Dado que até há alguns anos o crescimento e acesso cultural de grande parte da população ocidental (e mundial?) dependia das produções norte-americanas, britânicas e uns pequenos pós de outros países europeus, não é de estranhar que tenhamos uma grande repetição de representações de figuras específicas sobretudo da História europeia.

A democratização do acesso aos meios de desenvolvimento tem permitido a que estúdios em distintos pontos do planeta mostrem ao mundo as suas criações. E algumas destas criações trazem elementos da História, das tradições e até do folclore local, longe de figuras cujas múltiplas representações saturaram o nosso imaginário colectivo.

Tanto se fala de Robin Hood, mas será que fora do rectângulo português alguém conhece a figura do Zé do Telhado, o eslavo Janosik, ou o taiwanês Lian Tian-Ding? Quanto a este, graças à editora taiwanesa Neon Doctrine, milhares de pessoas pelo mundo já conhecem. E porquê? Por culpa de um dos mais interessantes side-scrolling beat ’em ups dos últimos tempos: The Legend of Tianding.

Uma adaptação livre de elementos históricos reais com camadas de ficção, The Legend of Tianding decorre na região de Dadaocheng, em Taiwan, no início do Séc. XX, quando o país esteve sob o jugo imperialista japonês e lutava pela sua independência. Liao Tian-Ding, herói e ladrão popular, conhecido como o Robin Hood taiwanês, entre aqui como protagonista, numa interpretação que o transforma numa mistura de herói de kung fu de filmes dos anos 1970 com personagem histórica.

The Legend of Tianding é mais do que um side-scrolling beat ‘em up tradicional: vai mais longe ao implementar um sistema de hub world centrado na cidade, em que cada nível se abre como uma dungeon que tem de ser atravessado com o habitual combate do género, mas ainda adiciona elementos de platforming, à medida que usamos a faixa de tecido de Tian-Ding para atravessar o nível.

Há também uma camada de RPG aqui inserida, tanto pelas quests que vamos recebendo (algumas delas opcionais), como pela capacidade de fazer level up ao protagonista, e adicionar-lhe acessórios que alteram as suas estatísticas e conferem-lhe bonificações aos ataques e combos.

A adição de um mini-jogo opcional baseado num jogo de cartas tradicional taiwanês é algo que relembra a abordagem de Final Fantasy que foi sendo repetido por outros jogos, onde The Witcher e o seu Gwent sejam possivelmente os maiores casos de sucesso. Apesar das regras destes jogo de cartas de quatro cores não serem totalmente claros pela explicação que o jogo nos dá, é curioso ver mais uma transição de elementos da cultura de Taiwan serem transportados para este videojogo.

O combate de The Legend of Tianding está organicamente tão bem afinado e definido como os melhores exemplos da era dourada do género. Como um vasto arsenal de ataques e possibilidades à nossa disposição, a capacidade do nosso herói de roubar as armas dos inimigos com a sua faixa de tecido, utilizando-as até a sua durabilidade se esgotar, traz uma nova dimensão a um sistema de combate que já é, desde si, uma verdadeira maravilha técnica e mecânica.

Há algo em The Legend of Tianding ao qual ninguém fica imune: a sua direcção artística. Trazendo a linguagem da manhua para o videojogo, com a história a ser contada em vinhetas e pranchas sucessivas, passando pelo próprio jogo, onde o seu 2.5D com cel-shading a transferir essa linguagem de banda-desenhada para os modelos e cenários.

The Legend of Tianding é uma grande surpresa do mercado indie no cair do pano de 2021, e um grande side-scrolling beat ‘em up que quis ir mais longe do que os ingredientes tradicionais do género. Pelo caminho mostra-nos novas histórias, novos protagonistas e novos cenários, trazendo a cultura e a História taiwanesa para a ribalta.