No Natal de 1992 – provavelmente o Natal em que recebi mais jogos, 3, e todos eles terceiras iterações de séries – recebi para a minha Famiclone o cartucho de um dos meus beat’em ups favoritos de sempre. E esta afirmação é dita com um misto de óbvia nostalgia sobre um jogo que está, para mim, imbuído de uma grande carga emocional, e pelo facto de ser objectivamente um dos jogos do género produzidos de forma mais criativa pela Konami, no tempo em que a empresa era um colosso do desenvolvimento de videojogos.

Teenage Mutant Ninja Turtles III: The Manhattan Project é um excelente jogo, e já o joguei tantas vezes (apesar de só o ter conseguido terminar uma vez aí com 7 ou 8 anos), é daqueles jogos do qual tenho memórias tão fortes que costumo regressar a este título dada a sua qualidade. 

Sejam os jogos para arcada, consolas domésticas ou portáteis, a realidade é que praticamente todas as adaptações da série a videojogo desde o final dos anos 1980 até meados da década de 1990 são dos melhores exemplos que o género dos side scrolling beat’em ups tiveram para oferecer.

Recebi com entusiasmo o anúncio de que a DotEmu – empresa que nos tem levado às melhores viagens revivalistas dos últimos anos – iria publicar um beat’em up retro que estava em desenvolvimento pela Tribute Games, a empresa canadiana que já nos tinha presentado nos últimos 10 anos com excelentes jogos como Mercenary Kings e Panzer Paladin. 

Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge, é o resultado dessa parceria, que cria uma ponte entre o presente e o passado, com os criadores do estúdio Tribute Games a terem o ónus de criar uma experiência que estivesse pelo menos no mesmo patamar dos históricos jogos de há 30 anos.

Antes de mergulhar em Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge, permitam-me um desvio pessoal. Ter dois filhos com o qual partilho a paixão pelos videojogos desde cedo nas suas vidas permite-me ir fazendo paralelismos entre o crescimento de um e outro. Há cerca de cinco anos, sensivelmente, passei com o meu filho mais velho o primeiro beat’em up da vida dele, precisamente Turtles in Time, da máquina de arcada do saudoso 1UP Gaming Lounge. Viajemos cinco anos até ao presente e consigo ouvir do meu filho mais novo gargalhadas semelhantes aos que o meu filho soltava a jogar comigo numa máquina de arcada, com ele em pé em cima de uma cadeira de bar, ao meu lado, com Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge

Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge sente-se como um jogo clássico, parece ter sido feito no início dos anos 1990, e tudo nele nos relembra essa fase dourada dos beat’em ups. Mas há tanto nele que é resultado das três décadas que separam esse período e os dias de hoje, com ligeiras adições e polimentos que resultam de uma maturação diferente dos developers activos no mercado dos dias de hoje.

As melhorias e diferenças entre este título e os que o precederam há 30 anos são tão subtis que essa elegância acaba por ser um factor determinante na verdadeira maravilha que é este jogo. Não reinventa a roda, muito pelo contrário. Soube utilizá-la no seu auge, mas conseguiu encontrar os pequenos pormenores que apelariam tanto a velhos como novos jogadores, e as diferenças de estatísticas dos personagens jogáveis é uma delas.

Com avaliações entre 1 a 3 pontos em poder, alcance e velocidade, cada um dos 7 personagens jogáveis (de até um máximo de 6, em cooperação, simultânea, local ou online), tem não só um “feel” diferente no combate, como um sistema de level up automático que vai desbloqueando ataques especiais.

Utilizando um sistema clássico de botões de acção, simples de memorizar, o que Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge faz de diferente é a introdução de um vasto leque de ataques e movimentos, combinações e projecções, que dinamizam, e muito o combate, impedindo-o de ficar repetitivo.

Sendo o seu enredo um mero pano de fundo por onde os níveis temáticos se vão desenrolando ao bom estilo dos grandes jogos do género, desembocando sempre numa boss fight com personagens clássicos da série de TV e da BD (especialmente da Archie), com os fãs das TMNT como eu a regozijarem-se com todos os pormenores destinados a fãs e conhecedores que vão sendo espalhados pelo cenário.

O combate e a ameaça dos inimigos vai ficando progressivamente mais difícil, à medida que novas unidades coloridas de ninjas do Foot Clan vão sendo introduzidas, muitos deles, nos últimos níveis, com uma grande capacidade para se defenderem e contra-atacarem. 

O jogo possui alguns coleccionáveis que podem exigir algum backtracking e repetição de níveis para os mais empedernidos dos completionists. Mas em tudo o resto Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge consegue exponenciar todos os melhores elementos que o género possui, tornando-se, para mim, o melhor beat’em up desta vaga revivalista que felizmente temos vivido nos últimos anos.

Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge é obrigatório para fãs das Tartarugas Ninja, de beat’em ups clássicos, ou mesmo como um grande jogo para ter disponível para sessões de diversão simples em cooperação com amigos, seja online ou local. Uma homenagem de uma série de criadores que não mascaram a sua paixão pela série e pelo género, e que o demonstram em cada segundo de jogo que experienciamos, e cujo sucesso, espero, marque uma revitalização de um género que há décadas clama por um fulgor renovado.