Só por uma vez participei num Escape Room Game, em Lisboa, como exercício de team building da empresa onde trabalho. Não sei se como team building foi especialmente eficaz: continuei a gostar dos colegas que já gostava, continuei a não gostar dos colegas que já não gostava (alguns nem foram) e continuei indiferente aos colegas que me passavam ao lado. Mas ali ao menos éramos todos iguais, chefes e subordinados, fechados numa sala intencionalmente mal iluminada com um enigma do Iluminismo para nos mostrar a luz da saída uma hora depois.

Uma coisa comum a todos os Escape Room Games é que são recomendados como atividade de grupo para um mínimo de pessoas, atividade essa que envolve mexer em muitos objetos e descobrir pistas escondidas. Duas coisas que a pandemia tem adiado bastante, pelo que Escape Simulator tenta trazer para o ambiente dos videojogos alguma dessa dinâmica. Sozinhos ou em modo cooperativo, somos transportados para uma pequena sala cheia de puzzles de lógica, com muitos elementos de point and click circunscritos a níveis fechados, mas tematicamente interligados.

Um grupo de Howard Carters que tenta não ficar preso no túmulo.

Dos croatas da Pine Studio, cujo portefolio se tem focado em puzzle games desde há meia dúzia de anos, Escape Simulator é exatamente aquilo que está no título, mas de certa forma é difícil sentir-me a jogar um verdadeiro simulador, já que aquilo que simula é já de si tão construído para fugir à realidade. Se eu pegar num Flight, Euro Truck ou Farming Simulator (ou num Football Manager ou Gran Turismo, se quisermos expandir o horizonte), há em todos eles algo de muito mundano e repetitivo associado à tarefa simulada – que normalmente quem os procura aprecia, embora isso os torne jogos de nicho.

É nesta ausência do mundano que Escape Simulator ganha pontos. É bastante divertido procurar pistas por toda a sala que nos levem à porta final. Sempre que entrei num nível, por vezes demorei um minuto até perceber sequer onde essa porta estaria. Senti necessidade de olhar muito em volta antes de interagir com o cenário – tal como num verdadeiro Escape Room Game. E tal como aconteceu dessa única vez em que participei nesta atividade em Lisboa, por vezes precisamos de pedir pistas ao dungeon master – o jogo permite-nos acionar um botão que solta uma pista e que só pode voltar a ser acionado alguns minutos depois.

Seguramente o escritório de um conspirador.

Entre os vários objetos disponíveis, uma boa parte é lixo para nos baralhar das verdadeiras pistas. Podemos levar itens para o nosso inventário onde os podemos examinar mais de perto, mas rapidamente nos podemos perder nesse inventário. Aqui temos a escolha de colocar tais objetos num balde ou deixá-los pelo chão. Dependendo do tema da sala – Antigo Egito, Estação Espacial, Mansão Vitoriana ou Corporação Sinistra – os puzzles que encontramos são apropriados ao tema: se nas pirâmides podemos esperar encontrar mecanismos arcaicos, a moderna empresa tem quebra-cabeças informáticos.

A segunda melhor parte de Escape Simulator, contudo, é quão intuitivas e naturais todas as mecânicas de resolução de puzzle são. As vezes que precisei de dicas foi porque o puzzle me iludia, não porque a forma de o resolver não fizesse sentido ou funcionasse. Apenas o tutorial me apresentou alguns bugs, que prontamente saltei para me aperceber que os níveis a sério funcionavam todos na perfeição. Falei em segunda melhor? Pois, é que há uma primeira: o seu potencial de comunidade.

Yup, há testes psicotécnicos.

Lançado nos últimos meses de 2021, Escape Simulator tem uma vasta comunidade no Steam onde, pela altura em que este texto é escrito, existem quase 1900 níveis feitos por outros jogadores no Steam Workshop. Se a longevidade do conteúdo base se fica por umas dez horas nos pouco mais de 20 níveis criados pela Pine Studio – parece-me pouco interessante revisitar níveis cujos puzzles já conhecemos, mesmo que tentemos ir atrás dos achievments de tempo e de colecionáveis escondidos. Se entrarmos nos níveis da comunidade, há centenas de horas de conteúdo de coisas incrivelmente inventivas – o tempo dirá se a comunidade dará longevidade a este título.

Quem não gosta de puzzle games talvez ache os 14,99€ na Steam excessivos para um indie. Mas atrevo-me a dizer que as mecânicas valem por si só até para quem não é fã do género – ainda que talvez só jogue algumas dezenas de níveis até o conceito se gastar. Onde também me parece que este título teria bastante potencial seria numa versão VR – o verdadeiro simulador de estar num Escape Room Game, cuja agradável mas leve interface gráfica não seria um empecilho técnico à sua implementação.