Os jogos escolhidos para esta semana partilham uma ambição rara no género point-and-click: não querem apenas entreter com puzzles, querem que cada desafio conte uma história e revele camadas emocionais e sociais das personagens e dos mundos que habitam. Nestes jogos, resolver um mistério é também mergulhar em temas como desigualdade, identidade e cumplicidade, num equilíbrio delicado entre narrativa e mecânica, onde os detalhes — seja o fumo das fábricas de Leipzig ou os fantasmas de Madrid — não são apenas cenário, mas parte fundamental da experiência.

The Drifter

Powerhoof – Austrália

17 de Julho de 2025 – PC, Nintendo 

Se há jogos que vivem da nostalgia, The Drifter quer fugir dela como quem salta de um comboio em andamento. Da mente de Alex Barrett (responsável pelo curto e arrepiante Peridium) e da criatividade visual do estúdio Powerhoof (Crawl), este point-and-click de acção acelerada é um thriller pulp descaradamente influenciado por Stephen King, Crichton, Carpenter e aquele cinema australiano de faca e alguidar dos anos setenta. O protagonista, Mick Carter, não é o herói de moral intacta — é um tipo prático, com ar de quem já dormiu em demasiadas estações de serviço. Vê um crime, é morto, ressuscita e, no processo, parece trazer algo consigo. Uma entidade? Um trauma? Um misto dos dois?

Com pixel art granulado a estalar de movimento, dobragem profissional e uma banda sonora synth melancólica, The Drifter promete uma experiência intensa e sem tempos mortos — um thriller interactivo em que cada puzzle serve o ritmo, não o trava. A proposta dos criadores é clara: menos pixel hunting, mais tensão narrativa. O jogo empurra-nos de cena em cena com a força de um soco no estômago, entre neurocirurgiões corruptos, megacorporações e segredos à beira do delírio cósmico. A morte é apenas o início. E Mick Carter já devia saber que, neste tipo de histórias, voltar à cidade natal nunca acaba bem.

Shadows of the Afterland

Aruma Studios – Espanha 

2025 – Nintendo, PC 

Shadows of the Afterland não é apenas mais um indie a tentar pescar nostalgia com gráficos pixelizados e puzzles rebuscados; é uma aventura sobrenatural com uma ambição rara, que questiona quem somos antes mesmo de sermos alguém. Carolina, a protagonista que carrega as memórias de uma vida ainda por nascer, torna-se o fio condutor entre mundos, entre vivos e mortos, entre destino e livre-arbítrio. Numa Madrid dos anos sessenta meticulosamente recriada, o jogador não só resolve mistérios, como encarna literalmente as personagens, saltando de corpo em corpo numa dança existencial que mistura humor negro com a tensão de um thriller espiritual.

Aruma Studios, conhecidos pelo cativante Intruder in Antiquonia, mostram aqui uma maturidade narrativa surpreendente para um estúdio pequeno, graças à escrita afiada e à direção artística em pixel art encantadora de Emilio Almirón, acompanhada por uma banda sonora que arrepia. É raro ver puzzles tão bem entrelaçados com a história, onde cada enigma resolve mais do que uma porta trancada — resolve dúvidas identitárias, medos e desejos. Shadows of the Afterland não quer apenas ser jogado; quer ser interpretado. E, sejamos francos, num mar de aventuras point-and-click repetitivas, encontrar um jogo que nos faz rir e pensar ao mesmo tempo é como descobrir um fantasma simpático no armário: inesperado, desconcertante e impossível de ignorar.

Casebook 1899 – The Leipzig Murders

Homo Narrans Studio – Alemanha 

2025 – PC 

Casebook 1899 – The Leipzig Murders promete ser um sopro de ar fresco para os amantes de aventuras point-and-click clássicas, ao mesmo tempo que nos transporta para uma Leipzig a fervilhar no limiar do século XX. Gregor Müller, jornalista e investigador de dia, produtor apaixonado de noite, oferece-nos um jogo onde o detalhe histórico não é apenas cenário, mas carne e osso da experiência. Aqui, o detetive Joseph Kreiser move-se entre fumo de fábricas, vozes abafadas de operários revoltosos e o sussurrar dos salões da alta sociedade. O jogador não só observa, mas questiona, conecta pistas no caderno, e deslinda mistérios onde o erro não leva ao ecrã de “game over”, mas sim a finais alternativos que espelham o nosso próprio talento dedutivo.

Mas há mais do que puzzles e diálogos afiadas: Casebook 1899 mergulha-nos num mundo de desigualdade e tensão social, onde cada crime é também um reflexo das fraturas de uma sociedade em mudança. As vozes alemãs, profissionais e meticulosamente dirigidas, emprestam peso dramático às investigações, enquanto a opção por texto em inglês abre as portas a um público global. É este casamento entre narrativa histórica, liberdade investigativa e uma devoção artesanal ao detalhe que faz de Casebook 1899 não apenas mais um indie, mas uma carta de amor à curiosidade humana – e talvez, um lembrete de que os maiores abismos não estão no crime, mas nas pessoas que o cometem.