
A sensibilidade criativa que o estúdio polaco 11 bit studios revela a cada novo jogo é sempre arrepiante para mim. Mais do que criar brilhantes jogos onde a Humanidade, a sua sobrevivência e a sua humanidade (passando o pleonasmo) são postos à prova, o que os 11 bit studios fazem também é confrontar-nos com situações e decisões duras, que se impregnam na nossa alma muito para além do nosso tempo em jogo, e que em muitos casos ficam connosco para sempre.
The Alters é o seu novo título, e diverge grandemente das abordagens de sobrevivência a todo o custo de This War of Mine e Frostpunk para um monólogo sobre a condição humana, numa obra de ficção científica intimista, melancólica e profundamente emocional. É também uma reflexão interactiva sobre a noção de identidade, de como as nossas escolhas e a consciência das versões alternativas de quem poderíamos ter sido. Um conceito de linhas temporais alternativas e ramificadas que a maioria das pessoas reconheceria do filme Sliding Doors (ainda que este seja um pastiche mediano de Blind Chance, de Kieslowski).

Mas mais do que um jogo de sobrevivência, The Alters é uma narrativa existencial sob um manto de um thriller sci-fi, onde o nosso confronto com os eus alternativos são a premissa e base narrativa e mecânica, quando “criamos” múltiplas versões de um só homem para nos acompanhar na solidão do espaço.
É que no centro da história está Jan Dolski, um operário espacial preso num planeta hostil após um acidente catastrófico: isolado e com recursos limitados, Jan (e nós, que o controlamos) recorre a uma tecnologia experimental para criar “Alters” – versões alternativas de si mesmo, baseadas em escolhas de vida que nunca fez. É aí que vamos encontrar um Jan que seguiu engenharia, outro que estudou medicina, e outro ainda que se tornou artista, e que cada Alter tem competências únicas, mas também personalidades, traumas e conflitos próprios.

Sem surpresas já que provém da equipa que criou o momento mais duro que já joguei na minha vida, a escrita de The Alters é provavelmente o ponto mais forte do jogo. As interacções entre Jan e os seus Alters são densas, complexas, emocionais e muitas vezes desconfortáveis, desafiando-nos a lidar com questões morais e psicológicas e questionarmo-nos de que até que ponto somos responsáveis pelas versões alternativas de nós mesmos? O que define a nossa identidade? E como lidamos com o arrependimento, e com a mágoa do que não fizemos, ou do que fizemos e queríamos não ter feito? E como o fazemos se existem versões nossas, reais, físicas e palpáveis que nos lembram a todo o momento desses mesmos soluços das nossas vidas, como espelhos retorcidos de nós mesmos?
À primeira vista, The Alters parece um jogo de gestão em tempo real, com uma base móvel (o chamado Wheelbase) que vemos em plano de perfil e que gerimos como tantos outros management games, sendo que neste caso possuímos um protagonista que vai deambulando pelas divisões. A nossa sobrevivência depende da correcta alocação de tarefas, desde a produção de oxigénio, ao fabrico de ferramentas e à recolha de recursos, tudo em tempo limitado, com uma ameaça ambiental constante, sejam elas tempestades solares, o aumento de radiação, ou outras ameaças naturais cósmicas que facilmente destruiriam o vulnerável corpo humano de Jan.

Na forma como nos deslocamos no exterior inóspito à procura de recursos e de criar sistemas de recolha de materiais para a nossa base, passando pela interactividade com as muitas divisões que vamos “desbloqueando” nela, há muito de “tradicional” no jogo. Não fosse o verdadeiro cerne da jogabilidade vir ao de cima, e esse está na dinâmica entre os titulares Alters. É que estes não são apenas uma espécie de clones/peões funcionais: cada um deles tem motivações próprias, inseguranças, conflitos com o Jan principal (se é o que o podemos definir como tal?) ou entre si, e gerir estas relações torna-se tão essencial como reparar o reactor ou construir uma nova secção da base. Ao bom estilo do estúdio que o criou, algumas das nossas decisões podem levar a deserções, sabotagens ou colapsos emocionais, misturando de forma brilhante sistemas de simulação, narrativa ramificada e exploração.
Há uma sobriedade inóspita na direcção de arte de The Alters, tornando-o frio mas impressionante. A arquitectura industrial e depurada da Wheelbase contrasta com os ambientes alienígenas áridos, desolados e imensos, que contribuem para a sensação de claustrofobia e isolamento, com detalhes que reforçam a decadência e o desgaste, seja ele planetário, mas também físico e psicológico.

Sinto que The Alters funciona melhor como conceito e como linha narrativa, sendo que o loop mecânico, apesar de extremamente coeso com o tema do jogo, não me apela pessoalmente a dedicar nem uma fracção de horas que os jogos anteriores dos 11 bit studios. Mas The Alters é uma obra corajosa que arrisca ao fundir géneros, desde survival, gestão, e sobretudo drama psicológico, e sai vitorioso nesse risco. Embora possa, por vezes, tornar-se denso ou até cansativo na sua microgestão emocional, é essa mesma complexidade e vulnerabilidade que lhe dá força. É um jogo que não oferece respostas fáceis, mas que convida à introspecção, à empatia e à difícil tarefade nos confrontarmos com quem somos, mas a fazermos o exercício ainda mais difícil de materializarmos e dialogarmos com quem poderíamos ter sido.













