Caçada Semanal #315

Só porque começo a caçada desta semana com o início de uma típica anedota portuguesa não quero imediatamente dizer que estamos perante três indies anedóticos. Tal como esse registo humorístico dos Malucos do Riso desapareceu do panorama cultural nacional mas tinha um certo lugar que acredito que ainda devia ocupar – mesmo que de forma muito mais discreta – também os três jogos desta caçada não são para todos os públicos, mas devem continuar a existir.

KAOS SURVIVAL [PC]

Comecemos pelo português. Ainda em Early Access e num estado de claro desenvolvimento, KAOS Survival é o que o nome diz, em primeira pessoa. Acordamos de boxers no meio de uns edifícios abandonados, rapidamente percebemos que há zombies e toca de vestir e equipar para dar cabo deles e dos outros sobreviventes.

Importa aqui referir algo: não me lembro de em toda a minha vida ter jogado um único survival game. Minecraft, DayZ, PUBG, Fortnite, The Forest, Rust? Nada. Zero. Nicles batatóides. Sim, meti aí alguns battle royales no meio porque da minha visão de helicóptero sobre o género, as mecânicas sobrepõem-se. Portanto não serei o mais entendido para analisar um jogo como KAOS Survival – se há subtilezas desenhadas para apelar a acérrimos fãs do género, não as consegui discernir.

O certo é que para um leigo como eu, entrar neste jogo foi difícil: sem grande noção do que fazer, como fazer. Demorei bastante a arranjar armas e a fazê-las funcionar (facas e machados foram os meus melhores amigos). Onde vejo a grande virtude neste projeto é no seu potencial. Neste momento é um mapa bem grande e zombies, portanto pode ser o que quiser. Há crafting e podemos fazer a nossa base.

O que me parece que a Shark3D de Agostinho Dias tentou fazer foi voltar ao básico do género, numa iteração inocente e descomprometida de diversão. Difícil de recomendar para já, pelo seu estado tão primordial e no meio de um género, tão, tão saturado.

METEOHEROES (PS4, PC)

Diretamente do programa Allianzas do PlayStation Talents de Espanha (um pouco diferente dos prémios que temos em Portugal) chega-nos MeteoHeroes, uma adaptação de plataformas side scrolling de uma popular série infantil italiana. Seis jovens normais, mas dotados de super poderes que controlam o clima – Thermo, Pluvia, Ventum, Nix, Nubess e Fulmen controlam, respetivamente, a temperatura, chuva, vento, neve, nuvens e eletricidade. Um bocado como os PJ Masks, mas em vez de ser à noite é quando o ambiente precisa deles – ou seja, a toda a hora.

Não conhecia a série, mas o charme dos personagens é imediato. Com os seus saltos energéticos e sotaque italiano, imaginei Mario demasiado depressa, confesso. Ao longo de alguns níveis por icónicas cidades mundiais, apanhamos objetos que estão a contribuir para a poluição nesses locais, escondidos por cada nível. Com moedas espalhadas como objetivo secundário, é bem giro andar ali aos pulos a salvar o planeta.

A dificuldade é bastante acessível, ou não fosse um jogo virado para os mais pequenos. Controlamos cada um dos seis heróis, consoante o nível nos pede. Com algumas criaturas para destruir com simples disparos, todos os personagens fazem praticamente a mesma coisa 95% do jogo. Perante obstáculos específicos, somos convidados a escolher pedir ajuda a um dos colegas ou usar um de dois poderes do nosso personagem para ultrapassar o obstáculo. Acontece que só há uma resposta certa para cada obstáculo e não podemos escolher em que momento usar qual personagem. Não creio que se complicava muito o jogo dando mais opções nestes momentos e fazendo os jogadores pensar em mais do que uma forma para resolver um problema.

Com uma vertente muito pedagógica na mensagem ambiental que tenta passar – tal como a série – MeteoHeroes é uma boa opção para os mais pequenos, com aquele charme irresistível de desenho animado.

SPACE ACCIDENT (PC)

Apenas 14 dias antes da invasão da Ucrânia, a Whale Rock, sediada em Kiev, lançou Space Accident, um puzzle game na primeira pessoa. Já com a guerra a todo o vapor, o jogo continua a receber updates, o que é incrível.

O nosso personagem acorda numa nave espacial aparentemente deserta, após ter morto alguém e ser fechado pela restante tripulação. O nosso objetivo é descobrir o que lhe aconteceu, enquanto progredimos pelas diferentes secções da nave que estão fechadas antes de resolvermos certos puzzles. Dentro desta aura de mistério – e bem, devo dizer – não há tutoriais e tive de descobrir como movimentar uns pequenos núcleos solares, que por sua vez refletem feixes luminosos que temos de apontar a uns…pitromaxes, à falta de melhor termo?

Os assets, ambientes e iluminação em Unreal Engine são muito agradáveis e ajudam à imersão. Só acho que a solução dos vários puzzles, ainda que nunca seja imediatamente óbvia, recorre a uma mecânica um pouco preguiçosa dos developers: se primeiro o nosso núcleo solar recebe um feixe de luz e consoante o apontamos ele continua a refletir esse feixe numa direcção diferente, eventualmente percebemos que consoante um micro posicionamento do núcleo, ele não só reflete como duplica esse feixe para que o possamos aproveitar para outra peça.

Estou perfeitamente OK em que o jogo não explique esta parte. Mas parece quase um glitch, até que percebi que era mesmo a solução para a maioria dos puzzles – depois é só entender a mecânica da sala inteira, o que se vai tornando cada vez mais complicado.

A escrita não é espectacular, mas ao menos ao longo do jogo vamos ficando interessados no seu mistério. Se não bloquearem muito é uma coisa para acabarem em poucas horas, o que também justifica o seu preço reduzido na Steam.