É possível que já tenham passado cinco meses desde que o Querido Líder me deu Horizon Forbidden West e durante todo esse tempo fui arranjando desculpas para não o começar, quando eu sempre soube que o meu único problema com o jogo era ele ser para consola e eu não gostar de jogar na consola. Foi uma parvoíce. Não sou o maior fã da franquia, nem gostei especialmente de Horizon Zero Dawn, mas esta sequela é melhor em todos os aspectos. 

Até posso começar pelos pontos que menos gostei no jogo anterior e comparar com o actual, focando-me no que melhorou porque, de facto, tudo melhorou. 

Em Horizon Zero Dawn fiquei muito desapontado com o facto de terem acertado na mouche com a história, mas acabaram por se perder ao se focarem na sua vertente mais desinteressante, as lutas tribais, que para além de serem pouquíssimo criativas, estavam a anos luz do processo de descoberta do que tinha acontecido com “Os Antigos”, isso sim muito interessante. O que levou àquele mundo pós-pós-apocalíptico? Uma mina de ouro de possibilidades. Considerando que O trabalho feito anteriormente já havia explicado imenso, não seria fácil manter a chama da curiosidade com Horizon Forbidden West, mas a Guerrilla conseguiu, especialmente porque o foco tribal foi relegado mais para as missões secundárias, deixando a história principal mais direcionado para o passado. 

Claro que continuam a existir problemas. As novas tribos não acrescentaram grande coisa ao mundo, mas conhecê-las foi interessante. Dar espaço para que as suas histórias florissem nas missões acessórias permitiu-me conhecer o que queria, e quis conhecer muitas coisas. Obviamente que há muita missão de “chega-me isso”, onde só vamos buscar coisas, mas também há muitíssimo que vale a pena saber e, enquanto o mundo é fresco, fiz todas as missões acessórias com gosto. Isso permitiu-me conhecer e tornar-me conhecido, tal como me colocou a maior parte do jogo bem acima do nível pretendido para as missões. Tal como quando estamos com pressa para acabar algo, também aqui acabamos por nos agastar com tanta missão e ponto de interesse. A mim aconteceu-me isso talvez a dois terços do jogo, tanto que já nem tentei descobrir nada da última tribo que apareceu, apenas queria acabá-lo. A própria Aloy parecia ter desistido de jogar, porque lá mais para o fim começou a ter muitas expressões faciais engraçadíssimas durante as conversas. Se tenho o mapa quase todo explorado até meio, a partir daí nota-se logo o que comecei a saltar, e no fim praticamente segui religiosamente somente o caminho necessário para concluir a história. 

O aumento da complexidade do que havia para contar fez com que as justificações se tornassem menos verossímeis, e mesmo os nossos inimigos são muito menos interessantes, mas mesmo assim a história não é má. Ok, tenho de admitir que o final foi decepcionante, mas pelo menos já sabemos o que aí vem. 

Outra das minhas embirrâncias com o jogo é a linearidade das personagens, algo que aqui se manteve. Certo que tentaram dar alguma nuance a Aloy, mas no fundo há pouco que a diferencie do típico herói bonzinho como Deacon St. John em Days Gone, e toda a mudança que tentaram introduzir pareceu forçada. Muitas vezes penso que mais vale cair em graça que ser engraçado, já que raramente vi elogiado o trabalho feito com a evolução da personagem Senua em Hellblade, algo que considero genial, muito melhor do que foi feito aqui. Como agravante em Horizon Forbidden West, Sylens, o personagem interpretado por Lance Reddick, assumiu um papel claramente marginal, talvez dada a sua situação de saúde na altura, e isso roubou ao jogo o boneco mais interessante que nele existia. 

Por fim continuo a não gostar de andar a lutar contra as mesmas máquinas a cada cinco minutos. Passamos para um lado e lutamos com elas, voltamos para trás e já fizeram spawn novamente e temos que voltar a lutar. Ao início dá algum jeito para irmos subindo de nível, mas para o final já não precisamos disso e apenas se torna aborrecido. Mesmo gostando do mundo acabei por evitar ao máximo andar nele e usei muito mais a mecânica de fast travel que no jogo anterior, é que nem se compara. A maneira como organizaram as missões permitiu minorar um pouco esse problema, pois agora pareceu-me existir muito menos track back. Posso estar enganado por já ter jogado o anterior há três anos, mas é a imagem que tenho. 

