
Tenho cada vez menos paciência e apreço pelo convencional, e sinto que as apostas seguras e rotineiras me aborrecem rapidamente, e a consciência disso tem-me levado a procurar contactos diferentes, por vezes até absurdos, com obras que nunca seriam financiadas ou produzidos pelo mainstream.
Date Everything é uma dessas experiências mais ousadas que encontrei, e uma das mais criativamente livres dos últimos anos, nascida da mente do actor e criador Ray Chase e desenvolvida pelo seu estúdio Sassy Chap Games. Date Everything foi recentemente publicado pela Team17 e propõe-se a uma premissa tão ridícula quanto profunda: e se pudéssemos namorar literalmente tudo? E quando digo tudo refiro-me a objectos, conceitos, deuses, emoções: nada está fora de alcance, nem mesmo a própria ideia de romance.

Como podem imaginar por este jogo pertencer ao catálogo da Team17, não se trata, de todo, de um jogo que resvale para componentes eróticos, portanto a ideia de namorar com tudo não se refere a actos íntimos, mas sim, a uma espécie de desconstrução do romance, num date simulator que vai tão longe quanto a imaginação de Ray Chase lhe permitiu.
Date Everything parece, aliás, à primeira vista, uma piada demasiado longa sobre os clichés dos simuladores de encontros. Mas a realidade é que rapidamente se revela como algo muito mais complexo: uma exploração irreverente, mas genuína, da natureza do amor, da identidade e da empatia. Para isso contribui a estrutura narrativa fragmentada, quase caótica, reflectindo a variedade de “alvos românticos” e os caminhos imprevisíveis que cada relação pode tomar.

Ray Chase — conhecido sobretudo como voice actor em grandes produções de videojogos e anime — surpreende aqui como criador total, dando ao projecto uma voz singular. A escrita do jogo é simultaneamente hilariante e sensível, repleta de diálogos que oscilam entre o existencialismo e o absurdo puro. Cada “date” – seja ele com uma porta insegura, com a escuridão ou com o próprio ar — tem um arco narrativo próprio, muitas vezes tocante, e sempre inesperado. O humor, embora constante, nunca desvaloriza o afecto, pelo contrário: o enredo leva a sério até os sentimentos mais improváveis.
A jogabilidade é deliberadamente simples, próxima de uma visual novel onde podemos movimentar-nos tridimensionalmente, mas a multiplicidade de escolhas e de caminhos possíveis garante uma grande rejogabilidade. Date Everything quebra com um sistema clássico de pontuação ou finais “bons” e “maus”, celebrando a diversidade de experiências e afectos: há finais cómicos, românticos, trágicos e até filosóficos, mas curiosamente todos são tratados com a mesma seriedade poética.

E qual é a justificação narrativa para esta nossa habilidade? Nos primeiros minutos de jogo recebemos um modelo muito específico de Aviators, os Dateviator, que nos permitem ter acesso a um interface de “Directly Acknowledge a Thing’s Existence”, ou D.A.T.E. E com este óculos especiais viajamos por esta sátira aos simuladores de namoro, mas que é ao mesmo tempo uma reinvenção radical do género. Mais do que namorar personagens, namoramos ideias, sensações, num jogo que nos pergunta, sem pudor: e se o amor não tivesse limites conceptuais?
E no meio da bizarria, o que parece um disparate transforma-se numa meditação poderosa sobre o afecto e a compreensão do amor.













