A minha infância ficou repleta de referências culturais em que a capacidade sobrenatural de personagens de se transformar em em animais eram o selling point. Começou em grande destaque ao sábado à tarde na RTP1 com o Manimal – série que envelheceu extremamente mal – mas também muitos personagens de animação e BD, tais como o Beast Boy (o Mutano, como era chamado na Abril Morumbi) ou o Animal Man, escrito pelo Grant Morrison. No caso deste último, histórias de BD que me passaram ao lado quando era mais pequeno e só na idade adulta percebi a verdadeira maravilha que ali estava.

Existem muitos exemplos de videojogos onde a transformação em animais, ou em híbridos, é uma realidade, e assim de cabeça o Bloody Roar salta imediatamente à memória, precisamente por o quão diferente se revelou quando comparado com outros concorrentes. 

Não é fácil evidenciar-se num mercado onde centenas de jogos são lançados por semana, mas Coridden posicionou-se como um action RPG indie que se quer diferenciar pelas suas mecânicas de metamorfose, permitindo-nos transformar nas criaturas que derrotamos. O jogo foi lançado a 29 de janeiro de 2025 pela Anshar Publishing, e desenvolvido pelo estúdio Aftnareld, e oferece-nos uma experiência hack ‘n slash com exploração de um mundo semiaberto.

Em Coridden controlamos um de quatro irmãos aventureiros que, após adquirirem artefactos antigos, ganham habilidades sobre-humanas e partem em busca dos segredos da lendária cidade de Aasha, combinando elementos de civilizações antigas com tecnologia avançada. Mas mentiria se dissesse que abraçamos Coridden pela sua riqueza narrativa. Não é. É mesmo pelo combate em que nos transformamos em animais arraçados de dinossauros. 

O combate é diferente para o que estamos habituados em action RPGs, já que Coridden nos permite alternar entre formas humanas e bestiais, sendo que cada forma possui um conjunto único de habilidades e estilos de luta, com linhas de upgrade distintas para que invistamos da forma que melhor se encaixa com o nosso estilo de jogo. No entanto, sinto que de alguma forma o feedback dos ataques poderia ser mais notório, algo que prejudica um pouco o fluxo de combate, mas não de forma profunda, já que a inteligência artificial dos inimigos nem sempre é consistente ou desafiante. 

Como dizia, tanto as formas humanas quanto as bestiais têm árvores de habilidades distintas, próprias de entre as quatro classes humanas e as sete especializações de bestas, oferecendo-nos uma variedade considerável de combinações e estratégias. Tudo isto tendo em conta que o combate em forma humana é mais defensivo, e o bestial mais focado em aumentar a força de forma desproporcionada.

Mas visto que Coridden nos impele a explorar, existe aqui uma aplicação interessante do uso das diferentes formas bestiais para ultrapassar alguns segmentos do mundo, que se apresenta repleto de puzzles e áreas secretas.

Outro aspecto interessante é o facto de podermos jogar com até mais três jogadores em modo cooperativo, tanto local quanto online, e que nos adiciona uma mecânica curiosa: a de podermos cavalgar um dos jogadores se este se transformar para a forma de besta. 

Apesar de tudo isto, e dada a saturação do mercado dos RPGs, tenho sérias dúvidas se Coridden conseguirá ter um impacto que perdure, mesmo com a sua mecânica de metamorfose. Mas certamente, para todos aqueles que têm fome de um Action RPG com acção directa ao estilo hack ‘n slash, o que aqui vemos podemos saciar essa vontade.