Há semanas que parecem ter sido escritas por um algoritmo com sentido de humor, e esta é uma delas: três dias seguidos, três roguelikes a nascer como se o acaso tivesse decidido celebrar a arte de cair e levantar. É a repetição que une tudo; não como castigo, mas como método, como filosofia. Nestes mundos, morrer é aprender, recomeçar é refinar, e a paciência é a arma mais letal, a que nos leva mais longe. Talvez seja isso que o género sempre quis dizer, afinal: que a perfeição não se atinge na primeira tentativa, mas na insistência serena de quem sabe que cada derrota é apenas uma forma de ensaio, que é inalcançável, mas muito divertido procurar consegui-lá.
Forestrike
Skeleton Crew Studio, Thomas Olsson – Japão
17 de Novembro de 2025 – Nintendo, PC
Em Forestrike, lutar é pensar. Yu, um artista marcial em peregrinação por um império corrompido, enfrenta batalhas que não se ganham apenas com punhos, mas com clareza. Cada confronto é um enigma — um teste de paciência e raciocínio, não apenas de reflexos. O protagonista domina a Foresight, uma técnica meditativa que lhe permite prever e reviver mentalmente os combates até descobrir a sequência perfeita. Só então parte para a luta real, onde o erro é morte e o sucesso, cicatriz. Há algo quase espiritual nesta ideia: a vitória como fruto da introspeção, não da pressa.
Visualmente, Forestrike parece um sonho febril entre o cinema de artes marciais e a estética do pixel art moderno. As animações são fluidas, quase hipnóticas, e a brutalidade dos confrontos contrasta com a serenidade dos momentos de pausa. Mistura de roguelike e quebra-cabeças táctico, o jogo transforma cada luta num exercício de memória e improviso; um combate entre mente e corpo. Em tempos de jogos que confundem intensidade com ruído, Forestrike aposta na precisão, na disciplina e na elegância de um golpe bem dado.
Morsels
Furcula – Canadá
18 de Novembro de 2025 – Nintendo, PC, PlayStation, Xbox
Há jogos que nascem de ideias loucas — e depois há Morsels, que parece ter escapado diretamente de um sonho febril e oleoso. Criado pela Furcula, este roguelite visto de cima transforma um rato esfomeado num exército ambulante de pequenas criaturas mutantes. Tudo começa nos esgotos, com um encontro improvável: um fatberg mágico e falante (sim, uma massa de gordura consciente) que concede ao protagonista o poder da metamorfose. A partir daí, a luta é contra a tirania felina que domina os mundos superiores — um rodopio de ação, criaturas colecionáveis e humor grotesco embalado num ritmo frenético.
Em Morsels, cada monstro é uma extensão do jogador — com forças, fraquezas e doenças absurdas que exigem decisões rápidas e estratégicas. Trocam-se cartas mágicas, alternam-se corpos e personalidades, num ciclo de caos controlado e encantador. O resultado é um jogo tão bizarro quanto viciante, um Pokémon passado pelo triturador de um sonho de David Cronenberg. E no meio de toda a gordura e delírio, sobra uma lição inesperada: até o menor dos ratos pode devorar o mundo, uma dentada de cada vez.
Moonlighter 2: The Endless Vault
Digital Sun – Espanha
19 de Novembro de 2025 – PC, Xbox
Há segundas partes que vivem de nostalgia; Moonlighter 2: The Endless Vault vive de ambição. O primeiro jogo ensinou-nos que ser comerciante pode ser tão perigoso quanto ser herói — agora, o estúdio espanhol Digital Sun dobra a aposta. Perdido na aldeia costeira de Tresna, o jogador recomeça do zero, sem um tostão, e com uma missão simples e hercúlea: transformar uma loja decadente no coração económico da comunidade. Caçar monstros e vender relíquias voltam a ser duas faces da mesma moeda: uma moeda que se ganha a sangue e suor antes de brilhar nas prateleiras.
Moonlighter 2 é o tipo de RPG que fala tanto sobre coragem como sobre comércio. O ciclo é viciante: explorar masmorras traiçoeiras, lutar contra a própria ganância, regressar à superfície e decidir quanto vale o risco que se correu. Tresna, viva e pulsante, cresce com o sucesso do jogador — ferreiros, feiticeiras e sonhadores dependem do que o herói vende e reinveste. E no centro de tudo, o Endless Vault, uma masmorra quase viva que promete recompensas só a quem ousa desafiar o abismo. Um jogo sobre o que significa cair, recomeçar e acreditar que o lucro, às vezes, também pode ser uma forma de esperança.













