Seria cínico da minha parte considerar um mero fait divers que muitos dos jogos que têm saído ultimamente têm quase obrigatoriamente de incluir elementos de dois géneros que adoro, deck building e roguelike, ou ambos, em alguns dos casos. Com algumas propostas que pouco convencem e que estão apenas a sorver do filão de interesse que estes géneros têm nos dias de hoje.

Mas Golfie não. Golfie pega tanto em elementos de roguelike e deck building, e junta-lhes um jogo de mini-golf com níveis proceduralmente gerados, criando uma experiência única que nos mantém investidos em ir sempre um pouco mais longe, e tentar uma nova run.

Apesar de estar ainda em Early Access, Golfie já demonstra uma grande coesão e polimento em cada nível que jogamos. A missão de cada um dos mini-campos de golf que flutuam no meio do vazio – todos eles com acidentes geográficos, curvas e contracurvas – é a de conseguir meter a bola no buraco com o menor número de tacadas possível.

Em cada turno temos à disposição um conjunto de cartas, cada uma delas com um custo energético específico. A ideia é a de as selecionarmos pela ordem com que queremos que os seus efeitos sejam sentidos, acautelando sempre que não explodimos com a “bateria” da bola-de-golf-robot que é o nosso protagonista. Podemos ter um Power Shot seguido de um Lob Shot de forma a que a curvatura do segundo seja impulsionado pela força do primeiro. E à medida que vamos evoluindo o nosso protagonista vamos também desbloqueando o acesso a cartas (ou chips) mais poderosos para encontrarmos em cada run e adicionarmos ao nosso baralho, com habilidades mais complexas que extravasam a simplicidade dos shots iniciais. Entre atribuir capacidades de teleporte, planador ou de curvar horizontalmente, o desafio de levar a bola a “bom porto” sem ultrapassar o número de tacadas (cada uma para além do limite faz-nos perder uma barra de vida) ou sem atirar a bola para o vazio (algo que também nos penaliza numa barra de vida) é exponenciado pelo desenho proceduralmente gerado de cada campo. 

Dentro das muitas cartas/poderes que encontramos, há alguns que são ativados manual e sequencialmente, o que nos permite uma gestão estratégica mais directa da partida e da trajectória que queremos que a bola tome.

A recompensa por conseguir acertar no buraco com uma tacada única e certeira é uma nova carta para o nosso baralho, sendo que as tacadas que salvamos da meta estabelecida são convertidas em moedas no final do nível. E podemos gastar essas moedas em máquinas de venda colocadas em alguns níveis, e que, a par de apanhar mais moedas e de tocar em cristais que desbloqueiam novas cartas, são algumas das razões para nos aventurarmos por caminhos menos óbvios até ao buraco.

Com muito conteúdo para além deste modo roguelike, a satisfação que vamos tendo em cada uma das nossas runs, para além de subirmos de nível e de desbloquearmos novas cartas e poderes, é mesmo a tabela classificativa que nos mostra como nos comparamos com outros jogadores. À excepção disto ainda não existe, nesta edição em Early Access, grande conteúdo em Golfie, que, apesar de tudo, tem todos os elementos potenciais para ser um dos lançamentos próximos mais criativos a incorporar de forma original elementos de roguelike e deck building.