Tenho a sorte de saber exactamente o dia em que tive pela primeira vez contacto com baseball: foi no dia em que fiz 5 anos, quando recebi a minha Famiclone que, de entre de afamados 10000 jogos incluídos (que eram apenas 40 repetidos) tinha um que se chamava simplesmente “Baseball”. Um jogo simples de 8 bits, desenvolvido pela mente criativo de um jovem game designer chamado Shigeru Miyamoto, que em 1983 criou a adaptação do desporto que eu joguei ao longo de anos e que me ensinou as fundações da sua prática.

Passar-se-iam duas décadas até ao meu contacto (e até conhecimento) sobre baseball se ter aprofundado um pouco mais, e não pela forma como se esperaria.Foi mesmo pelo manga MAJOR, de Takuya Mitsuda (também adaptado a anime), uma banda-desenhada desportiva que me fez perceber a dimensão do baseball no Japão. Um crescimento regional explicado pela presença norte-americana no país no pós-Segunda Guerra, transformando o interesse no baseball por terras nipónicas um fenómeno explosivo desde então.

Curiosamente – e muito devido à expressão de ambas as culturas em termos globais – o baseball tem crescido fora dos EUA e do Japão, existindo até a prática do desporto em alguns clubes na Grande Lisboa.

Saltamos quase 30 anos desde que me debrucei mais atentamente sobre um videojogo de desporto: entre 1993, mais ou menos a altura em que após 3 anos de jogo intensivo, o velhinho Baseball de Miyamoto deixou de ser seleccionado na minha famiclone, e 2023, quando Super Mega Baseball 4 foi instalado no meu PC.

Apesar de a Europa ter recebido contacto recorrente com adaptações videolúdicas desta modalidade com o destaque que a Sony tem dado ao seu MLB: The Show, o jogo que possui os direitos de licenciamento da liga principal americana, a realidade é que só com esta série desenvolvida pelo estúdio Metalhead Software Inc. é que resolvi regressar ao baseball.

Super Mega Baseball 4 é a primeira iteração da série desde que foi adquirida pela Electronic Arts. A gigante norte-americana, tradicionalmente forte com os seus jogos oficiais de desporto, juntou ao seu catálogo o jogo que não tendo as licenças oficiais da MLB, tem conseguido contra todas as expectativas fazer frente ao gigante MLB: The Show.

A série foi conquistando seguidores e fãs com os seus jogadores, estádios e equipas ficcionais, mas bastou o peso da EA para que esta 4a iteração trouxesse 200 lendas e atletas reformados, nomeadamente David Ortiz. E antes que pensem que o meu conhecimento sobre baseball é muito profundo por ter, casualmente, feito um nome drop, desenganem-se, para além do próprio Ortiz que faz parte da promoção do jogo, o meu conhecimento de outros nomes da modalidade resume-se a Babe Ruth e Ted Williams por historicamente fazerem parte de décadas de consumo de cultura americana.

Os personagens de Super Mega Baseball 4 têm uma abordagem mais cartoonizada, o que nos leva a assumir uma proximidade arcade em termos de jogabilidade. Não estando completamente errados com esta ideia a priori do jogo, o que sentimos após algum de tempo no campo (perdoem-me a ausência de jargão de baseball, mas não o domino o suficiente para o conseguir fazer) é que a Metalhead conseguiu encontrar um equilíbrio muito difícil de atingir entre o arcade e a simulação pura do desporto. E penso – sem a carga histórica de não ter jogado qualquer um dos jogos anteriores – que é precisamente esse um dos segredos da sua qualidade e do seu apelo para os fãs de baseball.

Se para muitos a falta de licenciamento oficial pode ser um desafio num jogo de desporto, Super Mega Baseball 4 mostra-nos exactamente o inverso. Essa liberdade que é trazida por estar a trabalhar com ligas e jogadores ficcionais permite que o estúdio possibilite a cada jogador uma experiência diversificada, fora daquilo que nos habituámos a ver nos grandes jogos de desporto AAA, da EA e da 2K. São muitos modos distintos que Super Mega Baseball 4, alguns sérios, e competitivos, e outros mais descontraídos, mas sempre com uma grande capacidade de personalização. 

Essa personalização sente-se inclusivamente na capacidade que o jogo nos dá de ajustar o nível de dificuldade, de 1 a 100, o que vai alterar, por exemplo, a capacidade e eficácia dos batedores adversários de aprenderem o nosso estilo ao verem-nos jogar, de forma semi-realista, inferindo as nossas acções.

A densidade de desenvolvimento das equipas e jogadores com as mecânicas de traços individuais e química colectiva, o crescimento dessas estatísticas e a forma como todos estes elementos alteram verdadeiramente a experiência de jogo é algo que leva SMB 4 para um excelente patamar, com o qual, diria, a própria EA poderia aprender, agora que está numa fase de mudança nos seus jogos de desporto. E onde o sucessor do FIFA poderia trazer uma experiência mais alargada que o habitual cash-grabbing que a série nos habituou na última década.

Super Mega Baseball 4 foi o meu retorno após 3 décadas aos jogos de Baseball, e ao mesmo tempo conseguiu levar-me para uma experiência complexa, sem – e passando o pleonasmo – complexificar a minha entrada na série. Só lamento não ter ponto de comparação com a restante série para perceber se esta entrada no portefólio da EA levou a mudanças drásticas no jogo. Mas sem esse peso fica a recomendação sobre Super Mega Baseball 4, um jogo que pode não ser um home run, mas que decerto ganhou innings comigo.