Adaptar obras e universos emblemáticos de e para qualquer media é uma tarefa na maioria das vezes inglória. Entre os seus autores lidarem com a sua própria relação pessoal com o material original, o receio de falhar com ele, a pressão imposta pelo público e que invariavelmente irá ter vozes negativas e agressivas, passando, em alguns casos, pelo diálogo com os autores ou os seus representantes. 

Trazer uma das séries mais emblemáticas e influentes do século passado para os videojogos tem um risco adicional, especialmente quando noutros media essa transição tem sido extremamente bem conseguida. As recentes adaptações cinematográficas de Dune têm sido sobejamente reconhecidas, mas diria que há outra área onde a compreensão e tradução do universo criado por Frank Herbert não esteve quase nada aquém da perfeição: os jogos de tabuleiro. Dune: Imperium não só se tornou um dos meus jogos favoritos de sempre, como o deve ter feito para outros tantos milhares (milhões?) de jogadores um pouco por todo o mundo, por representar uma ponte perfeita entre o universo base e a sua transição mecânica. 

A já há muito anunciada adaptação a survival MMO da Funcom, deixava-me, por outro lado, com sérias dúvidas. Mas será que todas elas se dissiparam, ou será que se tornaram ainda mais evidentes?

Dune: Awakening é um que mistura elementos de jogos como Rust e Conan Exiles (também da Funcom), e que tenta fundir mecânicas de sobrevivência, construção de bases e combate num ecossistema massivo e persistente, partilhado em instâncias de 40 a 50 jogadores em sub-servidores, diria que Dune: Awakening me criou algumas preocupações conceptuais antes de o jogar.

Desde o primeiro momento em que nos despenhamos no seu território desértico que Arrakis se impõe como protagonista. O ambiente do jogo é brutal – na total acepção da palavra –  vasto e profundamente atmosférico, e onde as tempestades de areia e as sandworm são mais do que efeitos visuais: são ameaças dinâmicas que se misturam profundamente com a jogabilidade. À superfície, a fidelidade ao espírito de Dune está presente em cada grão de areia, em destaque para as estruturas dos aparentemente desaparecidos Fremen.

A direcção artística é ambiciosa pela sua escala e fiel ao cânone literário, mas cede na inspiração visual já que recorre, sem dúvida, às adaptações cinematográficas recentes (particularmente as de Denis Villeneuve). O resultado é um mundo esteticamente coeso e, sobretudo, intimidante, o que é um elemento obrigatório para a carga hostil de um jogo de sobrevivência.

Em termos narrativos, sinto que a Funcom foi inteligente em desenvolver este Awakening num mundo paralelo ao principal, uma dimensão onde Paul Atreides não nasceu, e onde os Fremen estão misteriosamente desaparecidos. Somos incumbidos pelas Bene Gesserit a ir até Arrakis procurá-los como emissários especiais, mas despenhamo-nos, abrindo as portas para o enredo que serve de fio condutor para todo o jogo.

À semelhança de outros títulos de sobrevivência, começamos despidos de recursos, obrigados a recolher água, a evitar os vermes da areia e a explorar ruínas antigas e pequenos acampamentos de bandidos para sobreviver. Não tendo medidores de doença como outros similares, a singularidade de Awakening está na necessidade de nos mantermos hidratados, de encontrarmos uma fonte eficaz para mantermos a sede saciada, tudo isto num ambiente inóspito, hostil e desértico.

Antes de mergulhar nos defeitos de Dune: Awakening, tenho de reconhecer o excelente trabalho na construção do tutorial, como ele se mescla na perfeição na nossa habituação com o mundo e como torna o contacto progressivo com as mecânicas uma tarefa perfeitamente exímia.

Mas o problema é que rapidamente temos contacto com o combate, e esse, permitam-me que vos diga, é um dos pontos mais fracos de um jogo tão ambicioso quanto este. O combate combina armas de fogo, luta corpo-a-corpo e poderes mentais (como os da Bene Gesserit), mas a utilização de escudos energéticos por parte dos inimigos torna a utilização de armas de projécteis completamente alienável. Por outro lado, a simplicidade em demasia do combate corpo a corpo – que envolve sempre a mesma sequência de golpes de faca – faz-nos perceber que as lutas, apesar de omnipresentes, são um patinho feio de um mundo tão vasto.

Não querendo ceder à ideia de que todos os jogos dentro de um mesmo género são idênticos – que não o são – é fácil de perceber que apesar do combate bastante fraco, a forma como foram incluídos elementos específicos da lógica de Dune – como o medidor e a barra de insulação, a utilização da Voz, e sobretudo a exsanguinação como fonte de água – que a Funcom não só compreendeu o universo de Herbert, como soube trazer uma abordagem única aos survival games que não se fica apenas pelo setting.

Dune: Awakening é um projecto incrivelmente ambicioso, que dado o seu mediatismo tem o potencial de redefinir o género de jogos de sobrevivência em mundo aberto, mas que necessita, a meu ver, de reaprender com outros bastiões do género o caminho para torn ar o combate mais interessante e mais coeso do que é agora.

Ainda é cedo para um veredicto definitivo, especialmente para um jogo sempre online que leva largas dezenas de horas a completar a storyline principal, mas é indiscutível que a promessa que referi está cá bem presente, sob o calor tórrido e fatal de Canopus. A pé ou a pilotar o nosso ornitóptero pelas areias hostis do deserto de Arrakis, só o tempo dirá se Awakening será uma verdadeira revolução ou apenas mais uma tempestade de areia que se dissipa no vento.