
vam padel – 2
Vampire Survivors e padel. Duas coisas completamente diferentes uma da outra, mas que na minha vida fizeram o mesmo percurso. Passo a explicar. Sempre gostei de videojogos e desporto, mas olhava para Vampire Survivors e padel com desdém e sem vontade de sequer experimentar. Gozei ao quadrado e ao cubo, fazendo pouco de quem ia jogar aquela imitação de ténis mas para os que não têm jeito para responder do fundo do court e também brincava com os fãs de Vampire Survivors, dizendo que aquilo era uma amálgama de pixels repetindo a mesma coisa aborrecida uma e outra vez. Porém, quis o destino que eu tivesse de comer (melhor, devorar) as minhas palavras com todos os temperos possíveis, um engolir de palavras que sucedeu-se ao mesmo tempo.
O padel surgiu por via de um familiar, que lá me convenceu a ir jogar. Bola no vidro, tentativa de cortar junto à rede, resposta para ali e para lá e… rapidamente fiquei viciado. Como a primeira vez que comi umas gomas, só queria mais e mais, fazendo questão de ir jogar todos os dias à tarde. E, logo de seguida, por virtude de ter visto o gangue do PlayStation Access a jogar Vampire Survivors, dei uma hipótese a este mundo criado por Luca “poncle” Galante e… também fiquei completamente colado ao ecrã.

Quando arranquei pela primeira vez, só pensava ‘Que coisa tão idiota. A minha personagem só tem um ataque, e é tipo tudo igual.’ até que comecei a perceber que o jogo não era tão fácil como parecia, e que não era unidimensional. A curiosidade começou a despertar dentro de mim, especialmente porque chegava à marca de 15 minutos e entrava num desespero imenso por não sobreviver aos bosses que surgiam no meu ecrã, perseguindo-me pelo mapa fora, seguindo as mesmas pisadas dos milhares de outros inimigos que queriam também um pedaço da minha personagem. Aquela aceleração cardíaca insana, a cabeça a pulsar com o dinâmico arco-íris de cores que fluía de todas as direções e o som dos meus dedos a mexer no comando como se estivesse numa dança interminável. Sim, eu estava definitivamente apanhado pela febre Vampire Survivors.
Como é que podia ter desdenhado este jogo por tanto tempo? Como é que uma coisa em 2D, com uns mapas que pareciam não ter fim ou princípio, e umas personagens sem grande história, me tinha facilmente consumido 10 horas da minha atenção, esforço, suor e lágrimas num curto espaço de poucos dias? A verdade é que rapidamente passei de querer só chegar ao fim dos 30 minutos a querer tentar partir com a matrix de Vampire Survivors, transformando aquela minha personagem num mega indestrutível e inquebrável Panzer com umas perninhas humanas mas carregado de magia, pistolas, chicotes e todo o tipo de armas de guerra que tivessem à minha disposição. Ainda me recordo o quão chocado fiquei quando a ‘Morte’ surgiu em todo o seu esplendor máximo a perseguir o meu protagonista após sobreviver 30 minutos; igualmente fiquei chocado quando vi alguém a bater uma bola contra um vidro, fazendo ricochete noutro e a cair delicadamente junto à rede sem que eu, ou o meu parceiro, tivéssemos capacidade de salvar o ponto. E apesar do choque ter sido tingido por uma série de emoções, a verdade é que me só fez ficar mais enfeitiçado por ambos os mundos.

Mas o que é que o padel e Vampire Survivors têm a ver um com o outro? Tudo. Ao deixar cair aquele desdém e aqueles julgamentos sem pés nem cabeça, permiti que o meu léxico humano aumentasse exponencialmente, adicionando dois novos universos ao meu dia-a-dia e que me permitiram descobrir outros sabores sem ter necessariamente inventado a roda. Simples, divertidos, dinâmicos e ricos em toda a sua forma e esplendor. Acabei por dedicar mais de 80 horas ao Vampire Survivors, tendo conseguido obter o platina, enquanto no padel ainda sou alvo de ensaboadelas de meia-noite, mas já com capacidade para meter a bola a fazer ricochete e a cair (quase) no sítio que eu queria. Como diz aquela expressão portuguesa ‘nunca digam desta água não beberei’, sobretudo quando se tratam de coisas boas e com capacidade para transformar o vosso mundo, ou pelo menos expandi-lo para novas regiões.

Para o mal dos meus pecados, o DLC do Castlevania fez-me voltar ao universo de Vampire Survivors, sendo de longe dos melhores DLCs dos últimos dez anos, oferecendo praticamente um jogo de Castlevania novo em que podemos controlar todo o tipo de personagens, desde Alucard, Sypha e Trevor Belmont a Fleaman ou Drácula. Maravilhoso Mundo este carregado de coisas que nos podem fazer engolir as nossas próprias palavras e mudar ideias pré-feitas.













