São quase 12 anos de dedicação aos videojogos, uma grande parte deles a pesquisar e a procurar jogos que pouca gente conhece, e pelo meio encontrar obras verdadeiramente marcantes. Rogue Legacy, lançado há 9 anos, foi indubitavelmente um desses casos. Um jogo criativo que me abriu a fome pelos roguelites que duraria até hoje, que demonstrou uma forma divertida, criativa e desafiante de relembrar o contributo e a importância de um jogo como Ghosts ‘n Goblins, mas repensado para os dias de hoje.

O conceito era simples e inovador: a morte certa não era – como não o é na maioria dos roguelikes – uma perda de tempo, mas a construção de algo mais. E neste caso a morte era a demarcação de um personagem – uma combinação de talentos, classe e estatísticas – aleatoriamente criadas pelo jogo. O castelo, esse nosso inimigo que se reconfigura a cada nova playthrough, ficava assim permeável de mais uma tentativa de ser conquistado, desta feita por um descendente do nosso personagem anterior que provavelmente teria muito pouco em comum com o nosso protagonista recém-falecido.

Parte do apelo de Rogue Legacy é essa capacidade de adaptação à extrema criatividade na piscina de possibilidades que cada novo personagem representa. O jogo pega nas muitas variáveis e passa-nos o controlo deste (ou desta) novo/a descendente para as mãos. Alguns com características hilariantes, como um personagem com Síndrome do Intestino Irritável que pode provocar burn aos adversários sobre o qual soltarmos um gás, ou mesmo um personagem com Alzheimer’s que não tem acesso ao mapa ou outro com  acromatopsia, vendo tudo apenas a preto e branco. Estes são apenas alguns dos traços que podem calhar numa nova run e que não só conferem um desafio diferente à nossa run, mas também uma camada de humor que a equipa do estúdio Cellar Door Games nunca se coibiu de introduzir.

A tremenda evolução e maturação que o estúdio canadiano apresenta de uma iteração para outra é surpreendente. É verdade que entre o sucesso de Rogue Legacy e a sua sequela passaram alguns anos e alguns lançamentos, mas ver a diferença entre ambos os títulos – do ligeiro salto de direcção de arte dentro de uma estética similar – ao incremento e melhoria de tudo aquilo que fazia do jogo original o marco que foi, é um dos muitos motivos que devem orgulhar a equipa dos Cellar Door Games. No lugar da excelente pixel art do jogo original encontramos animações encontramos cel-shading que faz a transição entre ambos os títulos, com a qualidade e detalhe dos cenários proceduralmente gerados a trazerem uma identidade única a cada nível.

Apesar de ser um roguelite em toda a sua acepção – no final de cada run utilizamos o dinheiro que amealhámos para comprar melhorias permanentes para as próximas gerações – existem aqui elementos de metroidvania. O nível central e inicial funciona como um hub, que se nos deslocarmos para norte, sul ou este iremos encontrar as outras zonas. Mas para lhes acedermos temos de ir derrotando os bosses subsequentes e obtendo o equipamento que nos permitirá atravessar os restantes níveis. 

Apesar de não divergir muito do original – ou em extremo dos roguelites em geral – Rogue Legacy 2, com a sua aparente capacidade infinita de manter a jogabilidade fresca – seja com as classes ou com os traços genéticos aleatórios dos personagens e as suas possíveis combinações – permite que o seu usufruto seja virtualmente infinito. Sobretudo porque a ideia de estarmos constantemente a jogar com personagens diferentes (a cada nova run podemos escolher de entre 3 proceduralmente gerados) e os perigos constantes do level design que vão muito para além dos inimigos que encontramos, e que nos trazem sempre a frase “só mais uma tentativa” à cabeça, sem fartar.

Com muitas classes novas, uma miríade de movimentos que nos permitem deambular pelos níveis labirínticos, onde adicionamos neste segundo jogo as relíquias, que têm um custo físico de serem equipadas e que podem ir diminuindo o HP máximo, mas que permitem uma mudança abrupta na jogabilidade. 

A rejogabilidade é imensa, com muitas páginas de história, segredos, relíquias, skills e runas para desbloquearmos, e fazemo-lo, dezenas de horas depois de começarmos, porque Rogue Legacy 2 é praticamente perfeito em tudo o que se propõe a fazer. Com cada nova run e novo descendente a ser um elemento de adaptação em si mesmo, e a conseguir algo que muito poucos roguelites conseguem: afastar a monotonia por completo e fazer-nos querer sempre voltar para mais uma run.