós sem nos ver. É um aspeto que tenho presenciado nesta geração de consolas em que todos os recursos vão para os gráficos, e quase nada para a IA, sendo outro exemplo Far Cry 6. 

E se graficamente é aquilo que procuram, então vão ficar satisfeitos com o detalhe dos cenários, dos modelos das armas e todo o ambiente em geral. Dos céus onde se vê os aviões em guerra, os tanques, explosões e muitas partículas por todo o lado. Enche o olho, mas faz-nos sentir que o jogo é mais automático do que nunca e que nós somos apenas o elemento que faz trigger aos scripts de tudo o que se passa. 

Mas no geral, a campanha é intensa, divertida e repleta de ação, por muito artificial que possa ser em muitas sequências. As cinemáticas e a fluidez narrativa valem a pena, como sempre, participar nesta guerra. 

Deixando de lado o battle royale Warzone que passa a estar disponível nos três últimos jogos da série, além da campanha o pacote oferece os habituais modos multiplayer e zombies. Mais uma vez não vão encontrar nada de novo, no que diz respeito a algo refrescante nos dois modos. 

O Zombies é, como sempre, tudo sobre matar os zombies, numa mapa repleto de portais para outros locais. Apanhar itens, ativar bosses e apanhar power ups, numa experiência co-op a 4. Se jogaram os anteriores formatos vão estar à vontade. A narrativa liga-se à campanha principal no que diz respeito aos nazis continuarem a procurar artefactos para mexer no sobrenatural como arma para revirar o desfecho da guerra, contra o poderio dos aliados.

Já os restantes modos de escaramuças online é todo um mundo à parte, onde estão concentrados a maioria dos fãs da série. Mais uma vez pouco há a assinalar, sendo um caos completo os mapas mais pequenos, independemente do modo que estão a jogar, seja um simples team deathmatch, domination ou um kill confirmed. 

Há dois novos modos de jogo: o Patrol e o Champion Hill. O primeiro foca-se num círculo em movimento pelo mapa em que os jogadores devem manter-se no seu interior para continuar a pontuar, evitando os ataques constantes dos jogadores inimigos. O Champion Hill é semelhante ao clássico Gunfight, jogado em duos ou trios, colocando oito equipas no mapa. Há um número limitado de vidas e orçamento para comprar armas que deve ser gerido. Ganha a equipa que manter as suas vidas quando todas as equipas adversárias são eliminadas. 

Call of Duty: Vanguard cumpre os mínimos na série. Deixou de ser um jogo surpreendente e chega ao mercado recebido com a mesma paródia anual como um FIFA. O jogo não acrescenta nada aos anteriores títulos, sendo apenas competente no geral, ora se goste mais da campanha ou do formato online. Seja como for, o ambiente da segunda mundial continua a ser explorado, apesar de estar mais batido do que nunca. Que histórias ainda estão por contar?