Na escolha entre cozy games e antidepressivos, ganham os videojogos relaxantes, com a sua tradição de nos mergulharem num loop mecânico descomprometido. Coincidentemente, numa fase em que preciso de limpar a cabeça tanto das pressões externas do mundo, como de algumas pressões internas minhas, tenho recebido alguns jogos indie cozy para cobrir, e um deles despertou-me pela sua simplicidade: Tailside Cozy Café Sim.

Tailside Cozy Café Sim é fruto do trabalho de uma pessoa só, e assume-se desde o primeiro momento como um abrandamento do ritmo, pedindo-nos, e de uma forma obrigando-nos, a desfrutar do simples prazer de gerir um pequeno café num mundo habitado por animais antropomórficos. 

Apesar de termos metas diárias de número de pedidos respondidos, rapidamente percebemos que tudo no jogo parece desenhado para nos fazer reduzir a tensão do dia-a-dia: desde o ritmo pausado de cada in-game day, até à ausência de pressões excessivas sem serem objectivos relativamente latos como “chega a nível x ou y”.

Para esta sensação mais acolhedora em muito contribui o estilo visual deliberadamente suave e detalhado, que nos transmite uma nostalgia acolhedora, onde a pixel art não é apenas uma escolha estética, mas uma forma do seu criador nos fazer sentir ainda mais em casa.

Os habitantes deste mundo são todos fofos animais antropomórficos, cada um com uma identidade própria e pequenas histórias que vão surgindo através das interacções diárias que temos com eles. Um exemplo interessante é o urso carpinteiro, responsável por criar todas as mobílias do café, mas que conhecemos como um cliente do nosso estabelecimento, antes de descobrirmos que era a ele que encomendámos as mesas e cadeiras que decoram o nosso espaço. 

A resposta mecânica preparação do café é feita através de mini-jogos que representam os diferentes processos de produção das bebidas e que se alinham com o tom relaxante da experiência. Temos de aprender a sequência certa para produzir os diferentes tipos de café que temos à venda a partir de um livro de receitas, mas, infelizmente, estes mini-jogos podem, com o passar do tempo, tornar-se bastante repetitivos. A falta de grande variação mecânica faz com que aquilo que começa por ser um ritual agradável de aprender e repetir acabe por perder algum do seu encanto dada a quantidade brutal de cafés que “tiramos” em sequência, algo ainda mais perceptível especialmente para quem passa muitas horas no jogo de forma consecutiva.

A diferenciar-se um pouco desta monotonia mecânica está a preparação dos lattes, que introduzem um mini-jogo específico dedicado à personalização da chamada “arte” feita com a espuma do leite. Temos a possibilidade de desenhar com o rato pequenos padrões sobre a bebida, transformando cada chávena num gesto quase artístico. 

Este momento encaixa bem na filosofia relaxante do jogo, funcionando como uma pausa criativa dentro da rotina do café, já que a pressão da fila de clientes não é intensa como em muitos outros jogos de gestão de estabelecimentos alimentares. No entanto, tal como acontece com os restantes mini-jogos, esta mecânica acaba por revelar os seus limites após várias repetições e rapidamente cai também na monotonia. 

A decoração do café segue a mesma filosofia de simplicidade: temos liberdade para personalizar o espaço, escolhendo mobílias e pequenos elementos decorativos que alteram o ambiente geral, mas o sistema não é particularmente profundo. Funciona bem como complemento estético e como forma de expressão pessoal, mas sem nunca se tornar complexo, especialmente pelas limitações espaciais do próprio café que não deixam margem para grandes personalizações de organização.

Tailside Cozy Café Sim é um jogo onde a extrema simplicidade o torna imediatamente apelativo, mas acaba por ser também a sua maior limitação. A repetição dos mini-jogos e a ausência de sistemas mais profundos fazem com que, após algum tempo, o jogo possa fartar, ainda que os cozy games tradicionalmente girem em torno de sistemas mecânicos circulares e relacionáveis, o loop mecânico deste indie precisa de ser um pouco mais extenso do que é agora.