Um metroidvania é um corpo que precisa de ser sustentado por um esqueleto bem forte, com mecânicas com o peso correto para estrutura que está montada. Disney Illusion Island tem um esqueleto com ossos fortes e nota-se particularmente bem. O jogo da Disney assinado por uma produtora independente, criadores do novo Battletoads da Xbox, a Dlala Studios, é primeiro um bom jogo de ação e plataformas e só depois um igualmente bom e competente metroidvania. O jogo que coloca Mickey, Minnie, Donald e Pateta numa grande aventura é um festival de saltos e um collectathon bastante divertido. Foram várias as vezes que não quis avançar na narrativa para procurar um novo item para adicioná-lo ao meu catálogo, de tão embalado que estava na diversão que me estava a ser entregue. Esta obra é otima para nós retirar aquela comichão que nos deixa ansiosos por não obtermos tudo o que há disponível, exige algum desafio para colecionar tudo, mas nada que vos vá deixar suados do esforço para fazê-lo.

A narrativa é uma parte quase secundária do jogo, tem o seu interesse, claro, afinal tem Mickey e companhia (só faltava mesmo o Pluto para o grupo estar completo), mas não é algo absolutamente essencial para se disfrutar do jogo. No entanto, não escondo a minha satisfação pela Dlala Studios se ter esforçado por ter colocado algumas sequências cinemáticas de animação muito bem desenhadas, que assentam que nem uma luva no mundo criado por Walt Disney. A arte gráfica segue uma linha muito semelhante à série de curtas-metragens criada por Paul Rudish (art director de Dexter’s Laboratory), exibida entre 2013 e 2017, que está disponível no serviço de streaming da Disney. É uma direção artística com um traço carregado nos contornos das personagens, o que lhes dá uma personalidade ainda mais vincada, nomeadamente quando expressam algum sentimento ou emoção mais forte. O exemplo mais notável é Donald que está representado na perfeição com o seu tipo de humor sarcástico e os seus ataques de fúria repentinos.

Não é de todo descabido classificar Disney Illusion Island como um collectathon, dado que há tantos colecionáveis para adicionar ao nosso catálogo digital que quase não lhe vemos um fim. Quem for obsessivo-compulsivo quanto a esta questão de colecionar tudo o que há no jogo, que só fica satisfeito quando estiver tudo feito e desbloqueado, vai ficar contente por saber que não faltarão locais para passar a pente fino. Claro que, tratando-se de um metroidvania, nem tudo será possível apanhar à primeira, mais tarde terão de regressar ao local onde deixaram objetos que não conseguiram recolher por ainda não terem a habilidade correta. Pode ser ligeiramente frustrante, mas é algo que não aflige por muito tempo com tanto que há para fazer, a diversão que sentimos ao seguir em frente faz-nos ultrapassar este mau bocado. Disney Illusion Island é um metroidvania no seu estado mais cru, não o digo no sentido pejorativo, é bom ver algo básico e bem feito e, ao não complicar, está a estender um tapete de boas-vindas a jogadores que não escolhem habitualmente um jogo deste género. A obra da Dlala Studios não fica aquém dos grandes clássicos metroidvania de ação e plataformas. Há todo um grupo de mecânicas dedicadas apenas ao salto, que estão para ser descobertas ao longo do jogo. Não tarda nada e já temos uma boa extensão do mapa para percorrer usando as nossas recém adquiridas habilidades de movimentação.

Descanso merecido depois de tanto salto.

Porém, a crueza do jogo, agora num tom negativo, nota-se sobretudo no espaço vazio dos cenários. Por muito que o jogo tenha personagens bem construídas, os cenários parecem terem sido deixados de lado ao longo do desenvolvimento do jogo. Embora Disney Illusion Island seja mecanicamente imaculado, o espaço livre dos cenários e paisagens é algo que não encaixa bem no cômputo geral da estética. Não é algo que me incomode muito, durante uma típica sessão com este videojogo independente, apesar de ser licenciado pela Disney para poder legalmente existir, como é óbvio, estou mais preocupado em saber que caminho devo traçar para poder ir do ponto A ao ponto B do que ver espaços preenchidos com arte. A antítese da direção artística desta obra é, claramente, o exímio game design recheado de boas mecânicas e de níveis bem desenhados na sua estrutura para sustentar a experiência que o jogo proporciona. Assim, apesar de Illusion Island pode não ser apelativo aos nossos olhos, é um deleite para os nossos dedos que faz uso da nossa massa cinzenta para ultrapassar os diferentes desafios.

