
O FIFA está morto, viva o que quer que venha a seguir. O problema das exéquias fúnebres à série que teve o seu início há 29 anos, é que na realidade há muito que os seus lançamentos evidenciavam cuidados paliativos, com lançamentos após lançamentos a apresentarem o mesmo jogo, com mudanças marginais.
Eu sei que é paradoxal colocarmos em debate a forma como o acesso a conteúdo de videojogos em serviço pode estar a redefinir a mentalidade de uma geração que não está habituada a ter de pagar por jogos, mas se há título que há anos deveria ter deixado de ser vendido a preço inteiro era mesmo o FIFA. O modelo mais justo – e permitam-me navegar na utopia de colocar “justiça” e “valores de mercado” no mesmo raciocínio – para um jogo que faz ligeiras alterações de ano para ano, que actualiza os plantéis e que foca grande parte do seu retorno financeiro num modo específico assente em microtransações, não é, certamente, este. Talvez sem o peso do pagamento da marca FIFA a EA aproveite para repensar o modelo de negócio de EA Sports FC. Um título que para mim fica já a perder no baptismo, e que poderá ser um elemento prejudicial na mudança de nomenclatura de uma série com um título universalmente reconhecido.

O canto do cisne do FIFA é mais um estridor sofrido do que uma melodia. Um atirar da toalha ao chão da sua equipa de desenvolvimento que parece ter aceitado este FIFA 23 como o final de um ciclo e que foi a jogo com serviços mínimos. Da edição 22 para a 23 há poucas mudanças, e quase todas são mecânicas, e são sobretudo perceptíveis pelos jogadores profissionais, e não pelos milhões de casuais que investem anualmente na série e que devem representar a grande fatia de consumidores.
Há anos tive de congratular a equipa da EA por querer repensar o jogo, adicionando novos modos, e novas experiências de jogo. O modo de história veio trazer uma profundidade narrativa interessante e que podia ter sido explorada nesta última edição, como falaremos mais à frente, a inclusão do Volta Football, num claro piscar de olhos ao FIFA Street e ao mesmo tempo ao crescimento do público do futebol de salão, e sobretudo a Ultimate Team. Este modo, que nasce do defunto F2P FIFA World tornou-se a joia da coroa da EA Sports, a sua maior fonte de receita e a justificação de uma das suas maiores cenas competitivas.

Mas há anos que o modo de história desapareceu, e nem no ano em que com alguma sagacidade a equipa da EA teve a clarividência de incluir uma das melhores séries da TV dos últimos anos (e uma das mais aclamadas), Ted Lasso, esse modo voltou. Seria um imenso selling point se a EA se tivesse unido a Suidekis e restante equipa de escrita para produzir um episódio narrativo jogável neste universo, fazendo o cruzamento transmedia de ambos os universos. Mas não. E não querendo queixar-me da maravilha que é ter Ted Lasso e o AFC Richmond jogáveis neste FIFA 23, mas parece-me que todo esta Propriedade Intelectual foi muito subaproveitado para tudo o poderia ter sido feito com ele.

Um dos destaques desta edição é a inclusão de ligas inglesa e francesa de futebol feminino, uma mudança que espelha o excelente crescimento da modalidade e que só peca por tardia, mas que acaba por ter um elemento pedagógico: o de ajudar a quebrar barreiras e preconceitos e os comentários de tantos maledicentes que não fazem jus à excelente qualidade técnica do futebol que é praticado pelas equipas femininas. E com isto ter pela primeira vez uma jogadora como capa de um FIFA, um feito que deve ter causado confusão a muitas mentes tacanhas.
Mas com esta trigésima edição a ligação da EA com a FIFA deixa de existir, e com ele um dos títulos desportivos de videojogos mais emblemáticos, e que, certamente, tem algures na sua história momentos que marcaram a nossa. Quero acreditar que este momento de transformação seria perfeito para a EA centrar as suas ideias e repensar o que espera para a sua milionária série de futebol, mas o meu cinismo não mo permite. Acredito que as poucas ou nenhumas inovações que pautaram o FIFA nos últimos anos vai contagiar logo ao nascimento o EA Sports FC, que será o FIFA que jogamos todos os anos com uma pequeníssima diferença: já não terá FIFA como nome.













