Estamos no início de Julho, e com a falta de tempo que tenho tido ainda estou a tentar escrever os artigos sobre os jogos que joguei em Maio, o que à partida vos pode dar uma ideia do desfasamento temporal que possuo neste momento entre o que joguei, o que ainda não cobri, e o que ainda tenho para jogar. Mas deixo-vos em Julho uma consideração que era igualmente verdadeira há 2 meses: é muito difícil que Revenge of the Savage Planet não fique na minha lista de melhores jogos do ano. Este é um jogo que não se conhece bem e ao seu tom, como trouxe de forma magistral a lógica metroidvania para a terceira pessoa, como diria que ainda não tinha visto, nem no seu antecessor.

Revenge of the Savage Planet é assim uma aventura com um excelente equilíbrio entre acção e exploração na terceira pessoa que tem uma abordagem enganadoramente leve, e ao mesmo tempo irreverente no tom e visualmente exuberante pela sua gama cromática. 

Foi desenvolvido pela Raccoon Logic, o estúdio herdeiro da equipa responsável por Journey to the Savage Planet, e este novo capítulo troca a perspectiva na primeira pessoa por uma experiência na terceira, teoricamente mais próxima dos moldes clássicos dos jogos metroidvania.

Felizmente que o enredo está repleto do espírito satírico do original, e convida-nos a explorar uma série de biomas alienígenas repletos de cores vivas, formas bizarras e fauna e flora caricata, tudo com um estilo artístico a meio caminho entre o psicadélico e o desenho animado. As críticas ao capitalismo selvagem e as distopias assentes no poder descontrolado das corporações está aqui, onde se demonstra que o lucro, e a chamada bottom line pelos anglófonos é muito mais importante do que a vida dos seus trabalhadores, e nós, pobres colonos sem cara, somos apenas um dígito numa folha de HR de uma mega corporação galáctica.

Cumprindo a tónica metroidvania, cedo percebemos que perante a abertura dos cenários a jogabilidade se baseia na exploração de ambientes vastos com zonas inicialmente inacessíveis, mas que são “desbloqueadas” à medida que adquirimos novos equipamentos ou poderes. Revenge of the Savage Planet introduz-nos ferramentas que vamos utilizar constantemente, como um gancho para atravessar desfiladeiros, um rail-grinder para deslizar em estruturas metálicas e um jetpack para alcançar zonas elevadas. 

Uma das novidades mais criativas é a introdução de três tipos distintos de “goo“, substâncias alienígenas que podem ser plantadas no ambiente para gerar reacções químicas, desde criar plataformas trampolim, incendiar zonas ou electrificar superfícies, numa dinâmica que pode ser trazida para o combate (em especial as boss fights que as utilizam), mas também potencia a resolução de pequenos puzzles ambientais.

Não fugindo a um dos elementos que o notabilizou, o humor é indubitavelmente um elemento central do jogo. Desde a publicidade fictícia absurda, passando pelos diálogos repletos de trocadilhos e nonsense, a experiência é marcada por um tom cómico que constantemente dá valentes tabefe ao capitalismo e ao corporativismo selvagens.

Esta abordagem descontraída, alienígena e colorida são representadas visualmente de forma deslumbrante. O Unreal Engine 5 permite efeitos de iluminação e texturas detalhadas, que elevam o patamar de qualidade técnica e artística deste Revenge of the Savage Planet.

Apesar de divertido, o combate é a componente menos entusiasmante do jogo, com a combinação de armas de fogo, goo e habilidades especiais a trazerem-nos alguma variedade, mas o controlo pode parecer algo inconstante, e os encontros com os inimigos acabam por se tornar repetitivos com o tempo. Mas esta repetitividade acaba por ser um elemento aceitável num jogo no qual a exploração é sem sombra de dúvidas o foco central. E esta é, sem dúvida alguma, cativante, especialmente quando jogada em modo cooperativo. 

Esta caricata vertente multijogador aplicada a um metroidvania permite-nos uma progressão partilhada em tempo real e suporta tanto online como ecrã dividido, com direito a crossplay entre plataformas, e pode ser uma forma de termos companhia para darmos a volta à campanha principal que nos oferece entre 12 a 15 horas de jogo, com potencial para o dobro se quisermos completar tudo, que foi o que andei a fazer. 

Existem quatro planetas principais para explorar, cada um com a sua identidade visual, bioma e desafios específicos, para além de muitos conteúdos secretos e criaturas capturáveis que podemos trazer de volta para a base para desbloquear ainda mais upgrades.

Revenge of the Savage Planet não é só uma carta de amor ao jogo anterior e ao género, mas para mim uma masterclass de como trazer os metroidvania para ambiente tridimensional de forma irrepreensível. É um metroidvania obrigatório para quem valoriza a exploração criativa de espaços abertos, recheado de humor absurdo, mas é, sem dúvida, um dos jogos indie mais vibrantes, memoráveis e peculiares de 2025.