E na lista de jogos que até podem ter qualidade mas que foram lançados na pior altura possível temos WARNO, um RTS que simula a Terceira Guerra Mundial.

Lançado há 2 meses em Early Access, WARNO é o mais recente jogo da Eugen Systems, autores de alguns dos melhores RTS de táctica militar realista, Act of War, Steel Division e Wargame. Títulos de nicho com uma curva de aprendizagem muito acentuada, onde a extrema dedicação ao detalhe, ao conhecimento bélico das unidades envolvidas e do know-how estratégico inerente aos jogos de guerra, assumem um papel preponderante.

Provavelmente este novo jogo da Eugen Systems é aquele que mais está a passar debaixo do radar de todos, e isso deve-se ao facto de terem voltado a apostar num lançamento em nome individual, sem o apoio de estruturas maiores como a Ubisoft (que lançou R.U.S.E.) ou a Paradox, pelo qual lançaram Steel Division: Normandy 44.

Neste mundo de História alternativa, a Guerra Fria em 1989 aqueceu, contra todas as expectativas, levando a que o território dividido da Alemanha seja o palco do confronto entre a NATO e o exército do Pacto de Varsóvia.

Mecanicamente, WARNO segue as pisadas de alguns dos seus antecessores espirituais, em que escolhemos o nosso conjunto de unidades ao estilo de baralho, e instalamo-las em combate e damos. Não se assustem, ao assumirem o meu habitual amor a card games e deckbuilders: quando refiro  aqui a ideia de baralho é porque temos um número limitado de pontos para criar o nosso baralho, escolhendo de entre os soldados e veículos (e aeronaves). No caso da infantaria há um elemento interessante – gastamos também pontos e slots necessárias para escolher os veículos de transporte indicados.

WARNO está numa fase muito embrionária de Early Access, e isso sente-se em demasiados aspectos do jogo. Seja a total ausência de tutorial, o que é um verdadeiro pecado tendo em conta o quão difícil é de dominar todas as mecânicas de WARNO, o número limitado de Países (de um lado e de outro do conflito) e correspondentes unidades. Somemos a isto a ausência de modo campanha, e ficamos com os modos multiplayer e escaramuça que são apenas indicados para quem já domina as mecânicas e o mindset dos jogos da Eugen Systems.

Neste momento, uma viagem pelo interface de WARNO e pelos filtros de unidades e os muitos submenus é quase um desafio por si mesmo – exponenciado pela total falta de tutorial. Saber quais botões e quais indicadores correspondem ao quê é uma camada de estudo que a maioria dos jogadores não tem tempo para perder.

Há, porém, algumas novidades na “tradição” da Eugen Systems neste esqueleto de WARNO. A capacidade de definirmos um grupo e atribuirmos o seu controlo à IA do jogo liberta-nos para a já caótico e exigente microgestão que um jogo destes exige em termos de estratégia e táctica em tempo real. Definimos as Rules of Engagement (à falta de expressão melhor em português, perdoem-me o anglicismo) em termos da utilização e sacrifício de recursos e unidades, e a IA vai tentar levar a cabo as nossas instruções. Neste momento de alpha vamos colocar um grande ênfase em “tentar”, já que a inteligência necessita de grandes melhorias. 

Em tudo o resto WARNO é o vislumbre de um tremendo wargame que quer apostar no realismo militar: com um grande foco nas linhas de suporte (perguntem à Rússia o quão importante isso é), e com o peso do custo operacional e financeiro de cada unidade, sem o podermos observar de um ponto de vista descartável como em tantos outros RTS.

Mas é possível que neste momento o preço base, 39,99€, a falta de capacidade para introduzir novos jogadores a este título e aos jogos da Eugen Systems, e o limitado conteúdo sejam difíceis de o aconselhar para qualquer um. Uma certeza no horizonte: se o estúdio francês aplicar a grande promessa para este WARNO, a capacidade de modding pela comunidade, aliada à sua experiência em desenvolverem war games, poderão fazer resultar daqui um dos melhores jogos do género.