Devo pertencer a uma minoria que foi conquistado para os RPGs através de Vampire: the Masquerade, e não através de Dungeons & Dragons. É possível que a explicação seja simples: seja o ambiente gótico que ainda hoje descrevo a todos como os primeiros filmes do Alex Proyas, o foco na intriga e nas interacções sociais, no universo de todo o World of Darkness e é claro, os poderes sobrenaturais.

Tenho um personagem com o qual jogo há 16 anos – ainda que com algumas interrupções – e na última década (com especial foco na pandemia) tenho estado ainda mais focado como storyteller do que como jogador. Diria que não existe universo de RPGs que conheça melhor, e prova disso são as sessões de verdadeiro proselitismo de Vampire: the Masquerade que costumo dar, a tentar provar que é a aposta segura.

Nos últimos anos – em especial no pós-aquisição de World of Darkness por parte da Paradox – estamos a sentir um ressurgimento de Vampire: the Masquerade em múltiplos aspectos. Seja a nova versão do RPG, a amaldiçoada sequela do videojogo Bloodlines, diversos jogos de tabuleiro (que eu comprei todos), o battle royale que eu detestei, o regresso do segundo grande TCG da História, dedicado a este universo, entre um fulgor que há muito os vampiros e a Masquerade não sentiam. Vampire: The Masquerade – Swansong, lançado pelo estúdio Big Bad Wolf há algumas semanas é a mais recente proposta.

Quem adquiriu este Vampire: The Masquerade – Swansong na esperança de aplacar a fome que Bloodlines 2 ainda nos deixa, vai estar muito errado. Sendo óbvio que a componente narrativa de Swansong é o seu pendor principal – o que seria de uma adaptação a videojogo de um jogo narrativo se assim não o fosse? – há grandes diferenças entre a linhagem criada pelo jogo publicado originalmente pela Activision e este.

Vampire: The Masquerade – Swansong segue a linha de história interactiva e aventura como a Telltale ajudou a definir na década passada, onde as nossas decisões vão moldando o desenrolar da história.

Mas Vampire: The Masquerade – Swansong sofre logo de muitos problemas para o jogador menos versado no universo criado pela White Wolf. Não me oponho a primeiros capítulos in media res, especialmente porque me bastaram poucas linhas de diálogo para perceber o enquadramento da trama que envolve a Camarilla de Boston. As interacções entre os personagens logo nos primeiros minutos apresentam as alterações políticas da sociedade vampírica da cidade norte-americana, a mudança de Príncipe, e os elementos que co-regem a cidade. Mas… eu conheço Vampire: the Masquerade há 16 anos. Já li e reli os diversos manuais diversas vezes. Conheço o universo quase que pela palma da minha mão. Um jogador menos actualizado em relação a este universo vai sentir-se perdido, deslocado e ainda que a enciclopédia vá adicionando informações do lore que permitam aos novos jogadores enquadrarem-se na narrativa, sinto que o estúdio Big Bad Wolf assumiu a priori que todos os jogadores que comprarem Vampire: The Masquerade – Swansong serão experts no universo de World of Darkness. O que provavelmente não será assim tão certo.

A outra grande ironia de Vampire: The Masquerade – Swansong é a criação dos personagens, como é que a equipa de argumentistas e a de direcção de arte conseguiram estar nos antípodas uma da outra. Se a equipa de artistas visuais criou personagens interessantes, fora dos estereótipos, como uma vampira com vitiligo e outra cuja fisionomia ligeiramente acima do peso e com uma personagem de meia idade quebram com os estereótipos vampirescos.

Mas a equipa de argumento? Caíram nos clichés habituais. Se há algo que uma boa história (em especial de Vampire: the Masquerade) é a compreensão de que não podemos ter uma visão maniqueísta do mundo, em que existe preto, branco e cinzento, onde ninguém é puramente boa ou intrinsecamente má. Na sociedade vampírica de World of Darkness sentimos isso, somos todos heróis, vilões, caçadores e vítimas. Mas Vampire: The Masquerade – Swansong teima em estabelecer os maiores lugares comuns, fazendo dos nossos personagens os óbvios heróis trágicos de uma história de detectives cujo interesse é derreado demasiado cedo na sua existência.

A resolução de puzzles para avançarmos na história não contribui para a melhoria do enredo, ainda que a utilização das disciplinas dos diversos clãs seja um elemento interessante não só para os conhecedores de V:tM, mas também dos restantes jogadores. De pior forma, alguns dos puzzles são tão risíveis que se tornam desconexos com a seriedade que o universo traz.

Vampire: The Masquerade – Swansong não é um mau jogo, mas é um título que impõe uma barreira proibitiva para quem não conhece este universo. Mesmo para quem já joga o famoso RPG da White Wolf há muito tempo, esta história de detectives vampírica mesclada com trama sobrenatural de faca e alguidar não é das mais interessantes ou originais. E não cria, como o magnífico Vampire: The Masquerade Bloodlines criou, uma fome insaciável a quem o joga de conhecer mais aprofundadamente o universo de World of Darkness. E no meu constante proselitismo do modus vivendi vampírico, esse é um pecado maior do que aquele que condenou Caim e toda a sua prole.