
Se há algo que o cinema, as séries e os videojogos têm feito desde meados dos anos 1990 é o de nos vender uma imagem da imagem (passando o pleonasmo) dos hackers que pode não ser tão fidedigna quanto se imagina. Há uma tendência crescente para os representar com um altamente hip, com cabelos coloridos e cabelos extravagantes, tatuagens, piercings, corpos esbeltos que facilmente os colocariam como escolhas óbvias numa encarnação cyberpunk do Baywatch*, do que, sei lá, a imagem do nerd altamente versado em programação e que passou grande parte da sua vida em frente a um ecrã.
Pensem na Judy do Cyberpunk 2077 e no Edward Snowden e está tudo dito.
Falando em cyberpunk, é precisamente neste ambiente que se desenrola Midnight Protocol, o mais recente hacker simulator que joguei.

Eu não sei praticamente nada de programação, mas se há algo que também o cinema, as séries e os videojogos têm feito é o de mostrar esta actividade como algo glamouroso e relativamente fácil porque, aparentemente, hacking é mais ou menos semelhante a activar umas formas num ecrã, sobretudo losangos.
Esta romantização do hacking como uma espécie de tarefa com UI pré-concebidos comprados, sei lá, no Hacks ‘R Us, e não o real trabalho de um programador (ou hacker) de ver linhas de código a serem batidas a uma velocidade impressionante sobre um ecrã simples.
Em Midnight Protocol somos Data, um hacktivist recém-libertado da prisão em Budapeste em 2062, após os nossos dados pessoais terem sido leaked por um hacker rival. Cedo percebemos que mais do que o habitual simulador de hacking – que invariavelmente vai recair sobre um puzzle game – Midnight Protocol quer contar uma história interessante sobre hacking, activismo e cyberpunk. E na realidade, consegue-o.
Dentro da suspensão da descrença do nosso mergulho no jogo, é interessante de ver que os LuGus Studios nos obrigam a utilizar exclusivamente o teclado, aproximando-nos do que esperamos “ver” um hacker a utilizar.

Cumprido a fórmula habitual destes jogos de hacking, Midnight Protocol obriga-nos a tentar destruir todas as fragilidades de um servidor antes de conseguirmos penetrar nas suas barreiras. Mas fá-lo, ao contrário do que esperaríamos, com uma espécie de turn based tactical RPG, ainda que eu mais facilmente o enquadraria na área dos turn based strategy games.
Podemos fazer duas acções por turno, e que envolvem quase sempre interagir com os habituais nódulos que vemos neste tipo de jogo – espantem-se: não são losangos.
A componente narrativa não é exclusiva dos elementos do enredo que vamos descortinando missão após missão, mas também o nosso posicionamento e a nossa reputação.
O tipo de escolhas que fazemos, entre as decisões ideológicas hacktivistas, ou os crimes informáticos, vão definindo quem somos enquanto Data, e abrindo caminhos interessantes por Midnight Protocol.
Com um visual minimalista – ora não estivéssemos nós confinados ao interface de um computador – Midnight Protocol é uma excelente interpretação de um nicho de puzzle games que são os hacking simulators. Com uma vertente predominantemente narrativa e uma abordagem mecânica de turn based strategy, este título da Iceberg Interactive é sem dúvida um dos melhores gateways para este tipo de jogos.
* Não, um Baywatch cyberpunk NÃO é uma boa ideia.













