Uma grande dificuldade para qualquer pessoa que passe a sua vida a analisar obras de outras, e que o queira fazer sempre com a maior isenção possível, é a de garantir que é sempre justa nas opiniões que tece. Tendo, ao mesmo tempo, a consciência de que todos nós trazemos ideias apriorísticas e preconceitos, positivos e negativos, sobre determinada obra.

É um lugar comum, e sabido por todos os que nos seguem, que eu sou um grande fã da série Pokémon, indo até ao ponto de identificar esta relação do espectro da Síndrome de Estocolmo. Joguei múltiplas vezes e comprei cada um dos jogos de Pokémon em todas as suas versões. Tenho a colecção de todas as criaturas existentes em triplicado no Pokémon Home. Tenho milhares de horas dedicadas a colecionar todos os Pokémon ao longo de toda a minha vida. Mais horas até do que as devia ter dedicado. E sempre fui um grande crítico da inércia a que a série se viu fadada quase desde a sua génese.

A obrigatória necessidade de ser justo – sempre que humanamente possível – levou-me a criticar publicamente todos os títulos da série na última década, com ligeiras excepções. E por isso, em jeito de preâmbulo e simultânea conclusão indicar que Pokémon Legends: Arceus é o melhor jogo da série de sempre. Um jogo com falhas, que explicarei mais à frente, mas a verdadeira inovação que a Game Freak criou em todo a série.

Olhemos para Pokémon Red and Blue e para todas as sequelas. São JRPGs clássicos com uma componente de coleccionismo de criaturas, mas mecanicamente a cumprir os mesmos preceitos que Dragon Quest definiu em 1986. A ironia é que Dragon Quest e as maiores séries de JRPG da História foram tentando repensar os limites e a fórmula dos JRPGs, inovando, melhorando, e falhando por vezes. Mas sempre numa luta constante contra a inércia auto-imposta.

Em vinte e alguns anos, Pokémon Legends: Arceus é o primeiro e real risco que a tríade Nintendo, Pokémon Company e Game Freak alguma vez correu. E decidiu corrê-lo em diversas frentes.

O primeiro deles, na frente económica. Pokémon é uma das séries mais vendidas de sempre, imune aos sinais dos tempos e às críticas do lançamento, mas sempre, com duas versões que obrigam muitos jogadores reféns ao coleccionismo como eu de comprar duas vezes o mesmo jogo. Pokémon Legends: Arceus é o primeiro jogo canónico a ser lançado em versão única, e surpreendam-se, os valores de vendas bateram recordes, alcançando as 6.5 milhões de cópias vendidas na primeira semana, ultrapassando o anterior recorde de 6 milhões de cópias vendidas combinadas de Pokémon Sword and Shield. Ou seja, deixarmos cair esta visão mercantilista de obrigar o consumidor a comprar duas versões praticamente idênticas do mesmo jogo, pode até nem ser uma fórmula comercial apetecível nos dias de hoje. E Pokémon Legends: Arceus já nos provou isso mesmo.

O segundo, na visão narrativa e cronológica. Ainda que a série principal sofra do efeito de cronologia deslizante, Pokémon Legends: Arceus estabelece-se no passada, uma prequela ao mundo de Diamond e Pearl, com Sinnoh nos primórdios da colonização da região. Uma era em que o conhecimento em torno da existência de Pokémon era quase nulo, e a interacção entre as criaturas e os humanos ainda estava envolto em misticismo e algum receio.

É neste segundo risco que, para mim, se encontra a maior conquista de Pokémon Legends: Arceus, e o seu grande sinal de genialidade que há muito falhava na série Pokémon. O conhecimento biológico e natural sobre Pokémon era um dado adquirido na série principal e até nos spin-offs. O que, conceptualmente, nos esbarrava na nossa própria suspensão da descrença. Que o Pokédex, e os académicos que nos acompanham em cada um dos jogos tivessem conhecimentos biológicos dos Pokémon selvagens e ditos comuns, é aceitável. Mas se pensarmos bem, existe pouca razão para que, ao capturamos um Pokémon mítico e lendário (alguns deles mostram a sua existência ao mundo pela primeira vez na nossa presença), o Pokédex tenha previamente (ou no momento) acesso a informações detalhadas sobre eles. Podemos – se quisermos debater aquilo que até nem tem assim tanta profundidade para ser debatido – que a computação e a IA evoluíram tanto na tecnologia contemporânea dos jogos principais de Pokémon que é possível que a mera captura já permita aos Pokédex estabelecer um perfil biológico completo de criaturas nunca antes vistas. É possível. A forma de funcionamento do dispositivo sempre variou de iteração em iteração.

