Tenho um especial orgulho de ver o caminho trilhado pelos magníficos jogos indie que algures na história do Indie X fizeram parte do seu selecto rol de finalistas. Um deles chegou-me recentemente às mãos (pela segunda vez, se pensarmos bem), mais desenvolvido e avançado do que quando o conheci, e senti que tinha de escrever sobre ele, e apresentá-lo, para quem possa não o ter conhecido.

Hidalgo, desenvolvido pelo estúdio Infinite Thread Games com data de lançamento ainda não revelada, é uma carta de amor interactiva à literatura, em especial a um dos clássicos da nossa História: a magnum opus de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha. Um jogo desenvolvido por um pequeno estúdio indie europeu que se propõe a fazer uma reinterpretação íntima e metafórica da lendária figura do cavaleiro errante e do seu fiel companheiro, Sancho. 

Em vez de adaptar directamente a narrativa do romance, Hidalgo mergulha-nos numa outra forma do espírito quixotesco, levando-nos a habitar a mente de um homem que recusa a realidade em nome da fantasia, da justiça e do idealismo. E fá-lo como que construindo um teatro de marionetas interactivo, um mundo em miniatura criado à mão que teremos de percorrer em nome do amor de Dulcineia. Mas não só.

As influências dos mundos criados em papel e cartão de alguns spin offs da Nintendo assumem aqui um caminho perfeitamente identificável, e têm o enquadramento nas ilustrações que antecedem o próprio jogo. Hidalgo é um momento de partilha entre uma mãe e os seus filhos, que decidem viver a história do clássico literário, mas de forma diferente, construindo um gigantesco cenário onde toda a acção decorre, com os fios das marionetas bem presentes a lembrarem-nos de forma deliciosa que estamos a jogar uma espécie de peça de teatro em miniatura.

A cada “capítulo”, ou segmento do gigantesco cenário em cima de uma enorme mesa, encontramos episódios que reinterpretam momentos icónicos do romance — a batalha contra os moinhos de vento, o confronto com o espelho, a relação com Sancho Pança — mas sempre através de uma lente mais doce e carinhosa do que literal. Sendo que a jogabilidade – para além de perfeitamente familiar – alterna entre a exploração deste mundo vibrante e construído à mão e puzzles ambientais simples mas que adornam os elementos cozy deste jogo de aventura.

Como podem ver pelas imagens que ilustram este artigo (se é que não conhecem o jogo já) Hidalgo cativa-nos na sua apresentação visual e pela magnífica direcção de arte. Os cenários parecem pequenos dioramas com pequenas imperfeições que os tornam ainda mais genuínos e palpáveis, com alguns elementos como bisnagas de tinta a trazerem esse toque de DIY familiar a um jogo que nos aquece o coração desde o primeiro segundo.

Com uma demo disponível no Steam, é impossível não vos aconselhar a experimentarem na primeira pessoa e a seguirem-no no Steam, recebendo actualizações de quando poderemos ver este magnífico e doce jogo de puzzle 3D a ver a luz do dia, e moinho algum manter-nos-á longe de o jogar.