Há 5 anos partia para Horizon Zero Dawn com uma imensa desconfiança. A Guerrilla Games dizia-me muito pouco, e esperava ainda menos da empresa que essencialmente só contava com Killzone – um FPS mediano e genérico que atravessou 3 gerações da PlayStation – como portefólio. O resultado foi uma surpresa que elevou o título de entrada desta nova série para o patamar de melhor jogo do ano na minha opinião. Com a dessensibilização consequente de escrever diariamente sobre videojogos, por vezes é uma tremenda alegria ser surpreendido. Especialmente quando o foi como Horizon Zero Dawn o fez: a arrebatar-me de tal forma que se tornou um dos meus jogos favoritos de toda a década passada.

É mais do que óbvio que a minha postura perante a análise desta sequela, Horizon Forbidden West, está nos antípodas da forma como recebi Horizon Zero Dawn, entre temer a suspensão da descrença no mundo que a Guerrilla se comprometia a criar, e a minha aceitação do pós-pós-apocalipse deste mundo como uma boa obra de ficção especulativa. Ir das baixas expectativas como joguei o primeiro jogo, à ansiedade de jogar este segundo. Há muito tempo que não sentia isto, e admito-o ao mesmo tempo que indico a minha habitual isenção. Não existe contaminação do meu entusiasmo perdido à visão que tenho de Horizon Forbidden West.

Falar de Horizon Forbidden West é difícil, porque paralelamente à excelência mecânica e artística, existe um enredo magnífico que conseguiu pegar na base do que foi sendo revelado e construído no primeiro título, e elevar o seu patamar de complexidade. Conseguir falar da qualidade do enredo e do worldbuilding sem incorrer em qualquer spoiler é uma tarefa quase impossível, mas tentá-lo-ei. Tentando representar a qualidade da sua escrita sem sequer referir tudo aquilo que descobrimos nos capítulos finais do primeiro jogo.

Olhando para a narrativa de Horizon Forbidden West, não sinto que esta tenha tido uma melhoria abrupta em relação às fundações e justificações do que se passa na Terra no futuro onde Aloy habita. A diferença é que a obrigatória deslocação da nossa protagonista para Oeste permitiu-nos uma visão alargada sobre o continente norte-americano, conhecendo realidades para além das que conhecemos das tribos Carja e Nora no primeiro jogo. 

O enredo de Horizon Forbidden West desloca-se em várias direcções no mesmo plano, com um esforço de ir tecendo as histórias credíveis que dão existência a este mundo. E é neste tremendo salto de worldbuilding que a equipa da Guerrila Games dá entre os dois títulos que vemos histórias que ramificam as tensões políticas, religiosas, culturais e tribais das muitas sociedades que se foram formando neste pós-pós-apocalipse. Construções criativas que nos fazem querer conhecer mais, ler o que existe disponível, e ir compreendendo, como no mundo real, o contexto geográfico e histórico para determinadas tribos desenvolverem as suas crenças e posturas em relação aos restantes humanos (e também às máquinas).

O primeiro jogo da série deu-nos um elenco secundário que serviram sobretudo como sustentáculo da história que os autores nos queriam ambientar, mas neste segundo o seu contributo muda por completo. Somando a Varl, Erend e Sylens, temos um vasto elenco de personagens, próximas e antagónicas de Aloy, que ajudam a adensar a trama e o próprio mundo. 

Sempre que falo em público sobre a qualidade de escrita dos dois primeiros Mass Effect (em especial do segundo), reparo que acabo sempre por dar um argumento de força para a minha proximidade com a série (e consequente desilusão): a minha vontade, sempre que possível, de conversar com a tripulação a bordo da nave, e ouvir da boca de cada um dos meus companheiros e companheiras as suas emoções, ânsias, mas também o seu background, e as realidades dos planetas e civilizações de onde eram originários.

Esse facto aconteceu comigo, ao jogar este Horizon Forbidden West. Seja com os muitos NPCs de diversas tribos e facções que vamos conhecer (e acreditem, há muitos, muitos personagens secundários, terciários e figurantes neste jogo), dá-nos vontade de falar com cada um deles, e ir extraindo o máximo de informação sobre estas culturas e a forma como se interligam neste mundo.

No caso dos companheiros de Aloy, novos e velhos, muito contribui o excelente patamar de qualidade dos voice actors, sendo que tenho de evidenciar o contributo de Carrie Ann Moss no papel de Tilda, mas sobretudo a brilhante Angela Basset a dar vida a Regalla, com a personagem a transmitir toda a força e presença da actriz norte-americana.

Mecanicamente, Horizon Forbidden West soube pegar em todos os elementos que fizeram de si um dos mais originais open world games que já joguei, e construir sobre ele diversos elementos de complexificação de tudo o que Aloy consegue fazer.

Com um mapa gigantesco, é mais do que óbvio que existem muitos coleccionáveis para encontrar, ainda que sinta que são menos do que na maioria dos jogos do género.. A diferença que sinto neste Horizon Forbidden West em comparação a muitos dos seus congéneres, é que estes, na maioria dos casos, transformam a caça a objectos opcionais como um mero busy work, com o esforço centrado em palmilhar quilómetros para os encontrar. Horizon Forbidden West faz tudo isto diferente. Coloca estes coleccionáveis por trás de desafios. Objectos ornamentais do passado escondidos em ruínas, cujo acesso só conseguiremos obter ao resolver uma sucessão de puzzles que nos permitam encontrá-los e obtê-los. Até o domínio dos Tallnecks, as criaturas semi-Brachiosaurus que servem de parabólicas volantes que se deslocam numa elipse, que se apresentam em número mais reduzido, mas todas elas com acesso “escondido” por trás de sequências originais de puzzling. Ou mesmo os originais vista puzzles, em que temos de tentar alinhar segmentos de imagens difusas do passado com o mundo como ele existe no presente de Aloy. Praticamente todos os elementos escondidos no mapa obrigam-nos não apenas a estar no local para o encontrar, mas a correr desafios originais e paralelos para os obter. Dando um valor intrínseco diferenciado a cada um deles, contribuindo para a nossa sensação de recompensa ao conseguir encontrá-los.

