Caçada Semanal #304

Os criadores independentes mantêm a tradição de utilizar os seus jogos como solo fértil para a experimentação e introdução de novas ideias, mesmo quando o ambiente de todo o jogo é nostálgico. Os dois jogos desta caçada são retro na abordagem, mas inovadores na inventividade.

FILMECHANISM [PC, Switch]

Depois de mais de 300 caçadas, é por jogos como FILMECHANISM que continuo (e continuamos) semana após semana, a “esgravatar” a terra fértil das centenas de jogos que são lançados semanalmente para encontrarmos preciosidades escondidas.

Sem qualquer dúvida que FILMECHANISM é uma dessas joias incógnitas: um jogo com a abordagem estética da era do Game Boy onde controlamos REC, um humanoide que é ao mesmo tempo uma câmara fotográfica.

O conceito da fotografia é o centro da genialidade deste puzzle platformer. Podemos tirar uma fotografia, e uma fotografia apenas do estado do nível, carregando num simples botão (alguns níveis mais tarde introduzem a possibilidade de tirarmos mais do que uma fotografias, complexificando a resolução dos níveis). Alteramos o que necessitamos na disposição do nível, empurrando caixas, activando interruptores, e de seguida basta-nos carregar num outro botão para que a disposição de todo o nível regresse ao instante que fotografámos.

São mais de 200 níveis desafiantes, de um tremendo nível de criatividade no excelente level e game design que acompanha este FILMECHANISM. Um jogo obrigatório para todos os fãs de puzzle platformers, que têm aqui muito e bom conteúdo para quebrar as suas cabeças.

Mira’s Brush [PC]

No outro espectro da afinação e definição que FILMECHANISM nos mostra, temos Mira’s Brush, um puzzle platformer old school recém-lançado em Early Access.

Repleto de boas ideias e de muitas mecânicas que vão sendo progressivamente aplicadas, o grande problema deste Mira’s Brush é a sua trêmula consistência mecânica, e sobretudo dos controlos da protagonista. O grande inimigo deste jogo não é o vilão, o Colonel Blump, que invadiu e tomou de assalto Chromaland, mas a nossa incapacidade de controlar com precisão a protagonista. O número de vezes em que é a falta de qualidade de feedback e de movimento que nos levam a “matar” Mira é bem superior ao número de vezes em que as duas parcas vidas da protagonista são ceifadas por inimigos.

Ao longo dos cerca de 60 níveis vamos tendo vislumbres do humor deste jogo, e se um dos vilões, o polvo pintor chamado Blob Ross não é exemplo disso, então não sei o que será.

Com o seu pincel mágico, Mira tem a capacidade de roubar a cor aos inimigos, deixando-os a preto e branco, e dessa forma incapazes de nos causar dano. Podemos então combinar essas cores para criar novos objectos e plataformas, ou utilizá-las num sistema de complementaridade para derrotar os inimigos. Tudo boas ideias que estão, como em quase tudo de Mira’s Brush, demasiado espalhados por todo o lado, com decisões estranhas em tantos momentos que nem os checkpoints e os save points escapam.

Mira’s Brush poder vir a ser um jogo decente quando os seus autores se sentarem e decidirem repensá-lo de alto abaixo. Sem isso vai ser um conjunto de ideias interessantes que não sobrevivem a um jogo mal programado e mal definido.