Se a minha mãe fosse Tétis (que não era), acredito que ao mergulhar-me no Estige, o que deixaria fora de água (e portanto não afectada pela minha invulnerabilidade) não seria um calcanhar, mas qualquer coisa que remeta para Oda e para One Piece, e com isso, piratas.

É que desde que me aventurei há 17 anos a ler One Piece, que qualquer jogo ou obra que fale de piratas se transforma numa espécie de pedra de kryptonita, cuja influência sou demasiado fraco para combater.

Não é de espantar assim que Pirate Outlaws 2: Heritage, a mais recente aposta do estúdio independente Fabled Game, que regressa a este universo criado em 2019, me agarrasse a atenção de imediato. E pior ainda, para quem conhece, é com a temática vem também um delicioso roguelike deckbuilder que se apoia nas ideias do original, mas expande-o. 

Lançado em acesso antecipado para PC no início de Dezembro de 2025, Pirate Outlaws 2: Heritage leva-nos numa aventura marítima repleta de combates tácticos por turnos, cartas e exploração de ilhas, com uma direcção de arte extremamente identificativa.

A base da experiência do jogo anterior (que podem jogar no Steam ou em mobile) continua a assentar na construção dinâmica de baralhos, permitindo-nos combinar cartas ofensivas, defensivas e de habilidades especiais, enriquecida nesta sequela com um sistema de fusão que permite evoluir cartas ao longo da campanha. Um sistema diversificado que ainda por cima funciona na perfeição com a temática da pirataria marítima.

No final de cada batalha temos a hipótese de escolher uma de entre três cartas, e se tivermos no nosso baralho três cópias da mesma carta, é-nos dada a possibilidade de a melhorar em um de dois caminhos. Este é um sistema que parece mais complexo, mas que na realidade, depois de jogado, se percebe que Pirate Outlaws 2: Heritage é bastante acessível, e diria até que tem uma abertura para novos jogadores que o torna até um excelente gateway para o género.

Cada run tem a estrutura de tantos outros roguelikes: seguimos numa viagem por diferentes regiões marítimas, que têm como paragem obrigatória os combates com bosses, conhecidos aqui como Sea Masters, para além de eventos aleatórios que alteram o rumo da nossa expedição. A natureza roguelike garante que nenhuma viagem é igual à anterior, incentivando-nos a experimentar novos baralhos e a novas escolhas de cartas.

Pirate Outlaws 2: Heritage disponibiliza-nos três heróis iniciais, cada um com várias classes distintas, permitindo-nos abordagens de jogo radicalmente distintas. A estes juntam-se companheiros que podemos recrutar para a nossa tripulação, para além de equipamento diferente para o nosso loadout e relíquias com efeitos passivos, que nos permitem criar uma teia complexa de decisões em cada nova run. 

Fruto da monotonia eventual do género, os criadores de Pirate Outlaws 2: Heritage tentaram alterá-lo ao implementar duas vertentes principais em termos de modos: a Campanha, focada na exploração narrativa e na progressão gradual e permanente, e a Arena, com desafios rápidos, onde testamos directamente os nossos baralhos contra vagas de inimigos progressivamente mais difíceis. 

Ainda em acesso antecipado, Pirate Outlaws 2: Heritage é muito mais casual do que muitos dos seus congéneres, e sinto que pode assumir-se como uma tremenda porta de entrada para os deckbuilders roguelike. Um jogo cujo desenvolvimento merece ser mantido sob observação, e não apenas porque tem piratas. Eu já vos tinha dito que este era um jogo de piratas?