
Bebesse eu um shot por cada vez que identifico um excelente jogo indie e o refiro (ou alguém o refere) como finalista do Indie X, e certamente que estaria a sofrer de alcoolismo. E eu que bebo apenas e no máximo uns 8 copos de vinho por mês, certamente iria sentir o teste à minha resistência.
O jogo do qual falo hoje foi uma das grandes surpresas do Indie X 2024: Goblin Cleanup. Um jogo que parte de uma ideia simples: em vez de sermos os heróis que percorrem e pilham masmorras, assumimos o papel ingrato — e frequentemente invisível — de quem tem de limpar o caos deixado para trás. Uma inversão de perspectiva que é mais do que apenas um apelo humorístico: é a fonte de uma série de ideias mecânicas que nos colocam um sorriso na cara, e que conceptualmente fazem muito sentido.

Por estranho que pareça, com as manchas de sangue pelas paredes das masmorras, eu até considero Goblin Cleanup como um jogo cozy: uma experiência leve, quase paródica, com um tom cómico e com uma direcção artística mais cartoonizada em detrimento do realismo. No entanto, à medida que avançamos, torna-se claro que o jogo está mais interessado em explorar sistemas mecânicos do que ser uma espécie de one trick pony humorístico, como uma piada que se estendeu por demasiado tempo.
As masmorras que percorremos não são espaços vazios após a passagem dos aventureiros: restam monstros que nos querem impedir de limpar a sua “casa”, mimics esfomeados, mecanismos instáveis, para além de membros esquartejados e manchas de sangue nas paredes como uma pintura do Pollock.

Se há décadas Molyneux já tinha invertido a perspectiva que temos de dungeon crawling, Goblin Cleanup leva essa mudança de perspectiva ainda mais longe, ao mostrar-nos o “trabalho sujo” por trás das grandes aventuras que heroicamente levamos a cabo. De uma certa forma Goblin Cleanup permite-nos desmontar a glorificação tradicional da violência heróica e dá protagonismo a personagens que nos habituámos a ver como descartáveis: os goblins, que aqui não são inimigos menores como na maioria dos jogos, mas trabalhadores organizados, com hierarquias, numa escolha narrativa que reforça e muito o tom satírico do jogo.
Há algo de satisfatório psicologicamente com a limpeza que levamos a cabo em salas de masmorras, que me remete para a visão pacificadora que Power Wash Simulator tem. É claro que Goblin Cleanup não é assim tão relaxante, até porque os perigos fatais espreitam a cada esquina. E dado que já fui devorado pelo menos 6 vezes por mimics, enquanto lhes atirava pedaços de braços de heróis, ou outra dessas vezes foi mesmo a tentar alimentá-lo com um slime encharcado em sangue.

As ideias bizarras e macabras de Goblin Cleanup são um dos factores que mais me diverte, e uma delas é a solução que os autores tiveram para esfregona: pegamos num tridente, empalamos uma pobre slime e usamo-la para limpar as manchas de sangue, e quando esta, com o seu ar triste, passar do azul translúcido a um vermelho carmim, provando-se inútil como ferramenta de limpeza, só temos de a atirar para a boca do mimic mais próximo, e voilá, estamos prontos para criar mais uma Vileda infernal.
Mas não é só de limpeza que a nossa tarefa enquanto prestáveis serviçais de dungeon lords vive: temos também de utilizar magia para reparar as decorações e armadilhas das masmorras, para além de voltarmos a organizar o loot que espera calmamente pela nova party de heróis que irrompa pelos portões adentro.

É isto que me agrada nos jogos indie, a capacidade e liberdade de pegar em ideias tresloucadas e desenvolvê-las, numa experiência que tanto pode ser passada a solo ou com companhia de amigos. Não sendo totalmente original esta perspectiva de limpeza misturada com comédia negra – o já clássico indie Viscera Cleanup o fez há mais de dez anos – mas o estúdio argentino/uruguaio Crisalu Games soube pegar nessa inspiração e trazê-la para um tema ainda mais próximo dos jogadores, satirizando o ambiente dos jogos de fantasia de forma magistral e… visceral.













