Quando somos pequenos criadores a nossa caixa de emails não é muito movimentada, e a nossa página de curadoria no Steam ainda menos. Nunca tinha reparado que existia uma opção de nos enviarem jogos directamente por lá até receber a notificação na minha aplicação de telemóvel que me tinham enviado um jogo. Nem sabia onde via isso, e garantidamente nunca repararia em The Order of the Snake Scale não fosse essa novidade.

Não pensem com isto que só o aceitei por isso, até porque o meu primeiro instinto foi recusá-lo. Não tenho tempo e detesto deixar trabalho por fazer, mas quando vi o trailer pareceu interessante à sua maneira. Um survival horror com detalhes lovecraftianos, planos de fundo pré-renderizados remetendo para jogos como os antigos Resident Evil foram pontos que aguçaram a minha curiosidade. Em nenhum momento pensei que fosse jogar um candidato a melhor indie do ano, mas percebi o potencial.

Como já se torna hábito, The Order of the Snake Scale mostrou-me porque é tão difícil imitar o antigo sem parecer… antigo. De repente apenas me lembro de Moons of Darsalon como um jogo que tentou reproduzir algo antigo sem lhe acrescentar alterações focadas na melhoria da nossa qualidade de vida, e mesmo assim parecia fresco e natural. The Order of the Snake Scale não consegue fazer isso.

Em The Order of the Snake Scale vivemos numa distopia comunista, um regime autoritário em que a democracia não existe. Jogamos como Seth Vidius, um detective contratado pelo regime, mas ao mesmo tempo um anti-herói que não se revê nele, que vai a uma pequena localidade investigar um homicídio. Esta premissa é a base da história e funciona como plano de fundo, embora rapidamente pareça ficar semi-esquecido no meio da trama que se vai desenrolando.

Durante cerca de 8 horas andei para trás e para a frente a resolver puzzles num esquema surpreendentemente similar a um point’n click, mas onde se notava a lógica da grande maioria das soluções. Raramente andei a tentar interagir com todos os objectos que tinha ao calhas, e isso é bom, porque me senti mesmo um detective, ao contrario de jogos como Detective Pikachu Returns, ou mesmo Master Detective Archives: Rain Code onde nunca senti que estivesse a investigar, neste jogo o problema foi mais eu pensar que ficaram algumas pontas soltas, algo normal num jogo feito por apenas uma pessoa. Aqui mais do que sentir que apenas sigo o diálogo, sinto-me mais como em jogos como The Observer, sentimento exacerbado pelo próprio desenho do nosso personagem que possui um aparelhinho no olho que lhe permite ver uma realidade alternativa cada vez que empunhamos a nossa arma, embora aqui o aparelho seja vermelho, o que nos dá uma imagem que nos transforma num Exterminador Implacável da Wish.

É, no entanto, esta escolha de design que me leva ao que menos gosto no jogo, os controlos. The Order of The Snake Scale é pensado para ser jogado com um comando, e como jogador de PC, embora perceba que é um jogo que remete para o passado, já não estou habituado ao esquema de controlos no comando, nem tão pouco ao esquema de controlos presente no teclado e rato. Certo que rapidamente nos adaptamos, algo com as sucessivas actualizações feitas, e refiro que na altura em que escrevo esta análise o jogo ainda não foi lançado ao público, se foi transformando num esquema perfeitamente utilizável, independentemente da forma que se pretenda jogar, mesmo assim não posso deixar de considerar estranho que em 2024 haja jogos em que quando carrego para a esquerda o nosso boneco não anda para a esquerda, mas sim apenas roda para a esquerda, sendo que temos sempre que carregar para a frente para andar em frente. Não é intuitivo, mas rapidamente nos adaptamos, e conjugando com o uso da nossa pistola conseguimos minorar essa sensação.

Há um sistema de inventário, mas em nenhum momento temos de o gerir, já que os itens que vamos apanhando são usados na solução dos puzzles, e mal os usamos desaparecem. Nunca ficamos sequer perto de usar todo o espaço disponível.

Um survival horror vive da tensão que consegue criar, daquela sensação de medo permanente. The Order of The Snake Scale começa bem, com um ambiente escuro e uma música que cria tensão, mas rapidamente percebemos que a música não está ligada a nenhum evento, como se estivesse em loop, e perdemos qualquer receio. A isso acresce que nunca sentimos falta de munição para usar, mesmo tendo de admitir que nunca ficamos com um valor gigantesco de munição, há sempre mais que suficiente para usarmos sem grande preocupação. A conjugação destes elementos retira muita da carga psicológica associada a estes jogos, se não toda.

Inicialmente parece que existe exploração no jogo, mas na verdade é uma ilusão, já que todos os caminhos são imprescindíveis para a solução do jogo, já que conduzem a itens que permitem a solução de puzzles. O mesmo posso dizer daquilo a que chamei missões acessórias, que não passavam de mais um puzzle para termos acesso a novo item que permitia a resolução de outro puzzle.

Há também poucos inimigos para derrotar, o que torna a luta secundária. Este ponto não é um problema, estes jogos vivem da tensão, não da luta real, mas aqui, para além de existirem poucos inimigos, estão colocados de forma previsível na relativamente pequena área jogável. A própria física da interacção com os assets é muito rígida, muitas vezes irrealista, prendendo-nos em galhos ou em cantinhos de parede onde deveríamos “deslizar” e muitas vezes é isso que atrapalha mais os momentos de luta que a sua dificuldade.

Não podemos guardar o jogo a qualquer momento. Há pontos de save, mas quando percebemos como os usar também percebemos que estão colocados em locais chave para a história. Para além disso o mapa é pequeno, com cada morte nunca perdemos grande progresso.

Por fim deixo a nota dos efeitos sonoros. Por um lado, são imprescindíveis para nos apercebermos dos inimigos, por outro estão muitíssimo mal calibrados quando nos deparamos com maquinaria, já que como não há aumento ou diminuição gradual do volume perde-se toda a noção de distância, isto é, o som ou está ligado ou desligado, e foi isso apenas isso que me causou um susto ou outro, a entrada brusca do barulho de uma máquina logo no volume máximo.

Foi surpreendentemente divertido jogar The Order of The Snake Scale. Estes jogos mostram porque o passado pertence maioritariamente ao passado. Para ser honesto, não queria ter de voltar a jogos com estes controlos e com estes cenários. Porque o acabei? Porque o sistema de puzzles está bem feito e o jogo faz-nos mesmo sentir que estamos a investigar, mesmo que a certo ponto já não se saiba bem o que estamos a investigar. Independentemente do que cada um dos jogadores pensar do final da história, o caminho que fazemos até lá chegar é inteligente, desperta a curiosidade e fez-me avançar. O jogo é barato. Vejam para além do grafismo e da colecção repetida de assets e encontrarão um projecto interessante.