Este mundo aberto também levou a que acontecesse pontualmente saber algumas coisas antes do momento certo, e mesmo sabendo essa informação depois não a podia usar. É um problema menor, ou pouco relevante, mas reparei nisso. 

Bem, isto arruma a maioria do queixume. Horizon Forbidden West é lindo! Admito que esperava um pouco mais, mas o mundo é enorme e tirando uns quantos glitches em que as máquinas e o cenário só faziam spawn quando estava mesmo em cima deles, tudo funcionou bem, e os momentos de cinemática eram impressionantes! Usualmente estes mundos enormes ou são vazios, ou cheios de elementos desinteressantes ou não oferecem qualquer incentivo à exploração. O equilíbrio como este foi construído é surpreendente, pois parece ter bebido o bom de Assassins Creed misturando-o com o melhor de Zelda Breath of the Wild. Mesmo admitindo que é uma versão mais ligeira da mistura de ambos, a sua combinação é do mais equilibrado que há, já que temos o mapa com imensos pontos de interesse reais e, ao mesmo tempo, temos aquela magia de olharmos para uma referência visual que apetece explorar, e que a maioria das vezes oferece alguma recompensa pela exploração. 

Invariavelmente se nos dedicarmos à exploração vamos deparar-nos com puzzles. Estes são bastante equilibrados com o nível de desafio. Comparo-os muito à última trilogia de Tomb Raider em complexidade, embora sem tanta variabilidade de desafios, algo que associo ao facto do jogo não ser tão especificamente focado nesse aspecto, é um jogo muito mais versátil e completo, pelo que não podemos esperar que seja o melhor em tudo. Já agora, insuportáveis as dicas que Aloy ou os companheiros nos dão a cada segundo. É que, ou percebíamos a solução nos primeiros cinco segundos, ou eles no la diziam. Irra! Também tenho de admitir que tudo o que envolvia escalar, e essa é parte importante do jogo, revelava o pior momento dos controlos. Enquanto escala Aloy não gosta de ir para onde queremos que ela vá, parece que a sua personalidade se revela nesses momentos e teima em ir para todo o lado menos para onde a mandamos. Fora isso os controlos são impecáveis. 

Há imensas opções para lutar. Podemos fazer tanta coisa diferente e interessante que até nos perdemos. Eu, e sei que o defeito é mau, não sou esse tipo de jogador, tenho pouca paciência e não preparo o meio envolvente antes de cada luta, o que mostra o quão bom o jogo é, já que trocando tempo por vida ou recursos também foi possível fazê-lo, apenas sofri mais. 

Algo que acontecia em Horizon Zero Dawn era a árvore de habilidades permitir algumas combinações bastante mais poderosas do que aquilo que seria pretendido, permitindo a partir de certo ponto fazer cheese a qualquer stuação. Em Horizon Forbidden West essa situação foi corrigida, o que tornou o jogo mais justo, mas de certa forma ficou sempre a impressão da progressão não oferecer nada de muito visível a cada nova melhoria. Isto é o que está certo, uma progressão lenta e linear, mas por vezes o errado é bastante divertido. 

De completamente novo as sequencias subaquáticas. São excelentes! Tanto que tive pena de já aparecerem tão tarde, numa fase em que estava com menos paciência, já que há tanto para fazer com essa nova habilidade que seguramente ficou muito de importante para descobrir, e eu sem vontade de o descobrir. 

Demorei muito mais tempo a acabar Horizon Forbidden West que Zero Dawn. Isso aconteceu porque o jogo está mais bem feito, gostei mais dele. É inquestionavelmente melhor. Neste mundo em que os jogos como serviço são olhados como o Santo Gral dos videojogos, temo que jogos como este comecem a desaparecer dado a relação entre custo e benefício de os fazerem, ainda para mais depois da Xbox ter deixado a Sony sem concorrência no ramo, e sem o incentivo da guerra das consolas para atraírem mais clientes. Tendo a consola default para o jogador, será que vamos passar a ter dois jogos mais pequenos em vez de um jogo maior? Esse cenário nem me desagrada, mas se o maior fosse tão bom como este, sempre daria para limpar o palato de tempos a tempos.