
O que os jogos da curadoria desta edição têm em comum não é apenas o género que partilham entre si – são todos atiradores na primeira pessoa com ADN roguelike -, mas uma espécie de irreverência estética e temática que os transforma em experiências tão viscerais quanto estilizadas. São jogos que recusam o cinismo habitual do realismo militar ou do grimdark genérico, preferindo o excesso, o absurdo e o simbolismo. Nesta seleção há noir cartoonesco de um roedor detetive; há um inferno bélico com armas encantadas e soldados amaldiçoados; há dedos das mãos que são como armas metafísicas numa investigação paranormal. Todos eles usam o caos e o humor como linguagem, como se o jogo fosse um palco onde vale tudo, desde que tenha ritmo, estilo e munições quanto baste. Mais do que isso, há uma vontade clara de subverter convenções – e não apenas as narrativas.
MOUSE: P.I. For Hire
Fumi Games – Polónia
2025 – PC
MOUSE: P.I. For Hire não é apenas um jogo de tiros, é um disparate noir onde o jazz, a pólvora e a animação ao estilo rubber hose colidem com a elegância de um filme dos anos trinta que decidiu comer espinafres e pegar numa metralhadora. Jack Pepper, um detetive com nome de tempero e alma de um herói de guerra, mergulha num mundo onde cada beco escuro parece ter saído de uma película antiga, mas onde os inimigos rebentam como se estivessem num episódio animado contemporâneo. O jogo, com a sua estética monocromática desenhada à mão, recria uma cidade onde a corrupção e o charme vintage andam de mãos dadas.
Há algo de deliciosamente ridículo e irresistível em ver uma cauda atada a um gancho para escalar edifícios enquanto se usa uma lata de espinafres como reforço muscular – óbvia inspiração no antiguinho Popeye. É um FPS que não tem medo de ser bizarro, nem de ser lindo, nem de fazer rir enquanto enchemos os nossos inimigos com chumbo quente. O humor está entranhado na mecânica, nos vilões cartoonescos, nos diálogos e nos cenários onde se joga mais do que se explora. MOUSE: P.I. For Hire parece lembrar-nos que os videojogos podem – e talvez devam – ser este tipo de loucura: um mundo onde tudo é um exagero estilizado e, ainda assim, tudo faz sentido. Como o melhor jazz, é caótico, mas com alma.
HELLBREAK
Double Barrel Games
2025 – PC
Em HELLBREAK, não somos heróis. Somos condenados – almas guerreiras arrancadas das trincheiras da Primeira e Segunda Guerras Mundiais e lançadas para o abismo de uma condenação eterna. Neste FPS indie, que não tem medo de misturar mitologia de folclore relativo ao inferno com armamento histórico, lutamos não por glória, mas pela nossa redenção. Cada partida é uma tentativa desesperada de reconquista da alma, uma dança sangrenta diante de uma arena demoníaca onde as balas têm o som de salmos profanos e as magias sussurram blasfémias em cada explosão de fogo ou gelo.
Há algo de deliciosamente perverso em ver uma MG42 encantada com fogo vindo das profundezas do inferno. HELLBREAK não esconde a sua ambição: armas de várias eras, feitiços poderosos, bênçãos infernais, maldições táticas e bosses com mais personalidade do que muitos shooters AAA. É um roguelite que se leva a sério – mas com a irreverência de quem sabe que o inferno, no fundo, é só mais um campo de batalha com uma excelente banda sonora a acompanhar.
PSYCHOFINGER
Martingor – Ucrânia
Data de lançamento não definida – PC
No meio de tanto jogo que se leva demasiado a sério, PSYCHOFINGER chega como um dedo – literalmente – espetado no olho da monotonia. Martingor, o estúdio responsável por este FPS roguelike, quer que disparemos balas metafísicas sem dó nem piedade. Somos um agente novato da DMI – Departamento de Investigações Metafísicas – enviados para uma igreja antiga onde o misticismo se cruza com o caos, e onde a sobrevivência depende tanto da pontaria como da capacidade de fazer upgrade aos nossos próprios dedos. Sim, os nossos dedos são armas. E sim, isso é brilhante, mesmo que seja pueril.
Mas por detrás do humor visual e da estética de banda desenhada colorida, PSYCHOFINGER esconde um ritmo viciante e uma estrutura que nos atira de volta ao início sempre que falhamos – porque morrer faz parte do processo. Cada nova sessão de jogo é uma hipótese de descobrir novos poderes ou de enfrentar bosses que parecem saídos de um livro perdido de Alan Moore. É este equilíbrio entre o ridículo e o refinado que torna PSYCHOFINGER tão promissor. Num mundo onde quase todos os jogos querem ser sérios, Martingor teve a ousadia de apontar o dedo… e disparar.













