Sempre que alguém me refere Chakall, Ljubomir ou José Avillez, eu refreio o meu instinto para pensar se estamos a falar de cabeças de cartaz do NOS Alive, e depois lembro-me que estamos a falar de cozinheiros de referência dos dias de hoje. A minha resposta quase sempre, como quem acaba de contra-jogar uma carta de Magic the Gathering imbatível, é Filipa Vacondeus e Chefe Silva. Ambos falecidos em 2015, mas os heróis das revistas e dos livros de Culinária na casa onde cresci, e figuras sempre presentes na televisão na minha infância. Podiam não ter nomes de artista folk indie alternativo wave, mas eram os verdadeiros mestres da culinária.

Por outro lado, foi com alguma surpresa que vi na década passada a explosão de aceitação de reality shows de culinária globais, com adaptações portuguesas. Com algumas dessas figuras a ganharem o estatuto de rockstars, com reconhecimento mundial. Mas nenhuma como o escocês Gordon Ramsay, que representa – dizem – os bastidores menos glamourosos e mais agressivos das cozinhas dos grandes restaurantes.

Não sei se foram os famosos insultos de Ramsay a inspiração para Epic Chef, mas via algo do género a acontecer ao jogos desenvolvido pela Infinigon Games e publicado pela Team17. Um título que quer ser tanta coisa que até podia incluir lá pelo meio um fighting game de insultos ao estilo de Monkey Island. Mas já lá vamos.

Em Epic Chef começamos num simples desembarque em Ambrosia com o nosso protagonista Zest, que adquiriu por uma verdadeira pechincha uma propriedade no reino, sem a conhecer. É quando chega que percebe o porquê de ter sido tão barata: a casa está – alegadamente – assombrada, e nenhum proprietário lá ficou mais do que uma noite.

Este é o mote para uma aventura interessante, com uma grande aura de Monkey Island passada na cuvete de gelo e transformada numa estética voxel. O próprio Zest parece uma versão quase Minecraft-esca de Guybrush, trocando a vontade em ser pirata de um pelo sonho de ser cozinheiro de outro.

O loop mecânico de Epic Chef, como tantos jogos similares descendentes de Harvest Moon, obriga-nos a plantar os nossos ingredientes, a colhê-los, e a cozinhar.

O mini-jogo associado ao acto de cozinhar é algo interessante e matemático: cada ingrediente vai tendo sinergias associadas, dando uma bonificação aos multiplicadores de nota e desempenho dos nossos cozinhados. Cada uma destas “habilidades” especiais dos alimentos podem ser vistas na descrição de cada um deles, o que nos permite ir pensando e optimizando a ordem com os quais os colocamos na cozedura.

Tudo isto para desembocar num momento divertido, e que acaba por ser uma das espinhas dorsais de Epic Chef: os Duelos de Cozinheiros. Ajuizados por um crítico imparcial, que nos dá as regras de cada duelo – tais como os ingredientes a utilizar – será ele quem avaliará os resultados dos cozinheiros-lutadores em competição. Adivinhar os gostos pessoais dos juízes e “seduzi-los” com a mecânica do aroma dos nossos cozinhados é meio-caminho para ganharmos o dito duelo, e recebermos uma batelada de ingredientes e dinheiro pela nossa vitória.

Como dizia há pouco, Epic Chef quer ser demasiada coisa. E isso nota-se no seu longo e lento tutorial. Quer ser um jogo de aventura, mas também quer ser um cooking e farming game. Quer polvilhar tudo com humor e saltear com doses de relaxamento. O problema de tudo isto, é que tem todos os ingredientes para o conseguir, mas os tempos dos cozinhados estão todos, todos errados.

Epic Chef é lento. É dolorosamente lento. Entre a velocidade de locomoção de Zest, que entre cada deambulação entre o seu quintal e a vila faz passar quase meio dia. Um facto que seria pouco grave, não fosse o que separa a casa da povoação ser apenas um morro.

É curioso como a sensibilidade para o ritmo de uma obra é algo que falha a tantos autores, sejam escritores, cineastas, músicos, mas também sobretudo game developers. Que parecem perder-se nos meandros das suas ideias e da sua criatividade tornando-se anestesiados à percepção do que deveria ser o ritmo ideal para o seu jogo.

Queria regressar a Epic Chef, mas não o vou fazer. E não por não ter tempo ou paciência para a aura de falta de urgência do jogo. Não é esta a razão de todo. As 400 horas que entreguei em Animal Crossing New Horizons, as 70 no novo Story of Seasons discordariam disso. O problema é que estes como outros exemplos de um género que eu gosto tanto são títulos que compreendem e ajustaram na perfeição o seu ciclo interno e o loop diário de desenvolvimento dos seus jogos. Epic Chef, falha tudo isso redondamente. E se há algo que me irrita verdadeiramente é ver um jogo a desperdiçar desta forma o seu potencial. Já tantos vezes o disse, e repito-o: tolero menos o que poderia ser um excelente jogo que se perdeu no seu próprio potencial, do que um mau jogo que nem sequer tem pretensões de ir mais longe do que o patamar de mediocridade que tem.

Reprograme-se a velocidade natural de Epic Chef para o dobro e está aqui um dos mais originais farming/cooking adventure games de que há memória. Agora é apenas o equivalente a ler tabelas de códigos CAE nas Finanças. Perdoem-me os contabilistas e fiscalistas.