Caça ao Indie #313

É indiscutível que o Japão – a sua cultura e as suas tradições – exercem uma imensa influência em criadores de todo o mundo.

Os 3 indies desta Caçada representam a cultura japonesa como a sua grande musa.

Ikai [PC, Switch, PS4, Xbox Series, Xbox One, PS5]

Sou um grande fã de terror asiático, ainda que na última década, especialmente desde que fui pai, comecei a perder a vontade e até a tolerância para me assustar. Mas ainda hoje sinto que, à excepção de alguns casos europeus, ninguém pensa e produz terror como os asiáticos, especialmente os autores japoneses e coreanos, com uma longa tradição de criação em literatura, manga, mas especialmente cinema e videojogos.

Apesar do estúdio Endflame – criadores do magnífico Ikai – ser catalão, o ambiente onde posicionaram o seu jogo de terror psicológico na primeira pessoa foi no Japão feudal, aproveitando o folclore da época como base para a sua história. 

No nosso caminho para desvendar os mistérios sobrenaturais que assolam a nossa aldeia, vamos resolvendo puzzles, descobrindo segredos, e um dos elementos mais interessantes: desenhar a pincel alguns símbolos em tiras de papel antigo para banir ou capturar os espíritos malignos.

Ikai recorre mais à criação de ambientes enervantes do que propriamente dar-nos jump scares gratuitos, e isso, para mim, tem um melhor resultado do que muitas das abordagens que os jogos actuais do género têm tomado.

Com alguns problemas de polimento e finalização que não são tão negativos do que os problemas de ritmo da narrativa e do excessivo backtracking, Ikai é um bom jogo indie que augura um futuro risonho (ou tristonho, dado o género ao qual os autores dão preferência) para este estúdio de Barcelona.

Ganryu 2 [Switch, PS4, Xbox One, PC]

Parece que esta é a semana de ressuscitar a Neo Geo, depois de termos falado de Andros Dunos 2, e da sua sequela, 30 anos depois, é a vez de encontrarmos o Storybird Studio (criadores de Finding Teddy, entre outros), a trazer-nos a sequela de Ganryu, de 1999.

Para quem não conhece Ganryu – como eu não conhecia – as semelhanças com o lendário Shinobi são impossíveis de não encontrar. Um jogo passado no Japão feudal, um action platformer onde somos um… shinobi, onde atiramoss facas e atacamos com movimentos que nos fazem duvidar se estamos em 1994 a jogar numa Mega Drive. O que até acaba por ser elogioso para este Ganryu 2.

É claro que o ambiente do Japão feudal rapidamente vai progredindo para algo mais sci-fi, o que, à medida que avançamos nos níveis, nem questionamos. Tudo faz sentido, ao bom espírito dos jogos de 16 bits.

Ganryu 2 consegue inspirar-se em todos os elementos artísticos da época, evitando adicionar elementos que a tecnologia e os motores actuais permitem, como filtros e cálculos luminosos, mantendo o jogo o mais fiel às suas origens possível. É curioso que nos jogos anteriores o Storybird Studio deu uso às potencialidades actuais na pixel art, mas que neste caso preferiu manter tudo com as limitações técnicas dos anos 1990.

Mas é mecanicamente que Ganryu 2 nos leva para o melhor dos jogos com abordagem arcade da época, notando-se a aprendizagem que os autores devem ter feito com o já citado Shinobi, com uma fluidez de controlos impressionante.

Ganryu 2 é obrigatório para quem já era fã do jogo original, ou para quem tem saudades de jogar a série de Joe Musashi.

 

Samurai Bringer [Switch, PS4, PC]

Trazido até nós pela mão da PLAYISM, a editora indie japonesa que tem feito um trabalho meritório na ocidentalização de muitos jogos independentes asiáticos, Samurai Bringer é um hack ‘n slash roguelike bem mais interessante do que o primeiro contacto deixava transparecer.

Com elementos do folclore do Japão feudal, Samurai Bringer mistura uma direcção de arte interessante, com personagens atarracados que quase relembram a abordagem voxel reproduzida volumetricamente com pixel art, mas que ao mesmo tempo serve para distinguir visualmente este indie de tantos outros jogos.

Onde Samurai Bringer realmente brilha e nos impele a diversas tentativas é na extrema customização que fazemos de Susanoo, o nosso protagonista samurai. Os muitos inimigos que derrotamos vão deixando cair pergaminhos, que podemos equipar para formar as nossas builds. Mas dada a variedade e as possibilidades de combinação, cedo vamos perceber que este sistema de customização é altamente dinâmico e que nos vai levar a estar constantemente a repensar e a adaptar-nos à progressão dos níveis e da dificuldade dos inimigos.

Talvez a sua maior força acabe por ser a sua maior fraqueza, como diria um dos melhores filmes portugueses alguma vez feitos. Este nível de customização de um sistema tão livre e tão vasto, aliado à repetição inerente às muitas mortes que um roguelike traz, e Samurai Bringer poderá ser facilmente rejeitado pela maioria dos jogadores. O que é uma pena, tendo em conta que este é dos mais densos e desafiantes roguelikes que joguei em muito tempo.