Mas olhemos para Pokémon Legends: Arceus. Uma fase em que, como referi, as informações científicas sobre os Pokémon é praticamente inexistente. Cabe-nos a nós, com um caderno que deixaria Charles Darwin orgulhoso, de identificar e registar cada criatura que conhecemos. 

Para quem já jogou um dos mil jogos de Pokémon que existem, devem ter a ideia de que o conceito de registo no Pokédex se faz quando obtemos determinado Pokémon, seja capturando-o, eclodindo-o de um ovo, recebendo-o de um NPC, Mystery Gift, jogadores ou qualquer outra forma. Ou seja, o registo da informação completa de um Pokémon no Pokédex está associado à posse do mesmo. Isto significa – e já nos acontece a todos – que existem dezenas, quiçá centenas, de Pokémon que apanhámos mas que foram directamente para as caixas no PC, sem nunca termos alguma vez trazido na nossa party.

Pokémon Legends: Arceus inverte por completo tudo isso. Ter o nível de registo de informação de um Pokémon que lhe permita ter a página completa no Pokédex exige uma interacção mais próxima com todos, todos os Pokémon. Não basta apanhá-los. Temos um inventário de situações que temos de ver, ou fazer para chegar ao nível 10 de avaliação da página de informação de determinado Pokémon, para que o Professor defina essa página como completa. Esta subtil mudança faz toda a diferença no mindset de Pokémon. Em Pokémon Legends: Arceus temos mesmo de interagir com todos os Pokémon, todas as formas e evoluções. O coleccionismo não é apenas obter e guardar na prateleira. Para termos a página completa temos de ver os Pokémon a evoluírem, apanhar ou derrotar um número estabelecido de criaturas, encontrar versões alpha (já lá iremos), leves, pesados, grandes, baixas, vê-los a utilizar determinados ataques, a serem derrotados com ataques de tipos específicos, observá-los a comer e um sem número de itens diferentes que nos permitem escolher a forma mais eficaz de resolver os múltiplos pontos de cada página de Pokédex. Não somos obrigados a cumprir todos os itens, basta-nos apenas, para obter nível 10, cumprir as linhas de informação suficiente para atingir essa marca.

Depois de mais de vinte anos e milhares de horas jogadas, Pokémon Legends: Arceus obrigou-me a interagir com criaturas menos interessantes que estavam no rol de Pokémon que eu apanha por apanhar, apenas porque necessitava de os colecionar para completar o Pokédex.

O terceiro risco de Pokémon Legends: Arceus é mecânico. Se Sword and Shield, com os seus jardins em mundo aberto, nos deixavam um vislumbre do que poderia ser o tão desejado MMO, ou mesmo o jogo open world de Pokémon que todos sonhavam, em Pokémon Legends: Arceus isso cumpriu-se. Sinnoh está subdividida em regiões (que os conhecedores de Diamond e Pearl reconhecerão de imediato), cada uma delas com Pokémon diferentes a deambular, com os spawns a serem afectados pela hora do dia e pelo clima. Pelo meio do mapa vamos encontrar versões maiores e com olhos vermelhos dos Pokémon que conhecemos. Estas são as versões alpha, uma espécie de mini-bosses capturáveis que são versões maiores e mais poderosas de Pokémon que todos conhecemos. E com algo ainda melhor: fazem respawn sempre no mesmo local, permitindo que os vamos apanhar caso os derrotemos sem os capturar.

Inspirado nos elementos de Go, é-nos permitido capturar os Pokémon sem entrarmos em combate. Podemos esconder-nos nas ervas para facilitar a captura, atirar a bola para as suas costas, e capturar vários em simultâneo.

O combate, em si, está muito mais agilizado do que antes, e ao mesmo tempo mais desafiante. A minha dúvida pré-jogo rapidamente se respondeu quando comecei a jogar Pokémon Legends: Arceus – não só é possível fazermos aggro a vários Pokémon ao mesmo tempo, como é algo que vai acontecer. As poucas lutas que temos com outros humanos e os seus Pokémon são muitas vezes situações de 3 contra 1.

O desafio de Pokémon Legends: Arceus está a milhas de qualquer outro jogo da série. Estamos todos mal habituados a ver os nossos starters a darem 1-hit a praticamente todos os Pokémon selvagens com pelo menos 10 níveis de diferença. Neste jogo as coisas são diferentes. Quantas vezes tive Pokémon selvagens com 20-30 níveis de diferença a darem água pela barba a alguns lendários meus com nível 70. Sabendo que aqui entra o sistema de pedra-papel-tesoura dos tipos de Pokémon, qualquer um sente que o desafio de cada combate é bem superior ao de qualquer outro jogo. Menos à infame Cynthia, é claro.

