Andei anos, aliás, décadas, a afirmar sem sombra de dúvida que a diferença entre as duas maiores séries de monster collecting é que uma era superior em videojogos, mas a outra era superior na história e na série de animação. Entenda-se: Pokémon tinha incomparavelmente melhores jogos (nunca consegui gostar de Digimon World), mas Digimon tinha melhor enredo e sobretudo melhor anime.

Muito mudou desde a criação de ambas as séries. Pokémon tornou-se o franchise mais lucrativo do mundo, e Digimon foi-se lentamente tornando uma marca de nicho por comparação ao seu colossal rival. 

O outro elemento que foi mudando foi a qualidade dos jogos de ambas as séries. Se para o gigante Pokémon identificamos uma linha proporcionalmente inversa entre o seu volume de vendas e a dedicação e qualidade dos seus jogos (com o mais recente Legends ZA a roçar o vergonhoso), já em Digimon diria que o spinoff Digimon Story a partir de Cybersleuth elevou a série para um patamar superior.

Com uma aproximação óbvia a um público um pouco mais velho, mas também a elementos mecânicos de Shin Megami Tensei, os últimos 3 Digimon Story tornaram-se dos meus jogos favoritos do género da última década.

Andei a forçar-me ao longo de 3 semanas a terminar o pokédex de Pokémon Legends ZA, sabendo que dentro do mesmo género tinha Digimon Story: Time Stranger à espera, um jogo que por quase todos os indicadores – da qualidade visual passando pela premissa, me soava a um título melhor do que o que a Game Freak lançou. E depois de terminar ambos, fica a certeza: a minha pré-concepção não estava errada.

Digimon Story: Time Stranger representa um momento de renovação ambicioso para a série Digimon em termos narrativos, combinando elementos clássicos de JRPG com uma história que atravessa dimensões e linhas temporais. Assim como os Cybersleuth, foi desenvolvido pela Media.Vision e editado pela Bandai Namco, e lançado para PS5, Xbox Series X|S e PC em Outubro de 2025. 

Aqui assumimos o papel de um (ou uma) agente de uma organização secreta chamada ADAMAS e presenciamos uma catástrofe em Tóquio (o chamado “Shinjuku Inferno”), com um Digimon colossal a destruir a cidade, para depois acordarmos oito anos no passado e tentarmos impedir a destruição tanto do mundo humano como do Digital.  Esta premissa de viagem no tempo e de realinhamento de destinos traz para o jogo uma ambição narrativa que vai bastante para além de um simples objectivo de “coleccionar Digimon”, ainda que admita que, para o tipo de jogador que sou, esse foi o meu maior foco.

Um dos pontos mais fortes do jogo é, precisamente, a profundidade das mecânicas de digievolução e a personalização dos Digimon, e a forma como as ramificações de evolução vão-nos obrigando inclusivamente a treinar diferentes estatísticas e obter tipos de personalidades específicas na DigiFarm, um sistema sem-automático de treino das nossas criaturas digitais. Há mais de 450 Digimon para coleccionarmos e treinarmos, e as rotas de evolução não são lineares, permitindo-nos experimentar diferentes caminhos, e felizmente todos os Digimon que temos recebem uma fracção do XP da party, contribuindo para a sua evolução.

Este elemento parece facilitar o grind quando comparado com Pokémon, mas é verdadeiramente essencial, visto que podemos digievoluir (ou de-digievoluir, regredindo numa evolução), e sempre que o fazemos voltamos a nível 1. Outro aspecto relevante é o sistema de “bond” ou ligação entre nós e os nossos Digimon: não basta apenas lutarmos, é preciso criarmos laços, com habilidades que desbloqueamos com o nosso Agent Rank. Esse vínculo pode influenciar tanto a força dos Digimon como as suas habilidades e rotas de evolução, introduzindo uma componente emocional e de gestão que reforça o papel dos Digimon como companheiros, e não só como “monstros para coleccionar”. 

O Agent Rank – a nossa posição na estrutura da ADAMAS – é aumentada pelo número de pontos de habilidade que gastamos nas diversas skill trees, sendo que esses pontos são obtidos na conclusão de main e side missions.

A importância do Agent Rank reside também no facto de que é ele o limitador da digievolução de Digimon: para subirem de Champion para Ultimate, e daí para Mega, necessitamos de estar no patamar exigido.

No que toca ao combate, Digimon Story: Time Stranger aposta em batalhas por turnos, onde é possível antecipar e evitar os encontros com inimigos (não é só combates aleatórios), o que melhora a experiência de exploração, e de alguma forma, o grind que também existe. 

Vindo eu da desilusão avassaladora de Legends ZA, tenho de reconhecer que Digimon Story: Time Stranger me impressionou: tanto o mundo humano como o Digital (apelidado de Iliad, a nova versão do Mundo Digital) estão bem construídos e com detalhes, com ambientes e biomas variados, cidades digitais vibrantes e locais místicos que reforçam o tom épico da narrativa. Com mais de 450 Digimon, com muitos deles a serem épicos monstros humanoides extremamente detalhados, é impossível não reconhecermos a qualidade tremenda em todas as suas modelações e animações.

A viagem no tempo e os conceitos de destino e legado são bem explorados, e há personagens interessantes como Inori Misono e os deuses Digimon Olympos XII que dão dimensão mitológica à história. Apesar da história interessante que nos obriga a revisitar mundos e linhas de enredo em tempos diferentes, senti, porém, alguns problemas de ritmo: apesar da história ser interessante, há momentos em que a progressão narrativa pode parecer lenta ou excessivamente repetitiva. E isso deve-se, no meu entender, à simples falta de fast travel tradicional, que nos permitisse abrir um mapa geral e levar-nos para outro mundo ou dimensão. Digimon Story: Time Stranger obriga-nos a calcorrear imensos caminhos para encontrar um táxi, um Birdramon ou um Blipmon para nos levar a locais específicos. E visto que andei a completar todas as side quests, adicionei ainda mais horas apenas de andar para a frente e para trás que poderiam facilmente ser evitadas.

Para além disso, recrutar certos Digimon pode ser bastante trabalhoso: é necessário lutar várias vezes para “converter” inimigos em Digimon jogáveis, num grind que envolve um scan automático sempre que contactamos essa criatura. Depois de o termos pelo menos a 100% podemos invocá-lo e “apanhá-lo”. 

Há também um problema de equilíbrio: alguns bosses exigem equipas muito específicas para serem derrotados, o que pode tornar algumas lutas longas ou frustrantes. 

Posso-vos dizer com toda a propriedade que Digimon Story: Time Stranger é um ponto de entrada ideal para novos fãs de Digimon, precisamente por não depender de conhecimento prévio de outros jogos da série. E digo-o porque a primeira pessoa a terminar o jogo lá em casa foi o meu filho mais novo que se tornou imediatamente fã da série, e que já a terminar a terceira temporada do anime, Digimon Tamers, graças ao entusiasmo que o jogo lhe criou.

Pela qualidade visual e pelo arrojo narrativo, Digimon Story: Time Stranger é para mim o melhor jogo de Digimon de sempre, que eleva a série para um patamar distante de qualidade a que a Game Freak fadou os seus jogos de Pokémon. Se dúvidas existiam que nesta década a série Digimon não só está em alta com o lançamento de um excelente TCG, só nos falta aceitar que suplantou a qualidade do seu grande concorrente, mas sem nunca ter pretensões de beliscar a importância global que Pokémon tem para a cultura pop.