Dune é uma obra de ficção cientifica que ainda hoje suscita bastante fascínio, como outras grandes obras do género a sua proximidade com a actual realidade é abismal. Mais interessante para um nicho do público, mas um bom e sustentável nicho, até porque a obra não foi demasiado ordenhada como outras obras, como Star Wars e Star Trek.

Para muitos Dune é considerado o Senhor dos Anéis no Espaço, e a comparação não é de todo descabida, ambas as obras são um ensaio que mistura a realidade com a ficção. Tudo isto surge como o culminar de vários ensaios técnicos de Frank Herbert, neles o autor escreve sobre o efeito das dunas como agente da desertificação na costa de Oregon.

Por alguma razão e como estamos no final dos anos 1950 e a caminhar para os loucos anos 1960 de experiências sociais, teve que introduzir de alguma forma matéria sobre cogumelos alucinógenicos, e é por isso que a “especiaria” é aquele elemento que permite viajar pelas estrelas.

Enquanto que o Senhor dos Anéis é um ensaio sobre a 2 Guerra Mundial e as forças maléficas do Fascismo e do Comunismo, Dune é um ensaio sobre o clima e o conflito de interesses das maiores potências mundiais em territórios ricos em petróleo, um recurso essencial para a civilização humana industrializada, mas que entra em choque com os interesses da própria sobrevivência do Planeta.

Em Dune, o petróleo é substituído pela “especiaria”, um recurso que tanto é um componente ou mineral como tem de igual forma um poder místico. Sem a especiaria a civilização galáctica não pode existir pois é a fonte de transporte para distâncias proibitivamente longínquas no universo. Aqui há o grande paralelo de como toda a civilização humana está dependente do petróleo.

Também aqui a intriga política é uma componente importante, nela estão sintetizadas as diversas facões que contestam o planeta Arrakis e os seus recursos. A Casa de Atreides é a facção mais equilibrada de todo o universo, em termos políticos pode ser considerada como o centro moderado em contraste com a Casa de Harkonnen com, um paralelo à extrema-direita.

Mas não só há guerras de interesse entre facções políticas, o mundo corporativo está polarizado entre a Spacing Guild, uma organização que tem o monopólio das viagens interestelares e o CHOAM que se dedica inteiramente ao comercio e ao lucro.

Outras facções representam outros poderes, todos eles interligados num ecossistema inspirado no mundo capitalista, sendo Landsraad os donos do capital e das terras exploradas, a eles as facções devem favores a eles as casas contribuem a sua quota sobre a exploração dos planetas.

Tudo está representado neste complexo ecossistema, até mesmo grupos paramilitares ou milícias profissionais, como o caso dos Sardaukar.

Não querendo alongar pois Dune tem matéria para dezenas se não centenas de artigos, fecho esta breve descrição com a Facção mais simpática, os Fremen, que representam os nativos que são o alvo de todas estas facções, são os residentes do planeta Arrakis, não sendo difícil encontrar paralelos com o mundo real.

A uns dias de sair este ultimo jogo baseado no universo Dune, tive uma conversa com um amigo de como o próximo jogo deveria ter uma componente mais de planeamento económico e político do que ser um mero RTS. Mal sabia que estava a caminho precisamente um jogo focado nestes aspectos.

Estou a falar de Dune: Spice Wars que saiu para o Steam a 26 de Abril deste ano, e ainda permanece em regime de Acesso Antecipado. Ou seja, é um jogo inacabado mas que na sua estrutura é um jogo coerente e funcional.

Tecnicamente não me parece que haja muitas arestas para limar, possivelmente na inteligência artificial que é um “pain in the ass”, literalmente vamos levar tareia a doer e não são umas leves palmadinhas.

Aqui qualquer deslize leva-nos em efeito dominó direto para a derrota. O controlo da economia é ainda básico, mas ao mesmo tempo complexo na sua forma de funcionar, interligada com diversos mecanismos todos eles dependentes uns dos outros.

A especiaria é o recurso principal do jogo, e serve com forma de pagamento pela nossa presença em Arrakis, o Império exige um pagamento anual sobre uma percentagem do que recolhemos no planeta e a nossa presença está dependente disso seja qual for a nossa facção.

Mas a especiaria não é para todos nem para o comum mortal, o pagamento de serviços, de tropas e de outros bens é efeito sobre o sistema económico mais antigo, o das trocas, havendo também o uso de minérios preciosos similares ao ouro como moeda de troca comercial valiosa, e o metal mais comum usado para a indústria.

Mas tudo isso tem de ser oleado com diplomacia, muita diplomacia, e em cima disso os essenciais subornos entre os diversos agentes decisores.

A espionagem não pode ser menosprezada pois será essencial seja para sabotarmos o inimigo ou nos protegermos de sabotagem. A componente bélica do jogo está igualmente presente, mas é um recurso de ultima decisão, e imensamente dispendioso e desequilibrante não apenas para o alvo inimigo mas para o balanço da nossa economia que vai estar sempre numa situação frágil.

A contribuir para o desequilíbrio das nossa economia ou finanças, estarão os ataques constantes de forças hostis nativas do planeta, sabotagem, e sobretudo políticas obrigatoriamente impostas num senado que funciona à base de quem paga mais votos!

Quem espera encontrar aqui um jogo mais pausado como o Civilization, “tire o cavalinho da chuva”, entre 2 a 4h dependendo da vossa skill a partida termina abruptamente, o jogo é mais brutal e “straightforward” mas requer muita atenção e cuidado com os eventos que vão ocorrendo no background, desde revoltas, a manobras políticas e espionagem, ou o desenvolvimento diplomático rápido na skill-tree dum oponente.

Porque da mesma forma que nós podemos ganhar um jogo dominando todo o senado, como podemos perder tudo no campo económico ou tecnológico.

Se queremos uma rápida vitória teremos que planear se vamos seguir a linha belicista ou a linha diplomática, nem sempre a via económica é a via de ganhar o jogo, mas facilita tudo. Recomendo para os maiores fãs da série, para quem gosta do género vale a pena esperar, o jogo está ainda em acesso antecipado, aos poucos o jogo vai sendo completado com mais mecânicas e facções.

Leitura complementar sugerida: https://www.nytimes.com/2021/10/23/opinion/culture/dune-frank-herbert-native-americans.html