Há uns dias analisei Triangle Strategy, o mais recente jogo da Square Enix com o cada vez mais popular estilo HD-2D, que para tipos pouco sensíveis como eu não é mais do que uma simbiose entre pixel art e seus nostálgicos sprites com polígonos em alta definição.

Oficialmente, este foi o segundo jogo lançado pela editora japonesa com a mesma orientação visual, após Octopath Traveler em 2018 (do qual também gostei bastante). Ainda este ano teremos o remake de Live a Live (JRPG da SNES até aqui exclusivo no Japão), seguido de Dragon Quest III, algures. Um tipo pouco sensível como eu perguntar-se-ia: será que o HD-2D é só papel de embrulho para um cabaz de remakes e sucessores espirituais?

Vou meter a cabeça no cepo e escrever: não!

O meu primeiro argumento é que Octopath Traveler e Triangle Strategy não são sucessores espirituais de nenhum jogo – são antes sucessores espirituais de géneros inteiros. Sejam JRPGs com o clássico combate por turnos, sejam os RPGs tácticos, há demasiados elementos de demasiados jogos em cada um deles para os afunilar a um título só. Junte-se o facto de nenhum ter DLC ou sequelas previstas (Octopath teve uma prequela em Android que este ano sairá no Ocidente mas como diria a Teresa Guilherme isso agora não interessa nada) e penso neles como uma espécie de peças de museu futurista de um artefacto histórico. São algo único e repensado em vários sentidos dentro de um género.

Triangle Strategy saiu para a Switch a 4 de Março deste ano.

O meu segundo argumento é de que a Square Enix encontrou na sua direcção corporativa uma forma muito elegante de não largar o passado. Segundo Tomoya Asano, principal força por detrás de Triangle Strategy mas também Octopath Traveler ou Bravely Default (já voltaremos a ele), o presidente da Square Enix “quer ver mais HD-2H” em jogos da companhia.

Ora, para quem deseja que Final Fantasy, ainda a jóia da coroa, volte ao tempo dos sprites ou pelo menos ao combate por turnos, bem pode esperar. A saga mais universal e lucrativa da Square Enix tem de acompanhar os tempos e combate por turnos não é tão popular como há 20 anos. Concordo que cada vez mais há um argumento que deve mover as editoras a criar jogos para um público tendencialmente mais maduro, com poder de compra, mas sem a garotada e adolescentes imberbes (mesmo que não cumpram a idade recomendada) nenhum AAA pode sonhar ser blockbuster. Final Fantasy, que até ao X até saía a cada dois anos, tem tido lançamentos muito mais espaçados e mais tempo de produção nas suas iterações single player. E como eu escrevia outro dia sobre o FFXV, ainda bem. Mas o mercado é grande e segmentado, e a gigante nipónica tem apetite para ele…

O remake e localização de Live a Live saem para a Nintendo Switch a 22 de Julho.

Desde 2020, quatro unidades criativas existem dentro da empresa, dedicadas a experiências diferentes. A Creative Business Unit I dedica-se aos principais Final Fantasy de single player, alguns spin-offs e Kingdom Hearts. A CBU III faz, essencialmente, Final Fantasy XIV (e Dragon Quest Builders). A CBU IV trata da série Mana, remasters e ports. Deixei para o fim a segunda destas unidades, que se debruça, pois bem, sobre Dragon Quest, Nier e… Bravely Default, mais todo o HD-2D lançado até aqui.

Com isto quero mostrar que não é por Final Fantasy se estar a reinventar a cada lançamento (e isso é uma coisa boa, é lidar, amigos) que o mercado para experiências mais tradicionais – mas de maneira alguma estanques, como Octopath Traveler e Triangle Strategy nos provaram – deixará de ser explorado. Dá para atacar um pouco de tudo, com recursos adequados.

Provavelmente a maior parte do orçamento irá para a CBU I, enquanto a CBU II terá grandes sucessos no Japão e um nicho sólido pelo mundo. Sim, há muito negócio à mistura. Mas ao menos não são os tipos ocupados com os ports que nos vão estar a desenhar jogos que requerem outra atenção. Ou como a Activision tem feito até aqui, de direccionar todos os estúdios para um só jogo. É certo que tantos focos só estão à altura das grandes editoras – as duas já referidas, uma Ubisoft, uma EA, uma Take-Two ou, quem sabe, uma Tencent. Mesmo entre Sony, Microsoft ou Nintendo, os vastíssimos catálogos parecem ter públicos universais, mas menos agarrados ao passado. Também o que a Square Enix está a fazer é trabalhar nichos.

Acima de tudo, é oferecer qualidade a esses nichos, sem cair na vulgaridade de alguns ports ou remasters, standard da indústria dos dias de hoje. Voltando a Asano, eis alguém que começou no design dos velhinhos Full Metal Alchimist da Playstation 2, passou por alguns jogos da série Mana e até produziu o port de Final Fantasy III para a DS. Com o advento da série Bravely Default, esse seu legado visual, mas acima de tudo da frescura das mecânicas em géneros que se pensavam saturados, trouxe-o a este lugar em que nos oferece qualidade. E com tanto legado, sinto que o melhor ainda está para vir.

Vinte paus em como o próximo HD-2D vai meter o Chrono Trigger.

Já o remake de Dragon Quest III ainda não tem data de lançamento.