Este jogo dos criadores do novo Battletoads não vai, nem quer, reinventar a roda. Após uma rápida seleção de uma das quatro personagens disponíveis, vão saltar, correr, planar e uma panóplia de outros movimentos associados à arte de saltar, que os videojogos tão bem reproduzem desde o final dos anos oitenta. Para quem já joga há décadas, mexer-se num action platformer é tão natural como dar um nó nos atacadores do calçado. Para novos jogadores que ficaram curiosos com este título, por ter personagens clássicas da história da casa de animação ocidental mais conhecida do mundo, Illusion Island não complica em absolutamente nada. Aliás, a sua criatividade incentiva-nos a continuar a percorrer e descobrir os segredos do seu mundo colorido.

Aqui salta-se por cima dos inimigos, não se mata ninguém.

Como incentivo para trilhar por um mundo ficcional e criado especificamente para o jogo; mais uma vez o repito, há imensos itens (de todas as formas e feitios) e não acredito que estejam em quantidade excessiva. Estes itens funcionam como os nossos guias, com um salto bem executado (ou realizado como a produtora imaginou) vocês apanham os objetos sem problemas, sem terem de voltar a saltar para uma segunda ou terceira tentativa. É um conceito da escola Nintendo que afinou e inovou, jogo após jogo, com Super Mario. Também não faltam grandes exemplo da mesma época onde a Nintendo e a Sega eram as rainhas das consolas domésticas. À medida que este festival de aglomeração de objetos continua, o nosso progresso vai crescendo e somos pontualmente recompensados com arte dos filmes clássicos da Disney e, no jogo em si, com novas áreas que introduzem novos inimigos e novas forma de chegarmos ao nosso destino. Sem darmos conta, passaram horas e horas. Emboras seja bom atingir um flow state em que somos nós e as mecânicas em uníssono, o jogo não demora muito a ser terminado. Meia dúzia de horas é o suficiente.

Seis horas é bastante curto para um metroidvania. Porém, se forem pessoas com um gosto especial por colecionar tudo, pelo mundo do jogo, assim como todas as conquistas (que aqui se chamam de “quests“, dado que a Nintendo não tem nenhum sistema de conquistas) a troco de um símbolo ou uma medalha para a adornar a lista das vossas proezas, então adicionem mais um par de horas à longevidade total do jogo. Sinceramente, um metroidvania que não permanece demasiado tempo na vossa vida é algo aceitável. Aliás, é de louvar que o jogo termine quando as ideias se esgotaram e que não tenha sido artificialmente alargado com conteúdo desinteressante. Disney Illusion Island termina na altura certa, embora seja estranho um metroidvania não se prolongar mais do que o costume, mas se tivermos em conta que não há combate, é normal que o jogo demore menos a ser concluído.

A pilha de livros que a Dlala Studios leu para fazer um bom metroidvania.

Disney Illusion Island, enquanto metroidvania, destaca-se pela solidez do seu esqueleto de jogo, proporcionando uma experiência de ação e plataformas que vale a pena experimentar, principalmente se forem estreantes no género. Criado pela Dlala Studios, o jogo oferece um festival collectathon com personagens icónicas da Disney, proporcionando momentos de diversão que nos leva a rir, às até uma tímida gargalhada. Apesar da narrativa ser secundária, é esta a cola que mantém tudo coeso e que nos motiva a continuar para chegarmos ao próximo momento caricato entre os quatro amigos. A atenção aos detalhes nas sequências cinemáticas e a arte gráfica inspirada nas curtas-metragens de Paul Rudish contribuem para a atmosfera encantadora, para o que podia ser mais um episódio da Mickey e companhia no seu currículo.

Em 2024, começar essa jornada revela-se uma oportunidade de explorar um universo colorido e cheio de colecionáveis, embora a brevidade do jogo possa surpreender os veteranos do género. Ainda assim, a combinação de nostalgia Disney e desafios metroidvania proporciona uma experiência que nos despertará para um dos géneros mais populares na bolha indie.