O teste do tempo é a derradeira prova da qualidade de qualquer criação, e é seguro dizer que os Cthulhu Mythos criados ao longo de décadas por H. P. Lovecraft são um grande testemunho disso mesmo. 

Um universo de terror que tem sido expandido, mantido vivo e rejuvenecescido por centenas de autores em diferentes media, desde que as suas criações entraram em domínio público. 

Penso que nunca se criou tanto em torno das entidades criadas por Lovecraft como hoje, de séries, filmes, BDs, jogos de tabuleiro, livros e videojogos, e já por diversas vezes falei (e amaldiçoei) a maravilha que é Arkham Horror Card Game. 

Não é portanto de surpreender que muitos jogos indie abracem este universo – legalmente disponível para ser trabalhado – e que muitos e bons jogos nos tenham chegado, e muitos deles até com destaque no Indie X.

Edge of Sanity é um desses casos, um survival horror 2D nestes Mythos, desenvolvido pelo estúdio Vixa Games e publicado pela Daedalic Entertainment. A aventura decorre numa região remota do Alasca, levando-nos à exploração de um ambiente inóspito com uma atmosfera de terror psicológico. A gestão de recursos, como em muitos jogos do género, é fulcral, e temos tudo isto encapsulado numa direcção de arte ilustrada à mão.

Edge of Sanity (o jogo, e não a banda mítica de death metal sueca criada por Dan Swanö) tem, como podem ver pelas imagens, como um de seus pontos fortes a aura criada, mergulhando-nos num mundo desolado e opressor, com um constante sentimento de inquietação. A influência lovecraftiana está presente em cada detalhe: desde os cenários sombrios e inóspitos maravilhosamente ilustrados com um traço forte, até às criaturas grotescas que se escondem na escuridão. A narrativa se desenrola de forma fragmentada, com o jogador descobrindo pistas sobre um experimento que deu errado e sobre sua própria luta para sobreviver em um ambiente hostil.

O jogo mistura elementos de sobrevivência e exploração lateral, e é neste cenário que recolhemos recursos e gerimos o nosso estado mental e escolhemos evitar evite (ou confrontar) os horrores desconhecidos no nosso caminho. A sanidade do nosso personagem, como em muitos jogos lovecraftianos, é mecanicamente relevante na forma como afecta tanto a percepção do ambiente quanto os desafios por nós encontrados.

O combate é deliberadamente limitado, incentivando-nos a escolher cuidadosamente as nossas batalhas, visto que perante estas ameaças grotescas temos personagens que são apenas humanos como qualquer um de nós, e portanto, vulneráveis. A escassez de munição e demais itens torna cada decisão tensa, e para além disso a exploração não é linear, permitindo-nos revisitar áreas para encontrarmos segredos e recursos que podem facilitar – e muito – a nossa sobrevivência.

Edge of Sanity é um jogo indie que abraça um estilo visual muito próximo da BD, quase reminiscente de Mike Mignola, e fá-lo para criar um excelente ambiente de horror psicológico. A sua abordagem de sobrevivência encaixa na perfeição no ambiente desolado do Alasca, que me remeteu sempre para a última temporada de True Detective. A sua dificuldade pode ser algo punitiva para alguns jogadores, mas é perfeita paras fãs, como eu, de Don’t Starve.