Todos nós jogadores temos alguns guilty pleasures que identificamos com facilidade. Sabemos que são jogos medianos ou mesmo fracos, mas gostamos muito deles. Eu tenho fraquinhos pouco secretos por State of Decay 2 ou Fallout 76, jogos que afianço à boca cheia que são gemas por descobrir, mesmo que toda a gente os tenha descoberto e descartado. 

Estes prazeres não são nada difíceis de explicar, mas desde que joguei Supercar Collection Simulator que fiquei em privação destes tycoon disfarçados de simuladores, que não passam de versões clonadas uns dos outros. 

Ora, dizem que os nossos telemóveis não ouvem o que dizemos, mas a verdade é que quando falei sobre isto me apareceu um vídeo recomendado na aplicação do Youtube que mostrava o videogamedunkey a jogar TCG Card Shop Simulator e lá fui eu buscá-lo numa promoção. 

Tal como esperava, e o vídeo já mo confirmava sem necessidade de mais nada, este e Supercar Collection Simulator são diferentes skins de exactamente o mesmo jogo, só que em TCG Card Shop Simulator coleccionamos cartas jogáveis de figurinhas muito similares a Digimon ou Pokémon. Há inclusive a mecânica de alugar mesas para os clientes jogarem à hora e a opção de comprar diferentes materiais para criar alguma diversidade, aqui sob a forma de materiais associados aos jogos de tabuleiro. 

Não me espanta sentir-me atraído por jogos que gosto, admira-me é gostar destes jogos medianos, e mais, de ter passado mais de 30 horas em cada um deles, quando na prática são exactamente o mesmo jogo, ainda por cima, um tycoon em que repetimos exactamente as mesmas acções dias e dias a fio. 

Eu a afirmar esta minha frustração e eis que me aparece nos jogos recomendados da app store do meu telemóvel House Flipper. Pensei que não me iriam apanhar nesta, mas as análises eram muito abonatórias e pareciam genuínas. Eram mesmo. A versão para telemóvel está muitíssimo bem conseguida, mas como está estruturada para nos sacar dinheiro com microtransacções é provável que se gaste mais nela que no jogo principal e, para além disso, tem um sistema de geração de lucros intencionalmente lento, o que me levou a procurar o jogo para PC que, para além de estar no Game Pass, também já tinha no Steam. Esta versão é bem mais manhosa na sua apresentação, muito mais manhosa. 

Passo a explicar.  

House Flipper, embora com uma skin distinta dos jogos já mencionados, continua a ser um tycoon mascarado de simulador de reparador de casas, a mafiosice dele é que, ao se aperceber do provavelmente inesperado sucesso, foi lançando imensos DLC, cada um deles praticamente ao preço do jogo final, que quase que tornam o jogo uma versão da Wish do The Sims. Usualmente esse aspecto não me aborrece nem me causa qualquer desejo de comprar mais nada, porém, House Flipper é perverso ao mostrar mecânicas que apenas podem ser acedidas após comprarmos algum dos DLC. Queres arranjar o jardim? Compra o DLC ou fica a parecer este lixo que faz lembrar um bairro de lata depois de ser demolido. Queres chegar a todo o potencial lucro que uma casa te pode dar? Então já sabes o que tens de fazer. Compra! Investe! Gasta! 

Eu costumo fugir a sete pés de jogos que fazem isto, mas então porque é que enterrei mais 30 horas divididas entre o PC e as plataformas móveis neste? Exactamente pelo loop viciante que apresenta e que, agora é inquestionável, me agarra cada vez que o experimento. 

Tenho o Game Pass a expirar e uma lista de 10 jogos pré-instalados que quero jogar, no entanto estou a torrar o meu tempo nestes nestes joguinhos que servem apenas para isso mesmo, torrar tempo sem parar para pensar. Os deuses devem estar loucos!