Horizon Forbidden West ganhou sobretudo em verticalidade. Seja a já conhecida capacidade de mergulhar pelas profundezas do mar, seja a própria construção de muitos dos edifícios, ruínas, e até algumas aldeias, que nos obrigam a sequências de escalada. A verticalidade tornou-se mais evidente, e torna-se ainda mais com um elemento mecânico que adicionamos mais tarde.

Se tivesse de prestar outro grande elogio a Horizon Forbidden West é o facto de se sentir que o desenho, concepção e escrita das missões principais, mas sobretudo das secundárias, vai muito mais longe do que as tradicionais tarefas aborrecidas. Seguindo a tónica do primeiro jogo, cada side quest é uma forma de conhecer melhor este mundo, os seus personagens, mas sobretudo de termos acesso a histórias interessantes que o jogo nos quer contar. Enredos secundários e paralelos que nos levam a ver temas como a exploração laboral, as crenças religiosas, e até outros assuntos menos filosóficos e mais mundanos sob o prisma deste mundo pós-pós-apocalíptico.

A quantidade de máquinas existentes no Oeste proibido vem cimentar toda a masterização do também ele ainda mais vasto leque de armamento e poderes especiais que podemos equipar em Aloy. Permitindo sempre, com uma mestria ímpar, imprimirmos em Aloy o nosso estilo de jogo, adaptando o equipamento, os upgrades das diversas skill trees, os poderes passivos e activos, ao nosso estilo de jogo. Cada jogador encontrará uma forma distinta de jogar Horizon Forbidden West, sem que nenhuma esteja certa ou errada. Mas permitindo experiências de jogo personalizadas que tornam a nossa vivência na pele de Aloy como algo só nosso.

Aloy, por sua vez, vai-se tornando, para mim, uma das mais importantes protagonistas da História dos videojogos. Entre os contributos de interpretação da actriz Ashly Burch – que regressa ao papel de Aloy – à própria construção física e psicológica da protagonista, dando-lhe força, vulnerabilidade, certezas, angústias e dúvidas, mas sobretudo humanidade, num mundo que por vezes parece ter tão pouco de Humano. 

Artisticamente, Horizon Forbidden West é a definição das possibilidades desta nova geração. Visualmente tudo é brilhante: a capacidade de criar efeitos atmosféricos com as diversas regiões e em diversas fases do dia e noite, passando pelo detalhe que todo o jogo tem. Para quem já jogou jogos open world – e acredito que muitos de nós já tenhamos jogado suficientes para contar para uma vida inteira – algo simples de acontecer à medida que os mapas foram crescendo foi sentirmos constantemente uma sensação de déjà vu. Uma repetição de ambientes e locais, que aceitávamos, compreendendo a dificuldade de construir vastos espaços virtuais mantendo uma sensação de originalidade. Mas Horizon Forbidden West consegue fazê-lo. Não só com as diferenças geográficas entre deserto, tundra, planície e montanhas, mas com todos os espaços de cruzamento entre eles, na forma como os vestígios da nossa civilização surgem tomados pela Natureza como espectros solidificados no ar, mas também pelos acidentes geográficos, os declives, vales e reentrâncias, que sugerem um mundo real, cuja irrepetibilidade é fruto da combinação fractal que vivemos no nosso planeta.

Do ponto de vista sonoro, a construção de todos os pequenos sons, a forma como eles se propagam no ar no silêncio da natureza, mas também a forma como os ecos e os silêncios são representados em vales e em cavernas subterrâneas, com lagos profundos, ajuda a recriar uma fiabilidade existencial a este mundo ficcional e digital.

Horizon Forbidden West é um jogo cheio de desafios: entre os narrativos, nesta missão hercúlea de uma jovem pária de uma tribo do leste do território para salvar os efeitos de potencial extinção da vida na Terra, mas também de jogabilidade, seja nos muitos puzzles com variadíssimas formas que nos são apresentados, e sobretudo na forma como, a par do primeiro título, nos vamos tornando cada vez melhores caçadores de máquinas, conhecendo e explorando as suas fragilidades. Elevando – se é que era possível – o combate da série Horizon para um local ainda mais elevado do que o brilhante ponto de origem do primeiro jogo.

Horizon Forbidden West é um jogo que define uma geração. Que serve de pedra de comparação pelo qual muitas obras subsequentes serão avaliadas. Confirma, de forma derradeira, Aloy e a série Horizon como duas peças fulcrais deste meio que tanto amamos. Por pouco cauteloso que seja anunciá-lo já, em meados de Fevereiro como um grande candidato a melhor jogo do ano de 2022, só vos posso dizer que se assim não o for, então os afortunados somos nós. Se nos próximos 10 meses sair um jogo cuja qualidade ultrapasse a genialidade e perfeição de Horizon Forbidden West, então quer dizer que num ano vamos ver chegar às nossas mãos dois marcos da História dos videojogos. Por ora fica uma certeza: Horizon Forbidden West é mais do que obrigatório, é uma razão por si só para se ter uma PlayStation.