
Sou uma dog person. Aliás, nas últimas duas décadas diria até que era uma bird person, se é que isso existe, e à época em que morava perto nos Olivais alimentei um sonho de adestrar um corvo – facto que rapidamente descobri ser legalmente impossível dada a minha proximidade com o Aeroporto Humberto Delgado.
A minha relação com os gatos é algo irónica. Por um lado o meu fascínio pelos felinos, em especial a espécie que serve de mascote ao meu clube, e por outro um sentimento misto de desconforto com gatos, desde a minha alergia respiratória ao seu pêlo e ao facto de, na realidade, não confiar nada neles. Perdoem-me a generalização, mas a minha paranoia exacerbada lembra-me sempre que existe a possibilidade de levar uma valente arranhadela como reacção a qualquer gesto.
(Enquanto me preparo para ser alvo dos archotes e ancinhos da turba amante de gatos, que não percebeu que os adoro, mas as minhas alergias e paranoias combinadas impedem-me de conviver com eles, avanço para o tema que me traz aqui hoje: Cat Cafe Manager).
Um jogo que esteve em produção nos últimos 2 anos, Cat Cafe Manager, rapidamente se tornou um dos meus alvos na incessante procura de um jogo relaxante que me levasse para o local onde Animal Crossing me levou em 2020. Mas depois de algumas horas neste jogo desenvolvido pelo estúdio Roost Games, percebi que para além do charme inicial, a postura superficial das mecânicas de Cat Cafe Manager rapidamente mostraram que pouco há para nos agarrar.

Mergulhamos neste pequeno indie como em tantos outros: chegamos a uma pequena povoação, é-nos dado um lote de terreno e como bom empreendedor que se tivesse umas calças caqui e uma camisa azul clara facilmente seria confundido com um membro da IL, lá nos aventuramos a começar um negócio. E este negócio, sem grande prospecção de mercado, é dedicado à restauração e ao acolhimento de gatos. Um local onde os clientes podem vir beber um café ou um chá e ao mesmo tempo conviver com felinos.
Antes de explicar o porquê das mecânicas deste acolhedor management game falharem, há que admitir que possivelmente o grande elemento cativante deste Cat Cafe Manager é a sua direcção de arte. O seu estilo 2D altamente colorido, com um traço reminiscente de Pendleton Ward, criador de Adventure Time, confere uma aura deliciosa a este jogo, que nos cativa de imediato.
Mas ultrapassado o seu brilhantismo visual e musical (Cat Cafe Manager envolve-nos num excelente ambiente musical), são as mecânicas deste management game que deixam muito a desejar.
O sistema de jogo é simples: temos de possuir as receitas, ingredientes e equipamento para criar os diferentes tipos de alimentos que determinado “grupo” de clientes gosta. Cada um destes grupos é liderado por um personagem com o qual vamos estabelecendo amizade (e que influenciará a receptividade dos restantes membros). Os vagabundos, por exemplo, são fãs de café. As bruxas, os hipsters, os punks gostam de outras coisas, como chá, batidos, entre outros.
Não é que a necessidade de conhecer os gostos de cada grupos seja a dificuldade de Cat Cafe Manager, mas sim a capacidade de ter sempre stock dos ingredientes correspondentes e termos a habilidade (ou a skill desbloqueada no nosso staff) para conseguir produzir os seus pedidos.

Entregar atempadamente o pedido aos nossos clientes vai fazê-los subirem a nossa aprovação dentro do seu grupo, o que vai, progressivamente, desbloqueando novas receitas e ingredientes.
Para captar determinado grupo social podemos colocar publicidades direcionadas a si, mas, é precisamente aqui que cai o grande ponto negativo deste jogo: em cada dia de jogo há pouquíssimos clientes a visitarem o nosso café, para sequer termos problemas em cumprir os pedidos a horas sem que eles partam indignados, ou sequer que justifique a contratação de staff.
Quando pensamos em jogos de time management que inspiraram as mecânicas deste Cat Cafe Manager como o clássico Diner Dash, pensamos em desafio de tempo e a capacidade de irmos cumprindo com os pedidos.
Não esperava nada tão intenso como Diner Dash, mas ter 1 a 2 clientes por dia no nosso café não só não gera o dinheiro suficiente para termos um bom abastecimento de ingredientes, como torna a monotonia de cada “dia” de trabalho em jogo um verdadeiro aborrecimento.
Pelo meio vamos tendo a possibilidade de adoptar gatos (e o número depende do quanto avançámos nas tech trees), sendo que cada gato vai adicionar-nos buffs passivos ao nosso estabelecimento comercial.
Mas, como dizia, tirando todo o apelo visual de Cat Cafe Manager, as mecânicas, e o segmento onde o jogo poderia ser realmente interessante: nos aspectos de management game, são todos lentos e aborrecidos. Um jogo onde notoriamente a vontade de criar um management game é apenas uma nota de rodapé para o combustível primário: fazer um jogo à volta de gatos fofos.
Para mim, enquanto fã de management games, Cat Cafe Manager vai ficar na memória como uma tremenda oportunidade perdida, e pouco mais do que isso, um conjunto de mecânicas superficiais que nos perdem o investimento num tempo demasiado curto.













