Caçada Semanal #301

Se há algo que o mercado indie nos tem feito é causar surpresa quando vemos excelentes exemplos de solo developers a criarem obras surpreendentes. Os três indies desta caçada retratam isso mesmo, ainda que com uma pequena batota: um deles, dado o sucesso do jogo, conseguiu estender ligeiramente a equipa no passado recente.

Len’s Island [PC, Mac]

Não sei se é de vivermos (ainda) uma pandemia, de termos notícias muito pouco animadoras do aquecimento global, que de repente a temática da sobrevivência se torna progressivamente menos cativante de ter contacto em qualquer objecto cultural. Talvez seja a assustadora ultrapassagem da barreira entre ficção e realidade a fazer das suas.

Com a terceira década deste novo milénio veio também uma travagem no número de survival games que chegam ao mercado.

Ainda em Early Access, Len’s Island, um projecto de sucesso do Kickstarter que começou como um one person show de Julian Bell, que viria a contratar um programador e um artista para levar o jogo a melhor porto. E não, isto não foi um trocadilho com o nome do jogo. Mas poderia ser.

Com uma excelente direcção artística, as ferramentas mecânicas de Len’s Island são as mais tradicionais do género. Recolher recursos, construir objectos e uma casa, uma pequena adição de elementos de agricultura e alguma exploração/combate de grutas. Não fosse a adição da mecânica de timing de hit ao cortarmos madeira, minarmos pedra ou batermos com a espada, e tudo seria igual ao que já foi feito.

O grande problema que Len’s Island tem neste momento é a sua total falta de direcção. O livre-arbítrio de um jogo nos permitir fazermos o que quisermos. Mas dado que o loop mecânico actual de Len’s Island rapidamente se esgota, é difícil de sentirmos algum sentido de urgência ou de vontade de prosseguir, para além do deslumbramento visual inicial deste jogo.

Len’s Island tem um longo oceano para nadar, se quiser chegar às pisadas de outro jogo semelhante da Team17, My Time at Portia.

Chasing Static [Switch, PS4, Xbox Series, PC, PS5, Xbox One]

Desenvolvido por Nathan Hamley no seu estúdio Hardware Games, Chasing Static faz parte de uma nova tendência que presta homenagem aos jogos de terror da era da PlayStation 1, uma abrangência que aos olhos de hoje é low poly e lo-fi, mas que à época era o pináculo técnico possível de se produzir no mercado das consolas.

Nathan e toda máquina promocional de Chasing Static apelidam-no de uma obra de horror lo-fi, mas apetece-me discordar: mais do que terror (que é quase inexistente), esta é sobretudo uma obra de ficção científica, onde o ambiente de thriller e mistério se sobrepõe a qualquer elemento clássico de horror.

É inegável que existe uma inspiração no ambiente de Silent Hill, mas muito disso se deve no foco principal do jogo: a titular estática que perseguimos na busca pela verdade. À medida que percorremos as estradas da pequena povoação à procura da fonte da estranha estática captada pela nossa rádio, encontramos um dispositivo que nos permite sintonizar as memórias recentes que outras pessoas tiveram naquele local.

Chasing Static é uma boa e curta história onde o thriller acaba por preencher os espaços vazios da narrativa, e onde a exploração sónica compensa, para mim, a viragem cliché do final desta breve viagem videolúdica.

Path of the Martyrs [PC]

A democratização dos meios de desenvolvimento, com acesso fácil a motores de construção de jogo como Unity, Game Maker e RPG Maker têm permitido que muitos game developers dêem os primeiros passos na sua carreira como uma aventura a solo, recorrendo às comunidades e ao autodidatismo para produzirem o seu primeiro jogo.

Falando especificamente de RPG Maker: é mais do que óbvio que existe mercado para jogos feitos neste motor, ora não existiriam editoras a lançarem jogos quase exclusivamente com esta abordagem, como é o caso da Kemco.

Path of the Martyrs é mais um jogo que nos chega ao mercado através do RPG Maker, desenvolvido por Kazuki Takamura e publicado pelos Angel Star Studios. Uma aventura auto-proclamada como um JRPG sci-fi emocional, onde vivemos uma narrativa não-linear de viagem entre o presente e o passado, onde o nosso protagonista, um cavaleiro ajuramentado, tenta descobrir a causa da morte da misteriosa doença que vitimou sua princesa.

Se mecanicamente este é um típico RPG por turnos, e se a direcção de arte resvala para elementos algo pueris, amadores, que possivelmente prejudicarão o melhor que Path of the Martyrs tem para nos dar: a sua história.

Path of the Martyrs é indicado apenas para os mais acérrimos fãs de JRPGs clássicos. A sua medíocre direcção artística afastará certamente a maioria dos jogadores.