Com tanto jogo mediano e esquecível que eu jogo, cruzar-me com títulos tão criativos e inovadores que me deixam de queixo caído, onde as ideias trazidas para o videojogo são tão distantes de qualquer coisa que tenha experienciado até então que a impressão que causam na minha mente será decerto duradoura. Card Shark, o novo jogo do estúdio Nerial (autores dos geniais Reigns, do qual tenho inclusivamente o jogo de tabuleiro) e publicado pela Devolver Digital, traz a aparente apetência dos criadores por jogos de cartas, mas de forma tão criativa, que é impossível ficar indiferente.

Card Shark é um jogo narrativo em 2D, onde as cartas são muito mais que um pretexto para a acção. Uma aventura passada no Séc. XVII, em pleno reinado de Luís XV, onde controlamos um jovem mudo que auxilia numa taberna típica da época. Após um encontro fortuito com um estranho aristocrata (e vigarista), o Conde de Saint-Germain, que nos convence a participar num dos seus esquemas de batota com a promessa de fortuna, e rapidamente somos obrigados a fugir sob pena de sermos presos (ou executados) como cúmplices num homicídio que resulta de um acidente causado pela nossa (aparente) inocente batota.

Órfãos, mudos e sem lugar onde nos resguardamos, somos convencidos pelo Conde a acompanhá-lo de cidade em cidade a ser o seu parceiro numa série de vigarices relacionadas com o jogo. 

A primeira destas batotas aprendemos quando conhecemos o Conde e implica utilizar a nossa posição de empregados da taberna para podermos espiar as cartas dos adversários de jogo. Esta primeira batota demonstra-nos as intenções e a criatividade mecânica de Card Shark. Com uma garrafa de vinho na mão, carregamos no analógico direito para deitar bebida no copo do jogador adversário, e ao fazê-lo o ecrã divide-se e conseguimos ver sobre o seu ombro as cartas que possui. A dificuldade neste primeiro passo é que só conseguimos olhar para as cartas enquanto estamos a deitar vinho no copo, e se nos distrairmos a contar as cartas, o mais provável é que vertamos para fora, o que vai aumentar o nível de suspeição sobre nós.

A seguir precisamos de comunicar o que vimos ao Conde. Para isso aprendemos uma série de sinais efectuados apenas com a forma como limpamos a mesa, e o número de voltas que damos com o pano. Estes são apenas os primeiros códigos silenciosos que temos de executar de memória e num curto espaço de tempo utilizando os analógicos e os botões dos comandos.

A dificuldade mecânica de Card Shark reside neste factor: a nossa capacidade de nos lembrarmos dos sinais e truques de prestidigitação que têm de ser executados de forma precisa sob pena de falharmos a batota ou a comunicação com o nosso parceiro. É claro que o estúdio Nerial inseriu a possibilidade de jogar de forma casual, em que os códigos – dependendo do truque em questão – e como os efectuar são informações disponíveis, mas em modo normal temos mesmo de recorrer à nossa memória, à execução perfeita e à mestria de todos os sinais e da ordem de todos os passos de prestidigitação.

A progressão no jogo, entre as nossas viagens de carroça de cidade em cidade, vão desvendando um enredo que se vai complexificando, e à medida que vamos conseguir “limpar” os nossos adversários de dinheiro vamos progredindo na escala das salas de jogo, com aristocratas e mais tarde a própria coroa. 

Não são apenas o tipo de batotas, 28, no total, que vamos aprendendo à medida que a história avança, mas também as tramas e as histórias de faca e alguidar, conspirações contra a coroa e tantos outros crimes que vão sendo demonstrados no percurso narrativo que fazemos com Card Shark.

Ao contrário de muitos jogos, e por razões óbvias, Card Shark não é mesmo um jogo que possamos deixar na prateleira e regressar um tempo mais tarde. A aprendizagem dos truques, mecânicas e afins não são repetidas pelo Conde nem pelos saltimbancos que vamos conhecendo, e o que vai acontecendo é o adicionar de novas e mais complexas mecânicas a truques que já sabemos e que devemos conhecer de trás para a frente.

Card Shark é genial na forma como aproveita toda a lógica centenária das batotas e vigarices nos jogos de cartas, os transforma num sistema de mecânicas complexas que requerem uma grande destreza mental e digital, acompanhando tudo isto num jogo com uma brilhante direcção artística que encima na perfeição uma história vivida durante o totalitarismo monárquico francês do Séc. XVII.