Um dos pontos desinspirados, mas que quebra com todas as fórmulas dos jogos anteriores, são as boss fights em que temos de apaziguar alguns Pokémon nobres. Para isso, ao contrário do que a série nos habituou, não temos de os derrotar numa luta de Pokémon, mas sim uma sequência de third person shooting em que temos que nos desviar dos seus ataques ao mesmo tempo que lhes atiramos sacos de bálsamo para os ir acalmando. A ideia de quebrar com a tradição é interessante, mas o controlo do nosso personagem não está afinado o suficiente para fazer destas sequências bons momentos de acção na terceira pessoa.

Pokémon Legends: Arceus não é completamente aberto, mas funciona com instâncias dos mapas e com um hub world centrado na cidade de Jubilife. A partir da única cidade habitada por humanos podemos teleportar-nos para qualquer região, mas, e aqui entra uma das minhas grandes críticas ao jogo, continuo sem perceber porque é que, se temos acesso ao mapa total da região, temos de fazer “escala” na cidade sempre que queremos mudar de região. É uma perda de tempo desnecessária que me soa mais a incapacidade técnica do jogo do que a decisão conceptual. Porque se o for é apenas uma ideia tremendamente idiota.

A direcção de arte de Pokémon Legends: Arceus é desinspiradíssima, resultando num mundo banal e em algumas situações até feio de se viajar. Antes que refutem esta afirmação dizendo que a consola tem limitações técnicas para mais – que tem e isso nota-se na draw distance que, se melhorada, poderia dar-nos uma sensação ainda mais imersiva de mundo aberto – relembro que a consola abriu com um jogo chamado Breath of the Wild, que com o mesmo hardware conseguiu optimizar essas mesmas limitações em prol de uma magnífica direcção de arte. E nem me peçam para referir um punhado de indies que, com mundos abertos em instâncias, conseguiram melhores resultados. E nem temos de ir para um jogo com uma escala diferente, mas com uma abrangência similar, como Monster Hunter Stories 2.

Se raríssimas vezes o enredo dos jogos de Pokémon está sequer acima do sofrível, mas Pokémon Legends: Arceus baixa esse patamar para outro ponto. A história é inócua, mal desenvolvida, cheia de lugares comuns, e com personagens e diálogos tão aborrecidos que desejamos poder fazer skip a todos os diálogos. Cada missão principal e secundária está cheia de linhas infinitas de texto que nos aborrecem de morte e que me fez desejar que a equipa da Game Freak – que nunca foi especialmente versada em escrever bem – assumisse esta vertente de quest giving de Pokémon Legends: Arceus como RPGs menos ambiciosos, e deixar tudo de forma telegráfica. Era mais honesto para connosco e far-nos-ia perder menos tempo.

Sem qualquer componente online, cooperativa ou competitiva, Pokémon Legends: Arceus é uma experiência focada na exploração single player, onde as montadas, que correm, escalam, nadam e voam, nos trazem uma sensação de liberdade como nenhum jogo da série nos deu.

Mesmo com as falhas que o jogo tem, reitero o que disse: Pokémon Legends: Arceus é o melhor Pokémon de sempre. Porque é corajoso, inovador, contemporâneo, e deu uma camada diferente de compaginação de toda a série. Para jogadores old school, como eu, focados no coleccionismo, veio dar-nos uma razão para investirmos o nosso tempo a escrever esta enciclopédia viva de Pokémon. 

Neste momento só desejo saber para onde vai a série a seguir, utilizando este modelo, que, acredito, seja um verdadeiro sucesso. Que portas abrirá, que possibilidades teremos acesso no futuro. De nos sentirmos verdadeiros exploradores e investigadores, de nos esgueiramos pelo mundo natural e tentarmos capturar e estudar todas as criaturas que encontramos.

Dizer que Pokémon Legends: Arceus é obrigatório para todos os fãs de Pokémon e para todos os detentores de uma Switch é um eufemismo. Um dos jogos mais brilhantes do ano na Switch que não deixa os seus pontos fracos ensombrarem os momentos de verdadeira criatividade e originalidade que foram impressos à série. Demorámos 26 anos para aqui chegar, mas já aqui estamos, e o futuro da série Pokémon, visto daqui, parece brilhante.