Dia 24 de Maio de 2018. Estávamos felizes. É certo que Trump acusava os atletas que se ajoelharam durante o hino a deixar o país, mas também era o momento em que Harvey Weinstein se entregava às autoridades naquele que foi um dos momentos mais importantes para as mulheres. A economia em Portugal ia de vento em popa, o Verão e as férias aproximavam-se. Alguns acreditavam que não eram felizes, mas na verdade éramos felizes. A 24 de Maio de 2018, Harper Pendrell, um faz tudo armado em MacGyver, deixaria de ser feliz. 

Nesse dia foi lançado Unforeseen Incidents no PC, uma aventura point & click sobre uma pandemia desconhecida que arrasa vilas numa questão de dias e para a qual não existe cura, o que levou Harper a perceber que antes, afinal, era feliz. Dois anos depois o nosso mundo estava completamente mudado. Estávamos fechados em casa, as ruas vazias sem carros, o medo de contrair Covid-19, teletrabalho com os filhos, máscaras, desinfecções e a maior quantidade de vezes na vida que lavámos as mãos diariamente. Ao longo desse processo de dois anos percebemos que afinal antes éramos felizes. 

Com a pandemia surgiram as teorias da conspiração, cada uma mais inverosímil que a próxima, crescendo para níveis de negacionismo que não acreditávamos voltar a ser possível no mundo moderno. A minha preferida foi quando num café alguém soltou a frase “deixa-os vacinar todos, deixa. Quando ligarem o botão do 5G é ver os braços todos a rebentar!”. Este é apenas um exemplo da insanidade que atingiu uma grande parte da população, especialmente nas caixas de comentários e algumas nas ruas, e que deixou Darwin a revirar os olhos. 

Unforeseen Incidents, agora lançado na Nintendo Switch, acabou por se tornar um exercício de futurologia. Na pacata fictícia vila de Yellowtown surge uma estranha febre que mata pessoas em dias mas que rapidamente Harper e os seus colegas descobrem tratar-se de um plano obscuro levado a cabo pelo Governo ou uma corporação. Mais não escrevemos para evitar spoilers. 

Nas últimas duas décadas as aventuras point & click foram desaparecendo como género favorito dando lugar às aventuras narrativas, e mesmo as que sobreviveram modernizaram-se em grupos distintos. As que apostaram fortemente num ambiente gráfico muito estilizado como Samorost ou Machinarium; as que apostaram em narrativas mais maduras como as criações da Wadget Eye (Shivah, a série Blackwell, Gemini Rue, entre outras); as que procuram reinventar o género como Night in the Woods ou Oxenfree; as pós-modernas como Life is Strange ou Walking Dead, até ao experimentalismo como em Kentucky Route Zero. No entanto, Unforessen é uma aventura tradicional que ao mesmo tempo possui pontos a favor e pontos contra.

O melhor de Unforeseen é a diversidade do elenco de personagens e os seus diálogos. Embora o tema seja pesado, o humor é constante, principalmente por causa de Harper que parece estar sempre mais descontraído e brincalhão acerca da situação, não deixando no entanto de estar frequentemente amedrontado cada vez que uma situação se torna mais difícil, numa boa mistura entre corajoso e cobardolas. As personagens no jogo não estão lá apenas para nos darem pistas mas são criações com complexidade e originalidade e a todas elas nos sentimos apegados, seja uma repórter, uma ranger de uma floresta, ou um artista plástico cujos neurónios já viajaram para outra galáxia. Até uma simples empregada de balcão ou um operador de uma barragem proporcionam interações inteligentes e divertidas. Com um voice cast perfeito é aqui que Unforeseen mais brilha. 

O outro ponto mais forte do jogo é a fantástica arte de no seu estilo de desenho a caneta e marcador que torna os ambientes exteriores e interiores em criações de encher o olho e com uma enorme variedade e diferenciação de locais, atenção aos pormenores e a ausência de repetição de elementos. É pena que a animação não acompanhe esta arte fantástica, com ciclos de caminhada e movimentos demasiado simplistas (o que está relacionado com uma equipa criativa de apenas 3 pessoas, acompanhados de alguns programadores, da Backwoods Entertainment). Esta é, no entanto, uma equipa que aqui prova que pode ir muito longe no género. A banda sonora de Tristan Berger acompanha de forma perfeita o estilo artístico. Ao contrário de muitos jogos de aventura, qualquer cenário exterior e interior tem a sua música própria dedicada, mas é nos efeitos sonoros dos interiores que Tristan se torna genial, colocando dezenas de pequenos sons que nos provocam uma imersão total no ambiente no qual nos situamos. 

Os puzzles são inteligentes e perspicazes e alguns conseguem sair da tradicional interação de objectos do inventário com personagens ou outros objectos. Alguns dos puzzles têm menus próprios de interação incluindo até um computador em que temos de digitar comandos de MS-DOS para aceder aos ficheiros. Desde há muitos anos que não tinha que jogar uma aventura point & click acompanhada de um bloco de notas, o que será indispensável para resolver grande parte dos puzzles. 

O pior é que sendo uma aventura tradicional, Unforeseen recupera alguns dos puzzles completamente ilógicos que essas aventuras nos habituaram e que nos obriga a experimentar tudo o que temos no inventário com tudo o que existe no cenário (o que se torna ainda mais irritante com loadings demorados entre os cenários). Essa frustração é no entanto colmatada pelo facto de estarmos quase sempre com vários puzzles para desvendar ao mesmo tempo. Se estivermos presos num puzzle, podemos sempre ir resolver outros enquanto tentamos perceber qual a lógica, ou a ausência dela, envolvida nos restantes. Confesso que tive que utilizar a internet pelo menos uma vez para conseguir a solução para um deles. Normalmente quando o fazemos sentimo-nos parvos porque não pensámos bem na solução, mas no caso de Unforeseen isso não acontece porque o puzzle era simplesmente inatingível pela lógica e perspicácia. 

A adaptação para a Nintendo Switch é bem conseguida no que toca ao sistema de controlo. Podemos utilizar o touch screen, mas um esquema de botões bem definido e inteligente permite-nos atravessar toda a aventura sem um único toque no ecrã. Já a reduzida escala dos textos e alguns objectos como diários, livros ou panfletos (importantes como pistas na progressão) podem tornar-se problemáticos, e em muitos puzzles vi-me obrigado a tirar screenshots para depois os poder aumentar e ler na galeria da consola fora do jogo. 

Concluindo, Unforseen Incidents é um regresso ao passado das aventuras point & click mas com um cast bem desenhado e diversificado, um humor agradável, uma arte e banda sonora incríveis. É uma daquelas aventuras que largamos muitas vezes por frustração de alguns puzzles ilógicos mas que 10 minutos depois estamos a regressar novamente por estarmos tão envolvidos na narrativa que querermos continuar a desvendar os segredos da pandemia de Yellowtown. Para quem gosta de aventuras point & click tradicionais com um leve toque de modernidade, é um jogo obrigatório.