
Os 25 anos de Gran Turismo correspondem praticamente à história da família de consolas PlayStation. A série de condução tem acompanhado todas as gerações, tornando-se um dos títulos de corridas mais emblemáticos da história dos videojogos. A sensação de conduzir os modelos mais poderosos das principais marcas, as provas de GT e a sensação de colecionismo sempre foram alguns dos elementos reconhecidos da série.
Mas talvez seja a procura da perfeição de Kazunori Yamauchi e a sua Polyphony Digital que destaca os seus jogos de outras propostas. Os modelos repletos de polígonos, os interiores dos cockpits detalhados são os elementos que provavelmente mais recursos consomem às respetivas plataformas. Reza a história que o contador de polígonos de um farolim é equivalente a todo um modelo de um automóvel de um jogo de geração anterior.
Gran Turismo Sport foi lançado na PlayStation 4 e apesar de manter a sua essência de condução, o jogo estava construído para ser consumido online. O estúdio basicamente abandonou os modos de jogo a solo, campanhas, histórias que incentivem os jogadores quando não estão a competir online. Foi um hub para o seu já famoso GT Academy, onde se descobrem pilotos reais a partir de talento nos jogos. Essa visão levou a algumas críticas que o estúdio procura agora corrigir no novo capítulo.
E ao mesmo tempo que comemora 25 anos de existência, Gran Turismo considera-se como parte da história da indústria automóvel, pelo menos no virtual, e como tal, Kazunori Yamauchi escreveu uma verdadeira carta de amor às competições automobilísticas. Todo o jogo é repleto de elementos históricos, das principais fabricantes, a evolução dos veículos desde o Ford T no início do século passado, até aos bólides que devoram atualmente o asfalto. O jogo pretende ensinar os jogadores sobre a evolução dos automóveis, os modelos mais emblemáticos que cunharam a história e tudo isso vai sendo registado.
Isto quer dizer que o estúdio voltou atrás na estrutura do jogo. As competições offline voltaram, com diferentes modos, sem obviamente descurar a componente online. Aliás, é necessário percorrer a campanha narrativa para desbloquear o acesso aos lobbies online. Para efeitos deste teste, o período pré-lançamento incluiu algumas sessões limitadas para testar online, que infelizmente eram incompatíveis, e por isso não foi avaliado. Mas quem jogou o jogo anterior compreende que se espera muita competição no campo multiplayer.

Mas há que destacar que, se os modos a solo ensinam a conduzir, a lidar com a física e a potência dos automóveis, o formato online (ou a possibilidade de jogarem dois na mesma consola em Split-Screen) é tudo sobre aprender etiqueta. Destaque para o Sports Mode, onde há uma grande educação que o jogo tenta ensinar aos jogadores da sua postura online, classificando os jogadores com os pontos Driver Rating (DR) listando-os numa tabela de rankings. Além da experiência do próprio jogador, o seu comportamento e respeito com outros pilotos humanos é salientado no jogo. Este sistema é dinâmico, alterando-se com a evolução de comportamento e etiqueta dos jogadores. E para participar no Sports é mesmo preciso fazer um registo com dados reais, uma vez que este é o modo que abre portas às competições sérias no âmbito GT Sports.
Já a estrutura a solo, tudo gira em torno de um mapa, que não sendo de exploração livre como um Forza Horizon, serve de hub para todas as opções do jogo. A campanha narrativa centra-se no Café, onde temos de completar menus com três carros específicos que temos de obter. Estes encontram-se nas provas disponíveis, que são temáticas, como por exemplo marcas de determinado país ou classe do modelo. Ao todo são 20 menus que compõem a “história” do jogo, com diálogos com especialistas que nos contam elementos curiosos associados aos modelos ou histórias.
Ao longo deste formato vão desbloqueando as diferentes áreas do jogo, como a garagem de tuning em que podem afinar os automóveis, comprando ou desbloqueando peças através de uma roleta acedida com bilhetes amealhados nas provas. Podem trocar os pneus, suspensões, travões e dezena de peças divididas por diversas categorias que elevam a qualidade dos automóveis, essenciais para obterem uma melhor performance nas corridas, seja a velocidade, como capacidade de travar, curvar, acelerar, etc.
E as classes são importantes, pois tal como é habitual, as corridas têm pré-requisitos, desde a classe, como país de origem do veículo, o tipo de tração, etc. Ou têm veículos correspondentes ou podem alterá-los para cumprirem o que é pedido.

