
Já seguia Everdream Valley há algum tempo e tinha alguma curiosidade em perceber como a fórmula similar a My Time at Portia iria resultar neste projecto. E a resposta a esta pergunta, antes de explicar porquê, é simples: resulta bastante bem, mas com alguns soluços.
Farming Simulators são jogos estruturados para se enterrarem centenas de horas, pelo que é importante oferecerem actividades suficientes para não se sentir o desgaste da repetição e é neste ponto que me parece que o jogo mais brilha. Há imenso para fazer e os dias parecem curtos demais em Everdream Valley.
Com uma história genérica em que jogamos como um rapazito da cidade que vai passar as férias com os avós e tem de ajudar na quinta, que pensa que vão ser uns tempos aborrecidos, mas subitamente já é um perito na área da agropecuária, carpintaria e culinária. Os meus filhos não são nada assim…

Graficamente um estilo próximo ao desenho animado em 3D que se preza muito ao glitch de colocação de itens, mas que aqui se apresenta bastante polido nesse aspecto, com a vasta maioria das colocações a funcionarem bastante bem e mesmo os próprios declives parecem ter sido tomados em conta, sendo que as poucas alturas em que noto a dificuldade que deve ser programar tendo isto em vista, são aquelas em que os animais nos têm de seguir, e é aí que se nota que eles não conseguem lidar bem com a toponímia do jogo, mas nada de grave ou preocupante, apenas ficam alguns segundos a andar de um lado para o outro a tentar encontrar um local por onde possam subir ou descer uma encosta.
Um dos muitos tags que o jogo tem no Steam é “relaxante” e para isso resultar em muito ajuda a selecção musical que transmite, sem qualquer sombra de dúvida, um estilo casual, calmo e descontraído.
Há uma tentativa dos criadores do jogo nos direccionarem durante a experiência, algo muito bem-vindo considerando a quantidade industrial de actividades a que gradualmente vamos tendo acesso. O nosso avô, que me faz lembrar o avô da Heidi e a nossa avó, que me faz lembrar a dona do Sylvester e do Tweety, vão-nos dando tarefas que servem como tutoriais activos, e esse guia acompanha-nos durante horas e horas, mesmo não sendo um sistema isento de falhas, já que o sistema como são estruturadas as missões se preza a alguns problemas, já que de forma pouco clara acaba por, várias vezes, mudar a missão seleccionada e até chega a haver momentos em que não é bem claro como devemos concluir as missões.

Há um catrapázio de momentos em que percebemos que há uma tentativa de melhorar a nossa qualidade de vida com algumas acções, por exemplo, para regar basta corrermos com o regador pelas colheitas, não havendo a necessidade de regar individualmente cada plantação. As colheitas funcionam exactamente da mesma forma, mas depois há outras situações em que se complexifica desnecessariamente uma actividade, por exemplo, o nosso cão pode ser um cão pisteiro, ajudando-nos a procurar animais perdidos, mas para fazer isso temos que activar o modo dando-lhe um biscoito primeiro, passo totalmente desnecessário. Algo ainda pior acontece com o pastoreio, onde o nosso cão pode funcionar como cão pastor se formos habilidosos o suficiente para percebermos a mecânica de lhe dar as instruções, algo que para mim se revelou frustrantemente difícil e me levou a desistir de o tentar fazer, salvando-se o facto de existirem outras maneiras de fazermos o mesmo.
O jogo tem um ciclo de dia e noite. Se inicialmente não fazemos nada de noite, a partir de certo ponto até aí temos actividades, já que somos brindados com diversos minijogos que, algumas vezes, até são essenciais na progressão da história ou têm consequências reais na fase diurna.
Embora de forma algo simplista, Everdream Valley foi dos jogos em que mais me diverti a construir dada a simplicidade com que tudo funciona, e da forma prática como é fácil visualizar o nosso projecto num ambiente 3D depois de percebermos como as construções funcionam. Embora não haja grande diversidade de construções, tudo funciona bem e permite criações bonitinhas, apenas não estejam à espera do Dragon Quest Builders.

Há também uma componente de exploração do mundo, associada à reparação de pontes e, posteriormente, facilitada pela possibilidade de usarmos cavalos para acelerar a velocidade a que nos movimentamos. Embora o mundo não seja rico em diversidade de ambientes, novas áreas permitem-nos encontrar novos elementos que depois podemos transportar para a nossa quinta e usá-los no dia a dia.
Como também já é de esperar há um mercador em Everdream Valley ao qual podemos vender ou comprar artigos. Termos em mãos um jogo tão casual leva a que o nosso progresso não seja propriamente bloqueado. Embora a compra de artigos não seja barata, também não é difícil conseguir dinheiro, e podemos encontrar tudo o que é preciso para a quinta se simplesmente explorarmos o mundo à nossa volta, mas repito, é tão prático podermos comprar algumas coisas que se torna irresistível fazê-lo.
Embora não haja um componente relacional no jogo, Everdream Valley é bastante completo em termos de actividades, como um Stardew Valley sem as pessoas a pegamassarem-nos, existindo uma infinitude de actividades para nos entreterem. Podemos entrar no jogo para simplesmente pescar, podemos tirar um dia para nos dedicarmos às colheitas, outro para os animais…

Já que falo em animais, toco na opção curiosa de associar cada animal a uma actividade, por exemplo, para tosquiarmos as ovelhas há um minijogo associado que, se inicialmente torna o processo dinâmico e divertido, rapidamente se torna chato e repetitivo. Pessoalmente teria deixado uma opção que permitisse retirá-lo após algum tempo.
Também noto que o jogo poderia estar melhor optimizado, já que noto sempre uma ligeirinhas paragens enquanto jogo.
Everdream Valley é um jogo exemplarmente executado e que conseguiu captar como poucos a essência dos jogos de agricultura. Eliminar o componente social foi, para mim, uma excelente opção, já que sempre foi o que menos gostei nestes jogos, e creio que, com tudo somado e pesado, é uma excelente opção para os fãs do género, ao mesmo tempo que parece ser uma belíssima porta de entrada para quem quer experimentar o género.













