Ainda hoje devo a minha descoberta do universo das visual novels a um fortuito encontro com o meu melhor amigo de infância há cerca de 17 anos. Cruzar-me com ele, que vinha com uma Nintendo DS na mão na direcção oposta à minha, no bairro onde ambos crescemos. Depois de um cordial olá, a apresentação de Ace Attorney, que não só viria a tornar-se uma das minhas séries de videojogos favoritas de sempre, como o meu gateway para esse género que à época era quase exclusivo do Japão.

O mercado indie tem sido profícuo nisto: pegar em géneros perdidos no tempo ou circunscritos geograficamente, repensá-los, e adaptá-los à modernidade, e a uma perspectiva globalizada. Um desses maiores exemplos é uma nouvelle vague de visual novels ocidentais, algumas mais firmadas nos ingredientes tradicionais do que outras, mas quase todas a tentarem expandir cada vez mais o público do género.

Arcadia Fallen, lançado pelos dinamarqueses dos Galdra Studios, é um destes grandes exemplos: de como criar uma visual novel assente nas fundações do género mas que se afasta, e repensa, o que esta forma narrativa interactiva deveria ser no panorama actual.

Com uma excelente e cativante direcção artística que mescla na perfeição os elementos estéticos tradicionais nipónicos com uma linguagem contemporânea mais ocidentalizada, resultando num óptimo enquadramento e suporte para um tipo de jogos que vive tanto da sua capacidade de contar uma boa história, como de a representar de forma interessante, com as suas imagens estáticas e ligeiras animações.

A narrativa de Arcadia Fallen é não-linear e apresenta não só esse facto como a capacidade de customizarmos o nosso protagonista, em termos visuais, de género, mas não só. Cada diálogo que temos com cada personagem abre-nos sempre uma miríade de respostas, cada uma delas contribuindo para uma definição da personalidade do nosso protagonista.

Esta abertura de escolhas não são inovadoras, e podemos traçar uma linha a jogos globalmente respeitados que o fazem (vide o caso do catálogo da Bioware de outros tempos), somando à possibilidade de desenvolvermos relações próximas de amizade e até romance com grande parte do elenco deste Arcadia Fallen.

Partindo de um lugar comum – um grupo de pessoas a unirem esforços para salvar o mundo – Arcadia Fallen consegue, na realidade, fazer o mais difícil: contar uma história, e contá-la bem. Para isso contribui, e muito, o excelente voice acting e a óptima escrita, que, relembro, tem uma multitude de opções dadas as ramificações e opções de respostas que temos em todos os diálogos.

A alquimia é aqui o ponto central, e a grande ferramenta do nosso protagonista e do seu elenco de aliados para curarem as trevas que assolam Anemone Valley, criando pelo meio bons arcos de história que enriquecem a narrativa principal.

Com um óptimo ambiente musical, os Galdra Studios correram um grande risco ao se afastarem tanto dos elementos mais conservadores das visual novels, concretizando a ambição de criarem um jogo do género onde a narrativa é um leque que se vai abrindo a cada passo.

Apesar da sua excelente qualidade, Arcadia Fallen não terá a capacidade de trazer novos “adeptos” para as visual novels, mas para todos aqueles que são já habitués desta forma dinâmica de contar uma história, encontrarão aqui o que de melhor o mercado indie tem produzido e contribuído para o género.