
Alguns jogos preferem contar histórias com calma, focando-se mais no que sentimos do que no que fazemos com o comando. Uma das escolhas desta semana leva-nos a explorar ilhas serenas ao som de músicas e símbolos, guiando um cartógrafo que aprende a ler o mundo de outra forma. Outra coloca-nos no papel de um médico solitário, que tenta ajudar quem sofre enquanto lida com um mundo hostil e cheio de sombras; onde cada diagnóstico é uma escolha difícil. E há também aquele onde seguimos um pai em plena zona de guerra, a tentar manter a filha cega a salvo, num percurso marcado por decisões duras e momentos íntimos. São experiências diferentes, ligadas pela vontade de mostrar o lado mais humano dos videojogos.
Echo of the Waves
Oneira Games – Suíça
Verão 2025 – Nintendo, PC, PlayStation, Xbox
Há jogos que nos desafiam com sistemas e combate. Echo of the Waves desafia-nos com silêncio, intuição e escuta. Nesta aventura marítima da suíça Oneira Games — um estúdio fundado por duas irmãs com o ouvido afinado para experiências sensoriais — embarcamos com Zephyr, jovem cartógrafo e músico, numa viagem entre ilhas que mais parecem sonhos desfeitos em aguarela. O mar não é só cenário, é mistério vivo. Aqui, as paisagens falam em símbolos e as melodias são chaves que abrem significado, não portas.
Construído com a leveza de um conto e a profundidade de um poema visual, Echo of the Waves quer mais do que entreter: quer tocar. Não há pressa na exploração deste mundo semi-pintado à mão; só o ritmo das ondas, o sopro da música, e a delicada sensação de que o próprio jogo está a escutar o jogador. Numa indústria saturada de barulho, esta proposta soa como uma nota sustentada no vazio: simples, bela, difícil de esquecer.
Not Involved: Vermillion
Stray Feet
Data de lançamento não definida – PC
Num mundo onde o mal já não se combate com espada, mas com bisturi e discernimento, Not Involved: Vermillion propõe uma fantasia sombria onde o protagonista é médico; e os monstros nem sempre sangram. Exilado da Academia, o Doutor vê-se obrigado a sobreviver numa terra apodrecida pela dor, pela febre e por segredos antigos. Este não é um RPG sobre matar: é sobre diagnosticar. Ouvir. Anotar sintomas num caderno onde cada linha é uma pista. No consultório ou na floresta, o jogador vive num estado constante de alerta: uma receita mal preparada pode ser tão letal quanto uma lâmina enferrujada.
Com uma escrita carregada de melancolia e uma arte entre o grotesco e o poético, Vermillion conduz-nos por uma aventura onde curar exige mais frieza do que fé. Os ingredientes são colhidos entre cadáveres de árvores e sombras que rastejam, e as poções não se fazem por magia mas por precisão — em minijogos exigentes que traduzem o labor e a tensão de quem trabalha no limiar entre ciência e superstição. É um jogo sobre a coragem de olhar o horror nos olhos, e de diagnosticá-lo com rigor clínico.
Fatherhood
Persis Play – Polónia
Data de lançamento não definida – PC
Em Fatherhood, a guerra não é feita de balas, mas de silêncios, fugas, e da respiração contida de um pai que carrega a filha ao colo. Nesta aventura side-scroller em 2.5D, seguimos um homem comum, sem armas nem farda, a atravessar os escombros de um mundo em colapso; guiado apenas pelo instinto de proteger a filha cega. O jogo, inspirado por This War of Mine, recusa o espectáculo da violência para nos mostrar o que realmente sobrevive às bombas: o amor, o medo, e as decisões impossíveis. O toque mais marcante? Um botão para abraçar. Para consolar. Para dizer “estou aqui” sem palavras.
A mecânica do abraço não é só gesto simbólico — é uma âncora emocional e lúdica num jogo que pede que se sinta antes de se reaja. Com visuais belíssimos e uma banda sonora oriental que ressoa como um lamento antigo, o produtor de Fatherhood promete construir uma experiência em que cada escolha pesa, e cada história paralela amplia o sofrimento invisível dos civis em tempos de guerra. Não se trata de vencer. Trata-se de sobreviver com alguma dignidade. E de manter acesa, na noite mais escura, a chama da ternura.













