A minha história com Time Loader não começou da melhor forma. Este jogo foi finalista do Indie X, mas não pertencia ao meu rol de apresentações. O João Correia arranjou uma desculpa qualquer para ficar na ronha e tive de o substituir. Há males que vêm por bem, porque este joguinho é muito divertido.

Antigamente um jogo de plataformas era bastante simples e bastava assentar toda a sua base na jogabilidade para ser bom. Sonic ou Super Mario são bons exemplos disso. Com o tempo o jogador começou a cansar-se dessa oferta e tornou-se um público gourmet. Este género é um dos que mais se reinventou, algo exacerbado pelo advento indie, que praticamente o cruzou com tudo o que mexe, de tal forma que até Mendel se sente um menino e passa agora horas ao paleio com Kant para perceber porque nunca consegui formular cruzamentos tão complexos.

Com gráficos tipo desenho animado o jogo é bastante bonito. São perfeitamente perceptíveis as múltiplas referências a cultura pop, todas elas a encaixar perfeitamente no jogo em si. Até cenas de filmes estão representadas de forma muito bem pensada e executada.

Ora Time Loader tenta acrescentar ao simples jogo de plataformas uma história densa e capaz de nos agarrar. Voltamos atrás no tempo para alterar um acontecimento. Tenho que reconhecer que a história está sempre presente, encaixa perfeitamente no jogo sem nunca parecer forçada, e serve de forma perfeita como guia ao longo dos múltiplos níveis, mas a forma como está formulada não nos incute o poder emocional que a equipa de programadores provavelmente gostaria que fizesse. Tem também múltiplos finais que funcionam e disparam duma forma que fez lembrar a de Dishonored, muito dependentes das nossas acções no jogo, há também um uma ou duas decisões que podemos tomar que por sua vez mexem em pequenos acontecimentos do final do jogo.

Controlamos um robozinho com um braço articulado capaz de agarrar e atirar coisas e com rodas equipadas com molas que lhe permitem saltar. Ao longo da progressão ganhamos novas habilidades e equipamento que nos ajuda a resolver alguns dos puzzles espalhados pelos níveis.

Andamos pela casa de divisão em divisão a tentar mudar pequenos eventos que, esperamos nós, todos juntos, consigam alterar o futuro. O jogo é curto, perfeitamente capaz de ser jogado em menos de 5 horas, provavelmente até 4 caso não queiramos ver todos os finais. Todas as secções de plataformas e puzzles envolvem o mobiliário ou objectos da casa. Imagino que este jogo tenha sido um pesadelo para o Controlo de Qualidade, mas eu não encontrei praticamente nenhuma falha, e nenhuma dessas nos puzzles em si.

Os controlos são bastante precisos e rapidamente percebemos como controlar a inércia do robot. Acabamos praticamente sempre por saber onde vamos acabar e planear um salto é simples. Embora o jogo pareça pensado para um comando, joguei com teclado e rato sem qualquer tipo de problema. Algo que nem sempre é perfeito é a forma como se controla o braço robótico, mas provavelmente é a melhor maneira de o fazer. Pontualmente causou-me algum embaraço, mas nada que não se resolvesse.

Há múltiplos colecionáveis espalhados pelos níveis que, caso consigamos descobrir na totalidade, desbloqueiam um final secreto.

Toda esta profusão de níveis é muito bonita e interessante no papel, mas o jogo não oferece diversidade de mecânicas ou oportunidades de exploração suficientes para me criar uma necessidade de jogar novamente. Acima disso há uma outra repetição que não quero explorar, mas que ainda agrava esse sentimento. Ainda pensei por um bocado tentar descobrir o colecionável que não consegui encontrar, mas após recomeçar a jogar não me apeteceu continuar e fui ao fiel Youtube procurar todos os outros finais.

Time Loader foi uma excelente surpresa. Um jogo curtinho, divertido, com mecânicas precisas, uma história interessante e um preço justo. Gostei imenso de o jogar, e acredito que a maioria das pessoas teria o mesmo sentimento. Os múltiplos finais podem, no papel, acrescentar algum replay value, mas o melhor é não contarem com isso. Mesmo assim acho que vale bem a pena jogá-lo.