Não falta a habitual escola de condução, onde tiram as licenças das classes, depois de passarem por provas simples, como travar no local certo ou fazer curvas com precisão, até uma prova final. São desafios classificados com medalhas e estão longe de serem fáceis, mas que nos preparam para as corridas em si.
Existem vários outros estabelecimentos, desde concessionários, centro de licenciamento, local onde podem captar fotografias, acesso aos circuitos, etc. Os ícones vão aparecendo no mapa à medida que avançam na história dos capítulos do Café.
Penso que não sendo muito longo, a campanha a solo é uma adição sempre bem-vinda e serve como treino para as competições online. Até porque cada pista apresentada tem assinalada a corrida que conta para desbloquear o veículo necessário, mas tem diversos modos paralelos, normalmente premiando o jogador com créditos adicionais para comprar novos veículos para a coleção. Há provas de contrarrelógio, de derrapagens, corridas arcade, passear pelo circuito ou mesmo corridas personalizadas. Há bastantes opções para cada pista.
Em paralelo ao mapa, podem aceder ao modo Music Rally. Este será mesmo o primeiro contacto com o jogo, uma vez que o podem jogar logo nos primeiros instantes da sua longa instalação de quase 100 GB. Trata-se do clássico modo arcade em que temos um tempo para acabar a prova, mas cada checkpoint acrescenta segundos preciosos à corrida. O nome do modo deriva das músicas que estamos a ouvir, sincronizadas com as metas e com o ritmo geral. É um modo descontraído e divertido, sempre ao volante de clássicos, com diversas provas para desbloquear.
Obviamente que Gran Turismo continua a incentivar o colecionismo. Mais que acabar a história, o grande objetivo será mesmo colecionar os mais de 400 automóveis disponíveis neste lançamento. Todos os modelos vão sendo adicionados a uma espécie de caderneta de autocolantes, em que podem consultar e obter informações adicionais sobre os mesmos. E há carros clássicos desportivos, aos modelos topo de gama mais atuais. É tudo uma questão de correrem, amealhar dinheiro para os comprar, ganhar como prémio das provas ou terem a sorte de saírem na roleta.

Obviamente que para a maioria dos jogadores, o que importa é a condução e o comportamento dos carros na pista. Felizmente este Gran Turismo é talvez um dos mais acessíveis que já joguei. Claro que é possível definir a dificuldade e as ajudas, tais como travões automáticos e assistência de condução. Mas mesmo sem as ajudas, não é o típico simulador onde estão sempre a comer relva. Há um bom equilíbrio, mas tudo depende da experiência geral dos jogadores.
Isto leva-me a falar na inteligência artificial, que até foi badalada recentemente o seu novo GT Sophy. Na prática não consigo distinguir o comportamento dos adversários com outras propostas. Seguem o seu caminho, sem serem agressivos ou que lutem pelas suas posições como esperava. Aliás, o jogo nem penaliza os jogadores por embater nos adversários, significando que estes são ótimos para nos amparar nas curvas.
Antes de mais, há que referir que apesar dos modelos estarem impecáveis, como sempre, não existe qualquer sistema de danos. Mais um compromisso que a marca teve de fazer para aceder aos veículos, mas que é um argumento que começa a cansar nesta altura na indústria. Acidentes e batidas aparatosas fazem simples riscos e o comportamento dos carros é semelhante a um pacote de leite. Infelizmente sempre foi assim na série e não é agora que isso mudou.
Quanto à condução, a Polyphony joga com a fórmula segura, oferecendo uma sensação de velocidade sem os artífices dos efeitos de blur e outros que transferem para o jogador o efeito do carro atingir altas velocidades. É um jogo mais “lento” que por exemplo Forza Motorsports, e se quiserem, mais aborrecido. Até porque todas as provas passam por ultrapassar a meta no top 3 para a completarem, levando o jogador a não arriscar muito quando está em terceiro para avançar, uma vez que não existe um prémio para além de fechar a corrida com o ouro. Nesse sentido, o jogo torna-se aborrecido a médio longo prazo, embora seja uma opinião pessoal.
De salientar mais uma vez a sensação háptica conferida pelo DualSense. É possível sentir os diversos tipos de asfalto, a água, mas sobretudo a trepidação do volante e caixa de velocidades replicada no comando. Vão sentir os estalinhos, tal como se tivessem mesmo ao volante de um carro.
Por outro lado, GT 7 sofre das mesmas dores de um jogo cross-gen. Ao ser lançado para a PlayStation 4, o estúdio está amarrado às limitações da consola anterior. E está longe de ser o jogo de condução mais bonito. É tudo demasiado estático, mesmo que algumas paisagens derivadas às diferentes mudanças meteorológicas tornem o quadro mais bonito. Não importa que o estúdio afirme que as constelações de estrelas no céu foram alinhadas com a realidade, quando os olhos dos jogadores estão colocados no asfalto. Mesmo os efeitos de lens flare de um pôr-do-sol não é nada que tenhamos visto em outros jogos.
Nesse sentido, não consigo considerar que graficamente estejamos perante um Gran Turismo de nova geração. E apesar de não comparar mecanicamente com o Forza Horizon 5, depois daquilo que vimos no jogo da Xbox Series X, é impossível não notar a falta de inspiração visual de GT 7. É como se as fichas tivessem sido gastas totalmente nos modelos dos automóveis e todo o embrulho tivesse sido colocado em segundo plano. Mas não me interpretem mal, o jogo é bonito no geral, mas está longe de nos impressionar, de nos deixar de boca aberta como Forza Horizon 5 o fez.
Feitas as contas, Gran Turismo 7 é um jogo competente, que certamente vai agradar aos fãs da série. Mas não considero que puxe pelo género. O colecionismo e os modelos dos automóveis estão impressionantes e a adição dos modos a solo, que faltaram no jogo anterior são muito bem-vindos. Mas fora isso estamos perante um jogo que traça o limbo entre o arcade e a simulação, acabando por nem ser um nem outro legitimamente. Muitos fãs vão adorar toda a oferta deste jogo, outros certamente desejariam mais ambição neste GT 7.













